15 de março de 2026

Primeira Impressão

To Whom This May Concern
Jill Scott



A Verdadeira Beleza

Pressha
Jill Scott


Uma das melhores canções de To Whom This May Concern, da Jill Scott, Pressha é uma aula completa de como fazer uma música que a gente ouve e já percebe que é uma obra de valor irrefutável.

Tudo começa com a sua impressionante e forte composição, que relata e reflete sobre a pressão sobre a aparência física da mulher e, especialmente, como essa pressão reflete nos relacionamentos amorosos. Jill narra como foi estar em um relacionamento em que, apesar do interesse do companheiro, ele não a assumia devido à cantora não estar nos padrões.

Devastadora, poderosa, crua e honesta, Pressha é um trabalho de uma força emocional imensa, pois, além de ter uma letra com esse poder, a presença de Jill arremata tudo devido à maneira tão desconcertante que ela carrega a canção, transitando entre o melancólico e contido até o devastador e explosivo. E tudo isso demonstrando claramente o seu atemporal timbre e um alcance vocal impressionante.

Sonoramente, a canção é uma refinadíssima, profunda e adulta neo-soul/R&B com injeções de jazz que é como vinho bom que, quanto mais tempo vai se passando, vai ficando ainda melhor devido à sua instrumentalização classuda e a um trabalho de produção magistral. E essa é a beleza de ouvir uma artista.
nota: 8,5

Primeira Impressão

the apple tree under the sea
hemlocke springs



Um Aceno Ao Seu Passado

Blow My Mind
Robyn

Ao longo da sua frutífera carreira, a Robyn já provou várias vezes que é uma das artistas mais excitantes, não importando qual é o seu momento atual. E, novamente, a cantora comprova isso ao lançar a ótima Blow My Mind.

Não é apenas a qualidade da canção, mas, sim, a sua ideia por trás. O single é, na verdade, uma espécie de remake/nova versão de uma canção da cantora que foi faixa do seu álbum Don't Stop the Music, de 2002. A ideia é bem interessante e poderia, porém, dar errado se não tivesse a produção refinada de Klas Åhlund, que consegue trabalhar a canção original de uma maneira tão peculiar, refrescante e iluminada sem perder a essência da canção original, que já é ótima.

Produzida originalmente por Guy Sigsworth, Blow My Mind é uma refinada mistura de electroclash com eletrônico e indie rock/pop que remete bem à estética do mesmo, especialmente quando a gente compara com outros trabalhos com a sua assinatura como, por exemplo, What It Feels Like for a Girl, da Madonna, e vários da Björk. Na nova versão, a canção mantém certa base, mas se transforma nas mãos de Klas Åhlund em uma canção menos intrigada para uma grudenta, despretensiosa e deliciosa mistura de electrofunk com alt-pop, synth-pop e toques de pop japonês. É uma mudança sentida, mesmo que não seja inimaginável, que constrói toda uma nova personalidade para a canção, tornando-se uma raridade: ser um remix que é, ao mesmo tempo, uma reconstrução e, também, uma nova canção.

Gostaria, porém, que a canção fosse maior para que a produção pudesse mostrar mais das suas ideias. Todavia, a presença sempre iluminada da Robyn em uma performance sensacional e uma composição muito segura e carismática compensam isso. Enfim, Blow My Mind é basicamente um unicórnio que mostra o quão raro é o talento da Robyn.
nota: 8

Kacey das Antigas

Dry Spell
Kacey Musgraves


Desde que ganhou o Grammy de Álbum do Ano por Golden Hour, a Kacey Musgraves entregou bons trabalhos que não estavam exatamente na mesma altura que o seu percursor. Não sei se com Middle of Nowhere isso vai acontecer, mas, pelo primeiro single, a ótima Dry Spell, existem boas possibilidades.

A grande qualidade da canção é vista quando a gente repara que a “velha” Kacey está de volta, mais precisamente a de Pageant Material. E isso acontece devido à composição ácida, divertida, ousada e autodepreciativa ao narrar sobre a “seca” sexual da mesma. Nunca um assunto como esse poderia resultar em algo tão bem escrito e maduro se não tivesse alguém com o tino lírico da cantora, pois a maneira como a canção é escrita dá para perceber toda a sua personalidade exposta e explorada. E isso é algo revigorante, já que é usado para explorar sentimentos como solidão e autocuidado.

Dry Spell também é um trabalho sonoro muito acima da média ao entregar um country-pop/pop rock mais do que eficiente, já que tem uma produção que acerta perfeitamente todos os pontos, criando uma canção que não foge das raízes e não está nada perto dos clichês do gênero atualmente. Poderia explorar mais o seu inspirado instrumental, mas, sinceramente, o trabalho aqui é tão bem amarrado que não há nenhuma ponta solta. E, com uma performance bem característica sua, que entrega exatamente o que a canção precisa e ainda adiciona personalidade, Kacey Musgraves está de volta aos velhos e bons trilhos.
nota: 8


A Volta (Quase) Inesperada

Club Song
The Pussycat Dolls

Em 2019/2020, o The Pussycat Dolls fez um ensaio de comeback quando foram impedidas pela pandemia de Covid. Seis anos depois, a girl group está de volta para finalmente ir para o comeback, mas apenas como um trio, já que duas integrantes não foram convidadas (Carmit Bachar e Jessica Sutta). E como primeiro single foi lançada a legalzinha Club Song.

A canção é uma divertida e dançante mistura de pop e electropop com toques de hip hop, latin pop e reggae, lembrando muito uma prima distante de Beep e Buttons. Todavia, o resultado está longe das suas parentes, pois parece que a produção limita a canção em entregar uma faixa teoricamente explosiva, mas que nunca chega ao seu total potencial. E, quando parece que vai, Club Song termina de maneira meio sem graça e anticlimática.

É preciso dizer, porém, que o refrão parece funcionar melhor do que o esperado, especialmente da metade para frente. Outra boa qualidade da canção é o seu clichê e quase vergonha alheia trabalho lírico, que entrega exatamente o que a gente espera de uma canção do The Pussycat Dolls. Voltando aos vocais principais, Nicole Scherzinger sempre foi uma competentíssima cantora, que precisou ir para o teatro musical provar isso, e entrega uma performance sólida e com personalidade de sobra. E dá para ver as outras integrantes, Ashley Roberts e Kimberly Wyatt, tendo algum espaço que poderia ainda ser maior.

Um pouco fora de “timing” para um retorno, o The Pussycat Dolls ainda tem fagulha que pode chegar em algum lugar. Veremos.
nota: 6,5

8 de março de 2026

Primeira Impressão

Kiss All The Time. Disco, Occasionally.
Harry Styles


A Estética Versus Coteúdo

American Girls
Harry Styles


Segundo single de Kiss All the Time. Disco, Occasionally, American Girls é a representação ideal das qualidades e dos defeitos da sonoridade do Harry Styles.

A produção acerta ao entregar uma animada, mas relativamente contida e atmosférica mistura de alt-pop, soft rock e dance-pop, que tem um instrumental realmente cativante e maduro. Não é exatamente um trabalho brilhante, mas é fácil notar que claramente mostra evolução sonora do Harry ao mesmo tempo em que adiciona novas camadas.

Todavia, American Girls erra novamente no calcanhar de Aquiles do cantor ao ter uma bem-feita, mas vazia composição que parece querer dizer várias coisas que não chegam a ressoar de verdade e, no final, termina sendo uma casca lírica divertida e esquecível. Felizmente, a boa performance de Harry, que capta o espírito da canção, ajuda a aparar algumas pontas soltas.

Uma canção que poderia ser bem mais interessante, mas que termina pelo menos sendo acima da média.
nota: 7,5

Novas Camadas

I Had A Dream She Took My Hand
James Blake

Sempre considero algo auspicioso quando um artista consegue adicionar novas camadas à sua sonoridade sem perder nada da essência. Esse é o caso da espetacular I Had A Dream She Took My Hand, de James Blake.

Segundo single do álbum Trying Times, a canção tem toda a atmosfera de um trabalho do artista, mas é moldada de uma forma que quebra expectativas. E a principal razão é a utilização do sample de It Was Only A Dream, da banda Thee Sinseers, que dá à canção uma base big band/jazz vintage que permeia toda a sua construção, mesclando-se e fundindo-se com a estrutura art pop/R&B alternativo da sonoridade de James. Com uma produção refinadíssima, I Had A Dream She Took My Hand se torna um trabalho elegante, tocante e inspiradíssimo, que vai se desenrolando em uma das canções mais magnéticas e emocionais da carreira de James Blake.

A canção, porém, perderia força se não tivesse aliado à sua produção outros elementos que a fizessem realmente se sobressair. E tudo está intimamente ligado à performance sensacional do cantor que, ao retirar certos efeitos vocais, deixa seu belíssimo timbre brilhar de forma mais natural em uma interpretação realmente impactante, desde o seu começo mais contido e delicado até o clímax mais complexo e poderoso. Além disso, a composição é simples, mas eficiente ao relatar, de maneira sensível, o ato de se apaixonar pela primeira vez: “I had a dream she took my hand / I feel higher than storms, lighter than sand”.

Somando-se a esse resultado o de Death of Love, fica claro que James Blake tem a possibilidade de entregar um dos álbuns do ano.
nota: 8,5

A New Age Of Bebe

New Religion
Bebe Rexha & Faithless


Não esperava que a nova era da Bebe Rexha pudesse ser de verdade o seu triunfal momento de renascimento, mas com New Religion começo realmente a acreditar que isso seja verdade.

Primeiro single oficial de Dirty Blonde, a canção é um trabalho curioso ao ser um “remake” da canção Insomnia, da banda Faithless, sendo algo parecido com o que foi feito em Wild Thoughts. E a grande surpresa é que funciona muito melhor do que o imaginado. Pegando parte da construção da parte final da canção original, New Religion é uma excitante, elegante e eficiente progressive house com dance-pop e diva house que dá certo devido à produção competente e madura, que cria uma canção que funciona sabendo a gente ou não da sua origem. E, mais que isso, há o fato de a produção saber como usar os clichês do gênero de uma maneira inteligente, não duvidando da inteligência de quem escuta.

Outro ponto de destaque é a composição realmente inspirada de New Religion, ao ser um trabalho que tem profundidade temática ao falar sobre alguém se encontrar finalmente na vida. Entretanto, a estética da canção está bem de acordo com os maneirismos do gênero, com frases de efeito que ficam entre o pieguismo e o dramático, mas claramente bem pensadas para exalar de propósito esse estilo. Fechando como a cereja do bolo, está a ótima performance da Bebe, que encontra aqui um dos melhores veículos para demonstrar sua capacidade vocal.

Resumidamente: esse é o novo começo de era para a Bebe Rexha.
nota: 8

New Faces Apresenta: Tiffany Day

START OVER
Tiffany Day


Em um mundo pós-Brat, a possibilidade de ouvir um hyperpop que tenha “inspiração” na Charli XCX é bem alta. Todavia, é refrescante quando nos deparamos com casos em que isso não acontece, como na ótima START OVER, da novata Tiffany Day.

A canção tem como grande qualidade a sua caprichada, autêntica e madura produção, que guia essa mistura de hyperpop e electropop por lugares sonoramente conhecidos, mas que nunca parecem cópias e/ou influências diretas. É uma produção que conhece suas inspirações, criando uma canção que entende muito bem as dinâmicas sonoras e adiciona texturas ao longo de toda a faixa.

Gosto especialmente do seu clímax final, pois consegue adicionar novas nuances sem perder o que foi construído ao longo da canção. Preciso apontar, porém, que tenho certo problema com a batida do sintetizador, que em alguns momentos se sobressai demais em relação ao resto do instrumental, criando certo ruído ao final de START OVER.

Vocalmente, a canção não dá muito espaço para entendermos qual é a real capacidade da Tiffany, mas, felizmente, a cantora entrega uma performance encantadora, sólida e que sabe muito bem usar efeitos vocais para ajudar a incrementar o resultado final. Também é preciso dizer que a composição tem ótimos traços, que são auspiciosos, pois mostram profundidade e, ao mesmo tempo, demonstram um bom senso estético. Não é um trabalho exatamente genial, mas START OVER é o tipo de canção que pode fazer diferença na carreira de Tiffany Day.
nota: 8

Sem Salvação

Save Me Tonight
Jennifer Lopez & David Guetta


Não que eu estivesse esperando uma canção memorável da parceria entre Jennifer Lopez e David Guetta, mas Save Me Tonight é o tipo de trabalho que podemos apontar apenas como totalmente esquecível.

Não chega a ser uma bomba, pois, tecnicamente, é uma produção decente. Todavia, a produção careceu de uma dose cavalar de criatividade, pois entrega exatamente o que se espera — e de forma ainda menos inspirada — de uma mistura de europop com electropop e EDM. Dá até para se divertir às três da manhã quando começar a tocar na balada, mas Save Me Tonight é um trabalho que não tem a menor vontade de ser mais do que realmente é: uma farofada bem morna.

Isso é agravado pela composição mediana, que poderia facilmente ter sido feita por IA, devido à falta de qualquer toque que não seja mecânico e massificado. O ponto positivo da canção é a performance segura da J.Lo que, sinceramente, merecia algo bem mais interessante do que essa farofada sem gosto.
nota: 5,5

1 de março de 2026

Primeira Impressão

The Romantic
Bruno Mars



Nada Arriscado

Risk It All
Bruno Mars

Lançado como segundo single de The Romantic, Risk It All realmente não tem nada de arriscado, mesmo trazendo algumas surpresas. Felizmente, o trabalho ainda carrega o selo de qualidade de Bruno Mars.

A grande sacada dessa balada é a adição de influências latinas, especialmente — e deliciosamente — a inclusão do bolero na mistura da segura base de R&B/soul. E isso dá todo o tempero necessário para a canção se tornar realmente um trabalho diferenciado sem, porém, perder a essência básica do artista.

Todavia, o grande destaque de Risk It All é a inspiradíssima performance de Bruno, que não apenas domina a canção primorosamente, mas também nos faz lembrar do quanto o seu timbre é lindo e aveludado quando ele o deixa se expor dessa maneira. A primeira parte da canção, em especial, em que a sua voz é colocada em evidência, é realmente deslumbrante.

Sem correr riscos, Bruno garante mais um momento verdadeiramente inspirado para a sua carreira.
nota: 7,5

A Balada de Um Coração Esperançoso

Nightingale Lane.
RAYE


Depois do sucesso mais do que merecido de WHERE IS MY HUSBAND!, Raye lança mais um single do seu próximo álbum (This Music May Contain Hope), intitulado Nightingale Lane. E o resultado prova por A + B que não há nenhuma outra artista atualmente no nível da britânica.

O oposto do single anterior, a nova música é uma balada épica que mistura com perfeição vários elementos que influenciam a sonoridade da artista, ao fundir jazz, pop e soul em um instrumental simplesmente espetacular e de cair o queixo. A construção direta, mas complexa, do arranjo demonstra não apenas todo o cuidado artístico de Raye, como também uma produção inspirada, madura e encantadora. As camadas que vão sendo desenroladas durante a execução da canção são impressionantes, especialmente devido à quantidade de texturas e nuances adicionadas, que poderiam facilmente fazer da faixa algo cheio apenas de boas intenções — e não um trabalho completamente realizado. Felizmente, Nightingale Lane passa muito longe disso e ainda entrega muito mais. Outro grande trunfo da canção é ser, liricamente, a cara-metade de WHERE IS MY HUSBAND!.

No single anterior, Raye brincava jocosamente sobre encontrar um amor para chamar de seu. Agora, o tom é mais dramático e, ao mesmo tempo, mais esperançoso, pois, ao relatar o primeiro amor da sua vida — que também foi sua maior decepção —, a cantora demonstra uma visão clara de que ainda acredita que viverá seu grande amor. E toda essa grandiosidade emocional é potencializada por uma composição excepcional, que nunca soa piegas, mas sempre explode em emoção sincera e genuína. Ainda há um senso estético apuradíssimo que expressa todos esses sentimentos de maneira igualmente refinada: “We never were quite right for each other, baby / But in the absence of passion in my life / I remember how alive love once was”. Complexo, mas direto e nada pretensioso.

E tudo isso é interpretado de maneira genial por Raye, que simplesmente entrega a melhor performance da sua carreira. Não é apenas uma performance grandiosa, mas, sim, definidora de carreira. Existe um toque da aspereza de Janis Joplin, misturado com a melancolia de Amy Winehouse, com nuances do poder vocal de Mariah Carey e inspiração nas grandes divas do jazz. Tudo isso, porém, está nas entrelinhas, pois Nightingale Lane é uma canção que escancara todo o talento de Raye em sua forma mais pura.

É assim que uma artista se torna uma lenda. Que vida, Raye!
nota: 9

Sem Descanço

OLD TECHNOLOGY
Slayyyter

Quinto single lançado do álbum Worst Girl in America, que só vai ser lançado no final de março, a canção OLD TECHNOLOGY continua a provar que Slayyyter vai entregar um dos álbuns do ano.

Assim como todos os singles anteriores, a canção também é uma exploração refinada dos limites do pop, ao ser uma fusão de electropop com electroclash, com toques de rap pop, punk, industrial e hip hop. O resultado poderia ter sido um pouco mais apurado, mas a produção entrega uma canção com uma pegada tão distinta que vai ajudando a criar uma sonoridade com a cara da Slayyyter, que é rústica, pegajosa, excêntrica e com personalidade inusitada.

Gosto, especialmente, dessa introdução punk na construção da canção, pois é uma nuance que faz com que OLD TECHNOLOGY realmente capture a essência que a artista quer passar na sua sonoridade. Novamente, Slayyyter carrega a canção com uma despretensão vocal excelente, pois se alinha com a condução da produção sem ser sufocada pela mesma. E, mesmo não sendo uma cantora com um grande alcance vocal, Slayyyter sempre vem se mostrando de uma versatilidade excepcional, que é a chave para fazer todas as canções funcionarem.

Tenho que admitir que não sou exatamente fã da composição, não pelo teor, mas, sim, pela sua forma escrita, que não encontra um lugar de equilíbrio perfeito para poder explorar a contento os meandros que a canção apresenta. De qualquer forma, OLD TECHNOLOGY é outro importante tijolo na ascensão artística e, quem sabe, comercial da Slayyyter.
nota: 8

Free Ava!

KiLL iT QUEEN
Ava Max


Depois de uma batalha com a sua ex-gravadora, a Ava Max está finalmente livre para seguir uma carreira com maior controle sobre seus caminhos a seguir. Como primeiro single, foi lançada a simpática KiLL iT QUEEN.

Longe de ser seu melhor trabalho, a canção parece deixar à mostra que a cantora vai possivelmente explorar mais a sua sonoridade. E isso se dá devido à produção apostar em uma excêntrica construção para a batida electropop da canção, que parece se inspirar na cadência de Bohemian Rhapsody.

Não vi nenhum lugar citando o uso de samples, mas KiLL iT QUEEN ganha claramente essa inspiração, que a faz realmente funcionar melhor que o esperado, especialmente depois de uma segunda ouvida e, especialmente, da sua metade para frente.

O problema da canção é sua “catch”, mas piegas e previsível composição que busca ser sobre amor-próprio e empoderamento, cheia de frases de efeito e sem substância. Felizmente, Ava compensa boa parte desse problema com uma performance realmente acima da média, versátil e com personalidade distinta.

KiLL iT QUEEN não coloca fogo no mundo, mas é um bom recomeço para a carreira da Ava Max.
nota: 7

Diversão Melancólica

She Knows Too Much
Thundercat & Mac Miller

Ouvir She Knows Too Much, single do Thundercat, é um exercício complicado, pois é, ao mesmo tempo, uma diversão pura e também muito triste devido à presença do Mac Miller.

Frequente colaborador do rapper, Thundercat lança a canção oficialmente como single do seu novo álbum depois de seis meses de a mesma ter vazado. E é novamente um trabalho que só deixa escancarado o tamanho gigantesco do talento do Mac. Completamente despretensioso, o rapper entregou uma performance deliciosa, divertida, leve, suingada e de carisma puríssimo em uma canção que não teria a mesma força sem a sua presença. E isso é comprovação da profundidade da capacidade artística de Mac ao encarnar essa deliciosa e dançante mistura de funk com pop rap e jazz fusion. E olha que a produção poderia ainda ser melhor.

Assinada por Greg Kurstin, She Knows Too Much é um trabalho refinado, mas que poderia alcançar seu potencial total no momento em que se soltasse desde o começo. E isso acontece devido ao instrumental só explodir no seu terço final ao ser incrementado por mais instrumentos que dão mais substância para a canção. Até essa parte, a grande força é a presença iluminada de Mac e a harmonia com Thundercat, que toma aqui um papel mais coadjuvante vocalmente. Quando há essa passagem instrumental, a canção ganha toda a sua mágica sonora, conseguindo ser arrematada de maneira deliciosa e excitante.

De qualquer forma, a canção ainda é um trabalho que precisa ser ouvido, mesmo que seja uma forma de homenagear Mac Miller.
nota: 8

K-Pop Brasil

TIC TIC
NMIXX & Pabllo Vittar


Depois da primeira parceria, a Pabllo Vittar volta a trabalhar com o girl group coreano NMIXX, mas dessa vez como participação especial. E o resultado de TIC TIC parece mostrar que a união deu samba de verdade.

Dessa vez, porém, a canção tem mais elementos de K-pop, usando o funk como influência na construção da batida. E isso não é um problema, pois, novamente, é feito de uma maneira muito bem pensada, divertida e inteligente, sabendo extrair o melhor das influências.

Novamente, o single é clichê, mas é o tipo de canção que só realmente funciona com esse toque, já que, se explorasse demais, é bem possível que desse muito errado. E olha que a batida mais eletrônica da canção é ainda mais acentuada do que em MEXE, mas isso não afeta muito o resultado final. O destaque da música é, mais uma vez, a performance de todas as envolvidas e a química verdadeira entre elas, pois a canção dá tempo para que se mostrem no melhor de cada uma e ainda sejam “divas”.

Com mais um acerto, começo a querer um álbum em parceria entre o NMIXX e a Pabllo Vittar, pois seria algo, no mínimo, divertidíssimo.
nota: 7,5

Um Pouquinho

How I Get
Laufey


Mantendo um nível alto de qualidade nos seus lançamentos, a Laufey dá uma leve caída com a canção How I Get.

Single da versão deluxe/relançamento de A Matter of Time, a canção tem uma estrutura que não soa tão fluida como é o costume nas canções da cantora. É um exercício interessante, pois dá uma vivacidade interessante para a discografia da cantora ao ter toques mais pronunciados de chamber pop e ambient pop. Todavia, How I Get não tem a mesma áurea que os trabalhos mais ousados da cantora. E outro motivo vem da sua composição.

Bem escrita, a letra da canção demora um pouco mais a fazer a gente embargar na emoção que a cantora quer passar, mas acaba encontrando seu caminho com o seu lindo final. Na verdade, é o seu clímax impecável que faz a canção funcionar e ter algumas arestas corrigidas. Outro sustento da canção é a classuda e melancólica performance da cantora, que carrega todo o peso emocional da canção.

Apesar de um pouquinho inferior, How I Get é ainda outro trabalho exemplar da Laufey.
nota: 7,5

Um Pouquinho 2

DISNEY PRINCESS
Melanie Martinez


Depois de entregar novamente uma canção bem abaixo da média, a Melanie Martinez traz uma surpresa em DISNEY PRINCESS: uma canção mediana.

A melhora é pequena, mas suficiente para que a faixa fique acima da média da própria cantora. E o grande motivo é que a produção tem mais substância do que o esperado, sendo um pop rock/alt pop seguro que, com interessantes traços de pop punk e breakbeat, consegue apresentar uma sonoridade realmente com alguma personalidade.

Mesmo que a combinação não seja original e já tenha sido feita por outros artistas de maneira mais interessante, DISNEY PRINCESS é um trabalho que consegue tirar leite de pedra graças à sua instrumentalização. A outra surpresa é que Melanie entrega uma performance boa, especialmente porque a produção vocal combina bem com a atmosfera proposta pela faixa, criando um bom amálgama entre esses dois pontos. O que de fato atrapalha a canção é, novamente, sua composição vazia e irritante, mesmo tocando em uma temática espinhosa, que é o peso da fama para quem entra na indústria ainda muito jovem. Falta, porém, uma maturidade estética que possa lapidar toda essa sensação de pretensiosidade que habita profundamente a lírica da artista.

É uma melhora? Sim. Pequena, mas é algo. Isso não muda muito a minha visão sobre a Melanie Martinez, de qualquer forma.
nota: 6