23 de outubro de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

Homogenic
Björk




De Volta?

Silencio
U2


Já faz pouco mais de uma década que o U2 não lança nada de relevante ou mesmo que seja acima da média. Todavia, como single do décimo sexto álbum da carreira, Carnaval de Luz, a banda lançou a interessante Silencio.

Longe de ser uma grande canção da banda, a canção é, sim, um bom trabalho que mostra que a banda tem algo para “queimar”. Um rock alternativo eficiente, maduro e bem construído, com influências de post-punk e garage rock, a produção peca, porém, por ser meio travada criativamente, entregando exatamente o que se promete de maneira direta demais. Faltou um brilho aqui e ali para elevar o material que, felizmente, é cercado por um competentíssimo trabalho instrumental.

Além disso, Silencio tem uma letra muito curiosa, com palavras em português que deixam uma marca surpreendente e bem-vinda, mesmo que seja meio estranho. A composição em si é boa ao ser uma crônica política/social com metáforas religiosas que, apesar de terem toques datados e meio clichês, funcionam. Bono entrega uma performance firme e competente, fazendo-nos relembrar o quanto ele é icônico como vocalista de uma das maiores bandas de todos os tempos.

Agora, é aguardar para ver se o álbum vai por esse caminho ou se vai repetir a tragédia que os três anteriores representaram na discografia da banda.
nota: 7,5

O Momento da Shygirl

Mantra
Shygirl


Entregando um hype do que parece ser um álbum realmente incrível, Shygirl coloca um novo tijolo nessa construção com o lançamento de Mantra.

Single de menor impacto de SWALLOW!, a canção ainda é um trabalho bem acima da média devido, principalmente, à produção realmente vigorosa e inteligente, ao entregar uma mistura azeitada de art pop, jungle, ambient, drum and bass e trip hop. Não chega a fundir os gêneros com perfeição, mas dá uma liga excitante, grudenta e elegante.

Gosto particularmente da vertente filosófica/poética que a artista vem usando em suas composições e, novamente, aqui podemos notar essa decisão em uma letra sobre o poder de libertação de poder amar e viver tudo o que isso pode proporcionar de bom e de ruim. Vocalmente, Mantra é outro bom momento de Shygirl, mesmo que certas escolhas na produção da sua voz não combinem tão bem.

E, mesmo não tendo o destaque que merece, Shygirl tem em mãos o que pode ser um dos últimos grandes álbuns de 2026.
nota: 8

20 de outubro de 2026

Um Segunda Chance Para: CON ALTURA

CON ALTURA
ROSALÍA & J Balvin

Existem algumas músicas cuja importância só entendemos algum tempo depois do seu lançamento, pois só assim podemos compreender melhor o seu contexto. Esse é o caso perfeito de Con Altura, da Rosalía.

Quando lançou o single, em março de 2019, a cantora tinha acabado de sair dos trabalhos de divulgação do aclamado El mal querer, de 2018, mas o álbum ainda não havia conectado comercialmente com o público mais mainstream. Então, entre aquele ano e 2021, a cantora lançou diversos singles solo e em parcerias que foram responsáveis por dois pontos importantes em sua carreira: seu breakthrough comercial e a exploração sonora que deu resultado em Motomami. E, olhando em retrospectiva, Con Altura foi o momento mais importante dessa fase.

Um dos maiores sucessos daquele ano ao redor do mundo, o single deu à cantora o veículo perfeito para colocar sua personalidade em uma canção extremamente comercial, que pudesse ser assimilada pelo maior número possível de pessoas que não a conheciam. E essa decisão e exploração foram geniais, pois a canção alcança esse objetivo de maneira tão certeira quanto possível. Artisticamente, o single está bem longe do que a cantora tinha entregado e ainda iria entregar, mas, sinceramente, acho que atualmente é melhor do que eu lembrava.

Divertidíssima, rápida, viciante e com boa personalidade, Con Altura tem uma produção bem amarrada que claramente se apoia no estouro do reggaeton na época, mas adiciona pinceladas de latin pop, art pop e experimentalismo que dão mais vida à faixa e a fazem combinar melhor com a persona da Rosalía. E é a cantora que brilha na canção, sem nenhuma dúvida, pois ela a carrega plenamente com a força de uma diva pop e a sagacidade de uma artista em busca de novos rumos ao experimentar com sua própria sonoridade. Apesar de não ser nada genial, a participação de J Balvin e de El Guincho, coprodutor da canção, funciona, pois ambos adicionam texturas divertidas ao resultado final. O grande problema da canção é sua composição, que cumpre seu papel, mas claramente poderia ser bem mais lapidada e interessante.

É interessante ouvir Con Altura e depois ouvir Saoko, primeiro single de Motomami, pois dá para perceber a influência da primeira na construção da segunda e observar a evolução realizada. Basicamente, sem Con Altura, é bem possível que não tivéssemos a Rosalía atual ou, ao menos, não da maneira como ela se apresenta hoje. E isso é algo louvável.
nota: 7,5

Sem Nuvens no Horizonte

Blue Moon
Zara Larsson


Aproveitando, e com razão, o hype da sua atual era, Zara Larsson lançou mais um single de Midnight Sun: a boa “Blue Moon”.

Assim como basicamente todo o álbum, a canção é cativante, grudenta e redondíssima, um dance-pop com toques de club dance e eletropop que dão personalidade à canção. Não vai muito longe do lugar em que a sonoridade da Zara se fixou, mas, novamente, prova o quanto as canções do álbum são saborosas e iluminadas de maneira geral.

Entretanto, o grande destaque da canção é a presença solar, carismática e deliciosa da cantora, que entrega uma performance que deixa claro o quanto talento a cantora possui e o quanto ainda pode mostrar se tiver canções ainda melhores em mãos. Assim espero que seja o futuro da queridona.
nota: 7,5

19 de outubro de 2026

O Futuro

Hot & talking
Say Now

Enquanto algumas continuam na trilha da mediocridade, o Say Now continua a mostrar que realmente é uma promessa a ser levada a sério. E é isso que a ótima “Hot & Talking” mostra.

Novamente, a canção tem as mãos da PinkPantheress por trás, que empresta um pouco da sua personalidade artística para que o trio comece a encontrar a sua própria. Isso cria uma divertidíssima e vibrante fusão de electroclash com R&B que não é original, mas é um trabalho com uma aura completamente própria e, principalmente, excitante. É pop na medida certa e, ao mesmo tempo, tem traços de experimentalismo aqui e ali, que dão ao resultado final a sensação de que estamos diante apenas do começo da exploração e do refinamento da sonoridade do Say Now.

Além da qualidade da produção, “Hot & Talking” é um trabalho surpreendente de composição ao ser uma irônica, inteligente e refinada “crônica” sobre os boy lixos que ficam incomodando mulheres quando elas claramente não estão a fim: “Your heart and soul, so mystical / Never been told, ‘No’ before”. Sem precisar exatamente “pesar o clima”, mas também acertando no ponto da crítica e da reflexão sem perder nada do senso pop lírico. Além disso, as três integrantes, Ysabelle, Amelia e Madeleine, entregam ótimas performances, especialmente quando a canção deixa cada uma ter espaço suficiente para mostrar sua personalidade individual.

Dessa maneira, o Say Now já tem um dos portfólios mais fortes de uma girl band em 2026.
nota: 8

Um Respiro

Unloveu
KATSEYE


Continuando o “desafio” de ser a girl band de maior sucesso sem ter uma canção realmente boa, o KATSEYE lançou a mediana Unloveu.

Parte do EP WILD, mas que só tinha sido lançada na versão física, a canção é bem melhor do que todas as outras juntas e, sinceramente, daria até certa esperança para a girl band. Todavia, a canção perde a oportunidade de fazer algo bem mais marcante do que essa balada mid-tempo pop, que não explora nada do que uma boa balada pode oferecer, ficando literalmente no meio do caminho entre o “inteligentona” e o tradicional. Faltou criatividade para entregar algo que pudesse ser realmente interessante e não uma pálida cópia do que o The Pussycat Dolls fazia bem melhor.

Além disso, a composição não é ruim, mas é boba e fraca ao não usar seus lugares-comuns e clichês de maneira a extrair uma emoção mais sentida e real, que pudesse criar uma conexão melhor com quem ouve. O que segura “Unloveu” até certo ponto é a presença das integrantes, que deixa claro, novamente, que elas têm “gogo” suficiente para segurar qualquer canção, mas continuam sendo subaproveitadas. Felizmente, aqui elas têm algo mais concreto em que podem se mostrar.

Em algum momento, espero que os anjos digam amém e o KATSEYE tenha, ao menos, uma canção boa nas mãos. Por enquanto, elas seguem sem derrotas ao lançarem apenas canções não boas.
nota: 6,5

16 de outubro de 2026

Primeira Impressão

She's the Best
Troye Sivan



Resistência Pela Sacanagem

Exorcismo
Katy da Voz e as abusadas


Em uma época como a que vivemos, é preciso, a todo custo e de todas as maneiras, ser resistência. Nem que seja pela putaria, mas uma putaria de respeito. Esse é o caso do sensacional Exorcismo, de Katy da Voz e as Abusadas.

Agora como um duo, formado por Katy da Voz e Palladino Proibida após a saída de Degoncé Rabetão, o grupo entrega uma das melhores canções brasileiras do ano: uma mistura escalafobética, gigantesca, ousada, poderosa, inteligente e de personalidade incontestável de eletrônico, dark pop, techno, funk e vogue, sem saídas fáceis ou meias-palavras, que chega como uma verdadeira pancada sonora. E, queridos leitores, é uma pancada que fica na nossa cabeça e não sai mais, pois a produção não tem medo de ir além do esperado para transformar a batida em algo tão espetacular que parece o filho bastardo e sombrio da Arca, que fez um remix de WAP com Thriller, apadrinhado em um baile funk/Ballroom proibidão.

Sonoramente, a canção é um assombro, mostrando como a produção foi capaz de criar tantas texturas sem perder o rumo em nenhum momento, mas também sem entregar um trabalho “limpo”, já que é justamente a sua aspereza que dá o tempero especial. Exorcismo, porém, também vai sendo construída pelas performances espetaculares das integrantes do duo, que abraçam e carregam toda a magnitude da canção de uma forma tão esplendorosa e sem nenhum tipo de amarra que fazem a faixa ganhar ainda mais força criativa. Isso fica especialmente evidente nas mudanças vocais e de performance, que dão o dinamismo necessário para sustentar mais de quatro minutos e meio de duração.

O que dá ainda mais impacto à produção é a composição vulgar, explícita e genial, que fala sobre sexo, mas também aborda, nas entrelinhas, a hipocrisia da relação da sociedade e da religião com aqueles que escolhem viver livremente, sem medo das repercussões que isso possa trazer. E tudo isso fica genialmente sintetizado no refrão: “Chame um exorcista, antes que anoiteça/ Ele chega, faz a reza e me tira de maluca/Daí eu entendi, exorcismo dе puta, Deus não escuta”.

Uma canção que mostra que, independentemente do que aconteça, a força da resistência sempre vai existir das mais diversas formas possíveis. E é isso que ainda nos dá esperança para seguir em frente.
nota: 9

Expectativas Cumpridas

expectations
Olivia Rodrigo & Chappell Roan


O que esperar de uma música que tenha Olivia Rodrigo e Chappell Roan? Uma boa canção seria o mínimo, certo? Então, é exatamente isso que acontece no remix de expectations.

Claro, ajuda e muito o fato de a canção original já ser boa, mas, como já sabemos, o encontro de dois grandes talentos em um remix nem sempre é garantia de um bom resultado. Felizmente, o remix mantém intacta a qualidade da canção e adiciona um novo charme com a presença de Roan, que acrescenta novos versos que se fundem muito bem com o restante da composição e, também, dão sua personalidade à faixa. E isso é meio raro de acontecer em remixes desse tipo, pois parece que os artistas convidados nem sempre conseguem se encaixar de verdade na canção.

Além disso, a escolha da música para o remix foi ideal, já que expectations parece ser uma canção que poderia ser de qualquer uma das duas artistas. E isso se dá devido à produção de Dan Nigro, colaborador de ambas as cantoras, que cria um vínculo sonoro nítido e realmente fluido. A produção entrega, então, um synth-pop/new wave animado, grudento, gracioso e despretensioso, com toques de pop punk, que funciona de maneira azeitada e cativante graças a uma atmosfera descontraída e atemporal. Já a composição, suculentamente ácida e brincalhona, facilita a união das estéticas de Olivia e Chappell por compartilhar pontos essenciais de suas personas artísticas.

Fico realmente contente quando minhas expectativas são atendidas de maneira tão satisfatória.
nota: 8

Gimme More! Much More!

Housewife
Tate McRae


E eis que voltamos para um novo ciclo de tentar entender, de fato, todo o hype em torno de Tate McRae. O novo single, Housewife, não ajuda muito nessa missão.

Longe de ser ruim, a canção carece do principal para realmente funcionar: presença. E isso é algo que falta à jovem, cuja voz soa pasteurizada e sem personalidade, pois fica fácil notar que ela não consegue carregar uma canção de verdade ao entregar uma performance atolada em efeitos vocais e sem qualquer traço de vida. O seu papel até é cumprido se isolarmos sua presença, mas, quando a somamos ao resto, fica claro o quanto ela é inferior.

E a maior discrepância está na boa composição. Housewife é uma reflexão satírica, irônica, divertida e bem construída sobre o peso da fama e, ao mesmo tempo, tenta criar uma persona capaz de responder às polêmicas e à visão que parte do público tem de Tate. Funcionaria se ela tivesse a persona, a bagagem e o talento necessários para carregar uma canção com essa mensagem, como, por exemplo, Britney Spears fez na era Gimme More/Piece of Me. Na verdade, a canção seria um bom retorno para Britney, pois teria o caimento perfeito para ela, que poderia sustentar a intenção criativa por trás desse dance-pop/alt-pop redondinho e com uma boa execução.

Uma pena que Tate não tenha muito mais a oferecer, mesmo quando tem em mãos uma canção com potencial.
nota: 6

15 de outubro de 2026

Um Presente do Passado

She'll Never Be Me
Britney Spears


Como parte do lançamento comemorativo dos 25 anos de Britney, terceiro álbum da cantora, foi lançada a inédita She'll Never Be Me.

Gravada na época e coescrita com o então namorado Justin Timberlake, a canção é basicamente um fruto de seu tempo, que se encaixa perfeitamente na estética sonora do álbum. Não é exatamente um trabalho sensacional, mas mostra o quanto o disco é divertido e redondinho ao entregar um electropop/teen pop efervescente, dançante e viciante que, claramente, tem cara de filler e, por isso, ficou de fora do tracklist final.

Todavia, a canção é um bom lembrete de como o pop verdadeiro pode ser inspirado quando feito de maneira tão direta. A faixa ainda conta com uma ótima performance de Britney, que estava no auge de seu carisma e esbanjava personalidade. Um pequeno regalo para quem sente saudade dessa época.
nota: 7,5


É Dia De Rock, Babê!

i think he's got a girl
Slayyyter

Não há como duvidar de que um dos nomes mais importantes de 2026 é Slayyyter. E a cantora continua a provar que está no topo ao lançar a ótima i think he's got a girl.

Single mais distinto que a artista lançou nesta era, mas que conversa diretamente com a sua sonoridade, a canção deixa um pouco de lado o eletrônico para entregar um pop rock/rock alternativo mais tradicional, em uma produção madura que consegue manter intacta a personalidade da artista. Isso acontece porque ela sempre demonstra que sua sonoridade tem fortes traços de rock, fazendo da canção um trabalho completamente natural e coeso. Além disso, a produção entrega uma batida que não é genial ou inovadora, mas, felizmente, é muito bem estruturada, viciante e conta com um trabalho instrumental na medida.

Entretanto, o que faz i think he's got a girl realmente funcionar é sua força emocional, começando pela performance exemplar e emotiva de Slayyyter. Não espere, porém, nada piegas, mas, sim, uma performance que entrega emoção genuína no momento em que a cantora incorpora com classe sua versão roqueira. O outro ponto é a composição que, novamente, reflete sobre o fim de um relacionamento, com uma letra de honestidade cortante e um senso criativo muito bem delimitado. Talvez um segundo verso mais trabalhado desse ainda mais força à canção, mas esse é um ponto que não afeta o resultado final de maneira nenhuma.

E, dessa maneira, Slayyyter conquista seu devido espaço, faltando apenas o grande “boom” no mainstream.
nota: 8,5

12 de outubro de 2026

Um Tema de Verdade

Into The Deep (Seas Cry)
JADE & Hans Zimmer


Tenho falado recentemente sobre alguns temas de filmes que estão na disputa pelo Oscar. Infelizmente, a melhor canção-tema de 2026 não tem chances de concorrer ao prêmio: a genial Into The Deep (Seas Cry), parceria da Jade com o compositor Hans Zimmer.

Isso acontece porque a canção não é tema de nenhum filme, mas, sim, da série de TV documental Blue Planet III, da BBC. Talvez um Emmy ou Grammy esteja no futuro dessa obra espetacular, que é uma aula de como entregar um tema de efeito, grandioso, inteligente e que se encaixa perfeitamente em seu objeto de inspiração. Novamente trabalhando com uma artista pop, Zimmer entrega uma poderosa e épica balada pop, com elementos de classical pop e art pop, construída de maneira a captar toda a força de entender e perceber a grandiosidade da natureza, especialmente no que diz respeito aos mares e oceanos.

Delicada como uma brisa marítima, devastadora como uma onda durante uma tempestade e colossal como a vastidão da importância da vida marinha para a Terra, Into The Deep (Seas Cry) apresenta um dos trabalhos de instrumentação mais intricados do álbum, que literalmente nos leva a uma jornada impressionante do começo ao fim, com toda a sua atmosfera cinematográfica e inspiradora. Liricamente, a inteligência na construção dos versos é impressionante, pois a canção consegue se associar diretamente ao documentário, fugindo completamente dos lugares-comuns e, ao mesmo tempo, sem ter medo de ser literal, criando algo que parece uma mistura de Céline Dion com Björk. Só que a grande pérola da canção é a performance genial, brilhante e colossal da Jade, que não apenas apresenta a força necessária para sustentar as grandes notas, mas também adiciona delicadeza e sentimento para dar à canção as nuances necessárias.

Uma pena que a canção não possa concorrer ao Oscar, pois, sinceramente, acho que não teria nem concorrência na disputa pela vitória.
nota: 9

New Faces Apresenta: Soulidified

Man Ain't Me
Soulidified


Com essa ascensão de girl bands nos últimos tempos, parecia estar faltando uma boy band. Então, eis que surge o Soulidified, que mostra que pode dar certo, como visto no single Man Ain't Me.

Formado no reality Building the Band, no qual terminou em terceiro lugar, o quarteto vem chamando a atenção pelo combo “hot gays” com talento que, sinceramente, funciona melhor do que o esperado. Em Man Ain't Me, a produção entrega um R&B/dance-pop emoldurado totalmente pela sonoridade de Justin Timberlake na carreira solo e, também, pela fase final do 'N Sync, fazendo uma canção relativamente conservadora que resulta em algo realmente divertido, sensual e que dá liga, principalmente, devido aos integrantes.

Longe de entregarem performances geniais, os quatro integrantes apresentam personalidades distintas e vocais que vão do bom ao realmente promissor. Entretanto, a maior qualidade é a química entre as vozes, o carisma genuíno e a divisão muito bem pensada. Isso também é mérito da produção, que parece entender os pontos fortes da boy band e ainda deixa claro que existe um caminho a percorrer em sua evolução, mas que o grupo está longe de partir do ponto zero.

Quem sabe o Soulidified não seja a resposta para que finalmente tenhamos uma nova geração de boy bands com talento de verdade? Aguardemos.
nota: 7,5

8 de outubro de 2026

Salvando a Lavoura (Ou Quase Isso)

Different Religion (feat. Model/Actriz)
Miley Cyrus

Apesar de estar definitivamente na sua era flop, Miley ainda tem momentos de salvação da lavoura, ao menos em questão de qualidade. E o melhor desses momentos é em Different Religion.

Melhor canção em Bass Persuades, a canção é uma original, inquietante, interessante e áspera mistura de eletropop, industrial, dance e rock, em uma batida que fica lindamente no limite entre o comercial e o experimental. E isso deixa bem claro que a cantora tem as ferramentas necessárias para continuar a trilhar um caminho artístico realmente excitante, mas que parece ainda não ter encontrado um ponto de equilíbrio, como é o resultado da canção.

Dona de um instrumental inspirado, a grande qualidade de Different Religion está na ótima performance da Miley, assim como na presença cativante do vocalista da banda Model/Actriz, criando um sensacional contrabalanço entre a presença dos envolvidos, que dá mais profundidade para a canção. E a composição é instigante o suficiente para criar ainda mais personalidade para a canção, mesmo que corra o risco de soar como uma pretensiosidade vazia.

De qualquer maneira, a canção é o tipo de trabalho que vai ser valorizado ainda mais no futuro, quando as pessoas perceberem a pérola que ela é na realidade.
nota: 8

Mother Bree

BAGS OF YEN
Bree Runway

Ainda esperando a sua merecida chance de brilhar e ser reconhecida, a britânica Bree Runway continua a fazer o que é necessário ao entregar qualidade no single BAGS OF YEN.

Uma rápida, rasteira e eficiente pop rap/hip hop/Vogue que tem uma produção que até poderia ir mais longe, mas é inteligente o suficiente para não ficar enchendo linguiça quando poderia facilmente se tornar arrastada. Com uma batida divertida, a canção é, na verdade, um perfeito veículo para que Bree desfile a sua presença imponente, versátil e marcante em uma performance realmente poderosa, que sabe se “ajeitar” para qualquer caminho que a produção vai direcionando a canção sem perder, porém, a sua imensa personalidade.

Quem sabe o raio que caiu na carreira da Raye não venha a cair na carreira da Bree Runway?
nota: 8

O Mesmo Bruno

Dance With Me
Bruno Mars


Mesmo preso à sua própria cartilha sonora, Bruno Mars ainda consegue entregar boas canções como Dance With Me.

Single do álbum The Romantic, a canção é uma competente, comercial e chiclete balada pop soul/R&B que é o veículo perfeito para o “crooner” Bruno desfilar seus sedosos vocais e o seu carisma irrepreensível e gigantesco. Sonoramente, a canção tem toques de uma sonoridade vintage sem, porém, soar datada devido à produção elegante do artista ao lado de D'Mile. É um trabalho previsível e sem nada de novo? Completamente. Entretanto, funciona devido à maestria com que é conduzida e à sua grande qualidade técnica.

Espero que a próxima era do Bruninho possa ser algo que renove a sua sonoridade, pois o que estamos vendo ainda está bom, só que está com o prazo de validade se expirando.
nota: 7,5

7 de outubro de 2026

Primeira Impressão

Daughter from Hell
Gracie Abrams



A Garota Que Queria Ser

Look at My Life
Gracie Abrams


Incrivelmente, a Gracie Abrams tem algumas poucas canções boas saídas de Daughter from Hell. Todavia, Look at My Life termina mais como sendo um ponto totalmente fora da curva do que algo que tenha potencial de ser o futuro da artista.

A grande qualidade da canção, de verdade, é que a sua batida sai do lugar “comportado” e linear para ir sendo explorada e ficando cada vez mais grandiosa até o seu final de clímax controladamente grandioso. É algo que dá alguma personalidade, pois funciona como testado em canções de outras cantoras que, porém, fizeram de maneira mais interessante. Entretanto, não tem como não negar que o folk pop/alt-pop ganha vida para a composição clichê, mas segura, e para a performance linear e bonitinha da Gracie.

O que isso ajuda, no final das contas, é mostrar o quanto a produção prende a artista na cartilha Taylor de fazer música, pois qualquer coisa que dê uma escapadinha já é algo que melhora consideravelmente.
nota: 7,5

O Grande Futuro da Holly

Too Cute To Be Lonely
Holly Humberstone

Acredito que uma das minhas melhores descobertas pessoais em 2026 foi a Holly Humberstone. E, novamente, a cantora comprova a minha visão com o lançamento de Too Cute To Be Lonely.

Single da versão deluxe de Cruel World (Cruel World...So It Ends), a canção é, mais uma vez, uma pérola pop ao ser uma madura, graciosa e cativante synthpop/dance-pop, com forte influência dos anos oitenta e, também, de um pop contemporâneo. Todavia, a produção de Rob Milton e JT Daly consegue dar uma personalidade bem definida para a canção, criando uma barreira que impede comparações que poderiam facilmente passar por “acusações” de ser uma cópia ou de não ter personalidade. E boa parte dessa qualidade também vem da irônica, inteligente e luminosa composição, que vai mostrando a construção de uma persona tão distinta e especial para a Holly.

Acredito que o futuro de Holly Humberstone será algo para se acompanhar de perto devido ao imenso potencial que a artista demonstra claramente.
nota: 8,5

6 de outubro de 2026

Uma Balada de Respeito

I Won't Cry
Remi Wolf


A arte de fazer uma boa balada romântica meio que está perdida atualmente, infelizmente. Todavia, de tempos em tempos, surge uma canção que ocupa esse lugar com mérito. Esse é o caso de I Won't Cry, da Remi Wolf.

Single do seu próximo álbum (Mud), a canção é uma devastadora, melancólica, épica, poderosa e soft rock/pop rock que consegue manter a essência sonora da cantora e, ao mesmo tempo, nos contemplar com uma abordagem mais tradicional de uma canção balada. E isso é sensacional, pois estamos diante de um trabalho realmente acachapante em todos os sentidos, partindo do espetacular instrumental até a sua emocional, crua e cortante composição.

Em I Won't Cry, Remi entrega uma composição que é, basicamente, sobre implorar para ser amada quando quem se ama decide seguir em frente sem olhar para o que foi deixado para trás. Um trabalho que poderia partir para um sentimentalismo piegas, mas que, felizmente, é salvo por uma letra honesta, verdadeira e que tem uma inteligência de construção exemplar ao ser simples e, ao mesmo tempo, explorar sentimentos complexos. E o ponto alto está no ótimo refrão: “Pull me from the shelf and dust me off/Shower me with selfish love/Play me like you want me back around again”. A canção é ainda contemplada por uma performance realmente inspirada e magistral de Remi, que imprime toda a força emocional sem pesar vocalmente ou deixar a desejar.

Uma canção de respeito que faz jus ao talento da artista e ao título de balada, com louvor.
nota: 8,5

Too Cool For Oscar

On Video
Phoebe Bridgers


Em uma corrida para o Oscar de Melhor Canção que pode fazer história, eis que surge uma azarona: Phoebe Bridgers. A canção que pode fazê-la chegar para disputar uma estatueta é a interessante On Video.

Tema do filme Primetime, em que a cantora faz o debut como atriz, a canção tem toda a atmosfera que pode até conseguir chegar a ter uma indicação, mas é tão descolada que nunca terá chance de vencer. E, sinceramente, isso é uma pena, pois o trabalho é um pungente, distinto e inspirado indie rock/post-punk que consegue captar toda a atmosfera do filme e, ao mesmo tempo, ter plenamente todas as qualidades da persona da artista.

Sombria e cortante, On Video não é sonoramente algo genial, especialmente comparando com outros trabalhos de Phoebe, mas é tão distinta e perfeita para ser o tema de um filme tão peculiar como é Primetime. Além disso, a excepcional composição é um trabalho de uma inteligência grandíssima ao se conectar com o filme de maneira nada clichê e totalmente original, o que faz a sua mensagem ainda mais poderosa. E essa também é a percepção sobre a grandiosa performance da Phoebe, que entrega uma emoção sóbria e desconcertante.

Acredito que, caso consiga, a indicação vai ser a vitória, mas quem sabe não exista um milagre aí no caminho?
nota: 8

5 de outubro de 2026

Na Torcida

World's Greatest!
Lil Nas X


Mesmo antes de ter quaisquer problemas pessoais, a gente sabe muito bem o motivo do “fracasso” da carreira do Lil Nas X que, claramente, tem a ver com a forma como artistas negros e queers são tratados quando não seguem certas normas. Todavia, fico feliz de verdade de vê-lo de volta com World's Greatest!.

Não acho que esse será o comeback comercial para o rapper, mas, sinceramente, é uma prova cabal do talento do artista, sem nenhuma dúvida. Uma cativante e inspirada faixa de pop rap, com introduções bem pensadas de pop rock e alt-pop, a canção é um trabalho maduro e refinado que, felizmente, não perde o toque pop do rapper que o fez estourar. Entretanto, o trabalho é mais profundo ao ser um hino sobre recomeçar e se lembrar de quem é e nunca perder o seu caminho, mesmo que seja um feito de dores e perdas.

Funcionando também como uma homenagem à sua mãe, que veio a falecer em agosto passado, World's Greatest! é uma canção que não deveria, mas emociona porque é possível ouvir a dor e a força de vontade de continuar do Lil Nas X em uma composição forte, madura e com um senso pop bem definido. Tenho que admitir que não gosto tanto do refrão, que poderia facilmente ser mais lapidado. Entretanto, o resto da letra é um trabalho muito acima da média. Além disso, o rapper entrega uma excepcional performance, mostrando por que é um dos melhores artistas a casar pop e rap que já surgiu.

Espero que, mesmo que não seja um sucesso, a canção possa iniciar um novo caminho de bons frutos para o Lil Nas X, já que ele merece de verdade.
nota: 8

O Refrão Perdido

Blink Twice
Rose Gray


Estou realmente gostando do que a Rose Gray vem entregando na sua nova era. Infelizmente, o novo single, Blink Twice, erra em algo muito importante: o refrão.

Sonoramente, a canção é uma graciosa, despretensiosa e gostosa dance-pop, com elementos de progressive house e trance, que funciona muito bem pela atmosfera solar e convidativa. Sabe aquelas canções que a gente ouve uma vez e, mesmo não sabendo o nome ou de quem é, ficam na nossa cabeça por muito tempo devido à sua originalidade e frescor, mesmo não sendo geniais? Então, essa é a sensação principal após ouvir a canção. Todavia, isso poderia ser elevado para outro patamar com um refrão mais interessante.

Apesar de muito boa, a composição sobre aproveitar a vida mesmo que o mundo esteja caindo aos pedaços ao redor deixa a desejar quando o refrão chega e não consegue amarrar as suas pontas em algo que deveria fazer a canção explodir. Ao invés disso, Blink Twice entrega um contido momento que não tem a força que os elementos à sua volta possuem, mesmo não sendo um momento ruim de verdade. É apenas meio decepcionante e anticlimático.

Felizmente, Rose entrega uma performance sólida e divertida que dá conta de fazer o single ainda realmente valer a pena de se escutar.
nota: 7,5

2 de outubro de 2026

Primeira Impressão

THRASHER
Brandon Flowers



As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer

Estava há algum tempo atrás no Twitter quando me deparei com uma postagem que falava que o clipe vinculado era da música que marcou a transição dos anos oitenta para os noventa. E, depois de algum tempo, refleti que era uma boa analogia, pois a canção em questão tem elementos que a fazem ser realmente esse elo de ligação. Por isso, decidi falar, em As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer, sobre....


30 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Lost Weekend
Phoebe Bridgers


Trance Perfume

Natural High
Perfume Genius

Depois de um álbum bom, mas abaixo do potencial, Perfume Genius está de volta para lançar o seu oitavo álbum, intitulado The Lesson. E, pela prévia que temos no single Natural High, parece que o cantor está de volta ao seu lugar de praxe: a genialidade.

A canção tem, na sua dualidade sonora, o seu maior ponto de qualidade, ao ser metade uma densa indie rock/art pop/ambient pop para, na sua metade final, dar uma quebra total de expectativa e se tornar uma inspirada e grandiosa trance/eletrônica, com um final de tirar o fôlego. E o mais incrível é que a transição não é exatamente sutil, criando uma mudança meio abrupta que, incrivelmente, funciona perfeitamente devido à construção impecável e genial do instrumental em toda a sua duração. E essa é, com certeza, uma das marcas do Perfume Genius, que entrega também os outros pontos de qualidade da canção.

A performance vocal do artista é impressionante, pois consegue equilibrar uma força melancólica e sombria na primeira parte para se transmutar ao carregar com elegância e versatilidade a parte mais “agitada” da canção. Tudo isso deixando em evidência o seu timbre magnético e totalmente distinto, ajudando Natural High a ganhar ainda mais força emocional. A composição está na mesma tangente de antigos poemas em inglês: densa, misteriosa, dramática e com imagens complexas construídas. Não é um trabalho para todos, mas quem se deixar embargar vai realmente se admirar pela magnitude exposta.

Seja bem-vindo de volta, Perfume Genius, ao seu lugar devido.
nota: 8,5

29 de setembro de 2026

2 Por 1 - Yseult

ONE MORE TIME
SUPERSTAR
Yseult

Completamente fora do radar de muitos, Yseult vem entregando o que considero uma das melhores sequências de singles de 2026. Depois de Now or Never e, especialmente, Freak, a cantora entrega duas novas e excepcionais canções: One More Time e Superstar.

As duas canções seguem literalmente o mesmo caminho ao serem recriações/homenagens/celebrações a sonoridades pop/R&B dos anos oitenta, sem soar em nenhum momento como datadas, cópias ou pastiches. E também a estrutura dos lançamentos é igual: uma canção dançante e uma no estilo balada. Com isso, o resultado é praticamente igual: as duas canções são ótimas, mas a de pegada dance se destaca mais. Estou falando, nesse caso, da genial Superstar.

A canção é simplesmente um diamante lapidado, ao ser uma excitante, contagiante, elegante e magistral reverência a um R&B dançante com toque de funk, pop rock e new jack swing que remete aos trabalhos da Janet Jackson, especialmente na era Rhythm Nation. Todavia, a produção não fica limitada a um artista só, ao expandir influências para nomes como Grace Jones, Michael Jackson e Chaka Khan, sendo citada nominalmente no refrão da canção. E, em nenhum momento, a canção soa como algo que não seja completamente original devido à inteligência da produção e à performance avassaladora da Yseult, mas o grande toque de gênio da canção é a sua composição.

O single é sobre se tornar uma estrela do pop, mas sabiamente prestar devidamente as homenagens e dar as flores para quem pavimentou o caminho. É uma letra que flerta com o piegas, mas sai desse lugar lindamente devido à criatividade e à forma limpa, direta e esperta de como a mesma foi construída. Além disso, as introduções temáticas feitas são o ponto de destaque, pois dão novas camadas para a canção. A primeira é o “interlúdio” de um discurso que mira a cultura Ballroom ao introduzir a cantora como a nova “mother”, como em um verdadeiro “ball”. E o segundo, e o toque de gênio, é o sample do “discurso” de uma das pioneiras do Ballroom, Crystal LaBeija, no clássico documentário The Queen, do final dos anos sessenta. É algo que acrescenta novas texturas e uma significação para a canção que não teria o mesmo impacto sem essa decisão.

Apesar de menos impactante, One More Time é um trabalho que continua a revelar a qualidade da construção sonora da atual fase da artista. Uma balada R&B/soul/pop soul que claramente se inspira em nomes como a já citada Chaka Khan, com também notórias semelhanças com Anita Baker e Patti LaBelle. Acredito que o que não faz a canção ser melhor é o fato de não se aprofundar liricamente e também terminar de uma forma um pouco abrupta, que deixa um gosto leve de inacabado. E, mesmo assim, a canção ainda é um trabalho com forma bem definida e que cumpre bem a sua intenção inicial.

Caso ainda não tenha escutado nenhuma das canções lançadas pela Yseult, sugiro que corra atrás do tempo perdido, pois estamos diante do que já é um trabalho com ares de ser um cult classic.
notas
ONE MORE TIME: 8
SUPERSTAR: 9

Girl Group a Moda Antiga

Ghost
Sugababes

Tenho que reconhecer que, apesar de já ter ouvido falar sobre as Sugababes, nunca tinha ouvido nenhuma música do girl group que fez sucesso britânico nos anos 2000. Possivelmente, o motivo é que o grupo nunca estourou mundialmente, ficando mais restrito à Inglaterra e à Europa. Todavia, acredito que podemos dizer que seja um dos girl groups mais duradouros, pois as mesmas chegam ao nono álbum da carreira e com lenha para queimar, como mostra o ótimo single Ghost.

Primeiro single do novo álbum, que foi intitulado apenas com o nome do grupo, a canção é uma inspirada, leve, divertida e cativante dance-pop/pop rock que funciona bem, pois mistura nostalgia genuína com frescor natural. No começo, achei que a canção tinha um problema de mixagem e de tempo da batida com os vocais, mas depois entendi que era uma “proposta” da canção, que resulta em uma canção artisticamente bem mais profunda que esse primeiro vislumbre. E isso dá personalidade para a canção que, sinceramente, outros girl groups modernos poderiam aprender.

Liricamente, Ghost é um trabalho realmente acima da média, ao ter uma composição muito bem escrita, que leva seu tempo para criar o apelo pop em versos longos que fogem de clichês bobos e batidos. Além disso, a maneira como é escrita essa crônica sobre perceber que se safou de uma furada no amor é realmente inspirada e inteligente. Além disso, a dinâmica vocal entre as três integrantes das Sugababes funciona muito bem e dá ainda mais carisma para a canção.

Às vezes, o ditado está certo: “panela velha é que faz comida boa”.
nota: 8

28 de setembro de 2026

O Passado e o Presente

Danceteria Afterhours
Madonna & Charli xcx


É meio que lógico que a Madonna escolheu a Charli XCX para ser a parceria no remix de Danceteria. Além da “polêmica” da “pista de dança estar morta”, as duas meio que representam o passado e o presente da música pop/dançante e, sinceramente, o resultado do remix é até interessante.

Estar à altura da original seria bem complicado, mas Danceteria Afterhours é um trabalho bem acima da média ao manter as características básicas da canção original em um remix redondo, divertido e que combina com a convidada. Na verdade, a grande qualidade da canção é que a presença da Charli faz sentido completamente, especialmente quando os versos da mesma se referem ao começo da carreira dela, assim como os da Madonna.

Todavia, o remix poderia explorar mais as diferenças sonoras entre as duas artistas para criar uma canção com mais camadas e texturas, mas a decisão aqui foi seguir de maneira mais “conservadora”, o que não deixa o remix explorar melhor as possibilidades. É preciso apontar que, apesar da boa presença da Charli, a canção é totalmente comandada pela presença da Madonna, que dá sentido de verdade para a sua existência, pois, ao contrário do que muitos possam pensar, Madonna é o passado, o presente e o futuro da música pop. E isso é algo que não tem como negar.
nota: 7,5

New Faces Apresenta: Say Now

Met My Match
Say Now


Apesar de estarem na ativa desde 2022, a girl band Say Now ainda não lançou o seu debut e ainda não furou a bolha do mainstream nem de perto. Todavia, acredito que podemos estar diante de uma possível promessa devido ao resultado do single Met My Match.

A canção não é genial, mas, sinceramente, é o tipo de trabalho que seria mil vezes melhor de viralizar do que qualquer canção atual do KATSEYE. Dançante e com uma personalidade bem distinta, a canção mistura muito bem R&B com eletropop, com um verniz inspirado no pop dos anos 2000 que capta bem a aura de uma das produtoras da canção: PinkPantheress.

Talvez o problema de Met My Match seja faltar um clímax final mais elaborado e/ou nuances e quebras de expectativas no seu sólido instrumental. Gosto muito da química e da harmonização das três integrantes, que também dão vislumbres de personalidades distintas que espero serem melhor aproveitadas no futuro. A composição é outro ponto que poderia ser melhor, mas, sinceramente, é tão divertida e refrescante que o resultado fica bem acima da média.

Agora é esperar e torcer para que Say Now possa se desenvolver e ganhar um novo público ao serem descobertas por mais pessoas.
nota: 7,5

25 de setembro de 2026

A Favorita

La Nieve
Guitarricadelafuente


Muitos estão achando que o Oscar de Melhor Canção já tem o nome da Taylor Swift, mas a história não é bem essa. Atualmente, a grande favorita é a canção La Nieve, do artista Guitarricadelafuente.

A canção é tema do filme espanhol La Bola Negra, que vem ganhando muita atenção não apenas pela música, mas também com possibilidades reais de vencer várias categorias, incluindo a de Melhor Filme. Também como ator do filme, o cantor entrega uma canção que realmente tem chances reais de vitória, pois é um trabalho que emana características clássicas de um tema tradicional, ao mesmo tempo que encontra uma personalidade completamente própria.

Longe de ser uma Skyfall, La Nieve é uma emocional, tocante, sentimental e forte balada art pop/chamber pop, com uma instrumental à base de piano, mas que vai lindamente sendo introduzida por novos instrumentos, e isso dá uma nova força para a canção. Além disso, a performance de Álvaro Lafuente Calvo, nome de batismo do cantor, é tão contida e, ao mesmo tempo, tem uma força melancólica que faz a gente se sentir completamente envolvido pela canção, quase como se estivéssemos ouvindo uma performance ao vivo e devastadora. A composição é simples, mas de uma poesia delicada e pura que faz a gente entender um pouco da pungência que o filme quer passar: um épico intimista na vida de três homens gays em diferentes momentos da história da Espanha.

E, queridos fãs da Taylor, é melhor deixar a barba de molho, pois acredito que já temos a canção que vai vencer o Oscar.
nota: 8


Nada em Cima de Nada

Patient Zero
Taylor Swift

Para celebrar uma das dezenas de novas versões de The Life of a Showgirl, intitulado agora com o subtítulo de The Encore, a Taylor Swift lançou o single Patient Zero. E, novamente, a cantora nos deu nada.

A canção até começa interessante e dando a impressão de que vai chegar a algum lugar, mas, no momento em que a batida real começa, tudo é levado para o lugar de sempre. O resultado é uma sonolenta, formulaica e pouco criativa alt-pop/indie pop que recria basicamente os mesmos traços de todas as canções do álbum. Ou seja, é a mesma canção novamente com uma embalagem levemente diferente.

O pior de Patient Zero é a performance automática, sem vida e sem graça da Taylor, que deixa a canção ainda mais sem vida e desinteressante. Longe de ter uma grande voz, a cantora já mostrou que pode entregar performances mais interessantes do que, ao que parece, aqui ter gravado às sete horas da manhã, depois de chegar da balada. A composição é um ponto que poderia salvar a canção, pois apresenta uma boa escrita. Todavia, novamente, ouvir a artista reclamar de algum de seus ex-namorados pela milésima vez é puxado e irritante.

Tenho certeza de que a canção vai ser um sucesso, sem dúvida, mas é por conta do status da Taylor no mainstream e não por qualidades próprias.
nota: 5,5

23 de setembro de 2026

Primeira Impressão

Ambiguous Desire
Arlo Parks




Uma Segunda Chance Para: Spotlight

Spotlight
Jessie Ware


Apesar de ser figura carimbada aqui no blog ao longo dos anos e receber as merecidas aclamações, a história da Jessie Ware no blog tem um momento que precisa ser reparado: a resenha de Spotlight. Na época do lançamento, dei um ótimo 8 para a canção, mas isso foi injusto demais, já que a faixa merece muito mais devido a ser, sem nenhuma dúvida, uma das melhores dos dezoito anos do blog.

Lançada como primeiro single do já lendário What's Your Pleasure?, a canção foi a responsável por iniciar a nova fase da carreira da cantora ao seguir uma direção sonora mais pop/post-disco/eletrônica. Além disso, foi o ponto de mudança da percepção do público em relação à artista, levando-a para um novo e merecido patamar de reconhecimento do público e da crítica. Mesmo elogiando a canção, só tive noção da magnitude da produção assinada por James Ford ao longo dos anos, pois a faixa foi crescendo e crescendo de uma forma em que todo o brilhantismo só pudesse ser revelado, ao menos para mim, depois de um tempo e de uma certa distância das minhas primeiras impressões.

Épica, grandiosa e atemporal são as três principais e maiores qualidades da canção, mas elas não se limitam ao trabalho estupendo da sua construção. A inspiração é bem clara ao se apoiar em uma sonoridade disco dos anos setenta de nomes femininos como Diana Ross e Donna Summer, mas a produção adiciona doses cavalares e primorosas de soul, house, acid house, eletrônico e pop soul, criando uma batida esplendorosa, cativante, elegante e, principalmente, única. Sejamos sinceros: Spotlight é o tipo de canção que, até hoje em dia, é muito difícil de ouvir devido à sua maestria melódica e à sua personalidade sonora totalmente fora da curva. A canção tem mais de cinco minutos e meio de duração em uma produção lotada de texturas, camadas e nuances que vão sendo desenroladas ao longo de uma das mais exuberantes instrumentais do pop moderno. E tudo isso é sustentado pela genial performance da Jessie.

Até então, a cantora era conhecida pela sua voz sedosa, elegante e cativante, mas aqui tudo é elevado para outro patamar devido a como a sua voz casa magicamente com o estilo da canção, fazendo-a ganhar ainda mais força devido à sua presença acachapante. Na verdade, a performance de Jessie é a cola que une todos os elementos, pois, ao mesmo tempo, sua voz dá todo o apelo emocional que se conecta de maneira direta com a atmosfera sonora e também vai transitando belissimamente por todas as mudanças que a canção apresenta, sendo as texturas colocadas ao longo da sua duração outro ponto importantíssimo para o resultado final. Por exemplo, a canção começa de maneira contida e quase como uma balada, em que temos um instrumental mais “clássico” como base para a voz da Jessie, e é como se um portão de ouro e diamante se abrisse para o paraíso. E a magistral composição fecha a trindade de maneira brilhante ao falar sobre desejo e paixão da maneira mais sofisticada, fina, envolvente e de um senso pop perfeito.

Spotlight é uma das canções mais importantes da década, pois foi o estopim inicial para a onda disco/eletrônica que dominou boa parte do pop nos últimos anos. Além disso, é a canção que fez Jessie Ware se tornar uma força pop merecidamente reconhecida. Então, nada mais justo que a nota seja a mais perfeita possível.
nota: 10

22 de setembro de 2026

Sample Perfection

A Good Day
Anderson .Paak & Cordae


Usar um sample é quase como uma arte, pois o resultado pode ser uma obra de arte ou um desastre. Em A Good Day, o pêndulo puxa claramente para a primeira opção.

Single do projeto em parceria do Anderson .Paak e Cordae, a canção é uma estilosa e solar pop rap/neo-soul com toques de funk, que é um trabalho rápido, rasteiro e certeiro na construção da sua batida leve, mas com um cuidado primoroso estrutural. Todavia, a grande qualidade da produção é o uso de quatro samples/interpolações de uma vez, de uma maneira inspirada: It Was a Good Day, do Ice Cube; Life is Like a Dice Game, do Nas; Lovely Day, do Bill Withers; e, por fim, It’s Like That, da Mariah Carey. Só que é desse último que a canção faz melhor a sua utilização, pois usa o Here we go now (What?), here we go now (What?), que aparece no começo da canção e no final, de maneira a construir o seu refrão e dar toda a sua personalidade, fazendo o mesmo ser incorporado de maneira primorosa.

A Good Day também é um exemplo perfeito de como dividir uma parceria entre dois artistas, de maneira a dar o espaço perfeito e na mesma medida para ambos. Além disso, a canção é elevada devido à química extraordinária entre Anderson e Cordae, que fica ainda mais impressionante, pois dois rappers normalmente apresentam uma aspereza natural de suas personalidades não se misturarem, e isso é o que faz a qualidade de muitas canções. Todavia, aqui essa química é o ponto de equilíbrio para a canção. Apesar da ótima composição, gostaria que tivesse sido melhor aprofundada, pois a canção parece explorar o sentimento de que, no fundo, ninguém está realmente bem atualmente devido ao que está acontecendo no mundo e que devemos ainda procurar a felicidade de alguma forma.

De qualquer maneira, a canção é um começo promissor para um projeto que pode ser algo sensacional ou, no mínimo, divertido.
nota: 8,5