8 de junho de 2025

Certa Evolução

Bliss
Tyla


Sem precisar sair do estilo que a fez estourar com Water, Tyla mostra uma evolução com o lançamento da simpática Bliss.


Com uma batida fincada na mistura de afrobeats com R&B, a canção ganha contornos mais urbanos e de dance pop, marcada por sons de percussão intensos. A mudança não é tão nítida à primeira audição, mas, depois de um tempo, fica claro que há novos elementos interessantes na batida de Bliss. O grande trunfo, porém, é a presença cativante, sensual e carismática de Tyla, que entrega sua performance mais sólida e reluzente até o momento. A canção é como comida requentada com a adição de um ovo frito. E isso é, às vezes, tudo o que a gente precisa.
nota: 7

A Falta do Sample

Lovin Myself
Ava Max


Criticada pelo uso excessivo e, por vezes, sem sentido de samples, Ava Max entrega em Lovin Myself uma canção que deveria ter usado um sample.

E esse sample é do clássico oitentista I Touch Myself, que casaria perfeitamente com o tema de amor próprio e, também, com a sonoridade da canção, dando substância e carisma para o trabalho. E isso seria, possivelmente, o toque que faria dessa legal, mas genérica electropop com toques de house/EDM, ser um trabalho marcante. Tenho que dizer, porém, que Lovin Myself tem similaridades com o single de uma cantora que flopou horrores, mas que consegue ser mais interessante devido, principalmente, à presença segura da cantora e à composição divertida de verdade, que consegue ser clichê, mas passa bem longe do constrangimento. Quem diria que um dia o erro da Ava Max seria não ter um sample?
nota: 6,5

1 de junho de 2025

Antes Tarde do Que Nunca

So
Peter Gabriel


Antes Tarde do Que Nunca - Versão Single

Messy
Lola Young


Já disse algumas vezes aqui no blog que, infelizmente, nem sempre consigo “dar conta” dos principais lançamentos, mesmo tentando ao menos ser o mais abrangente e cuidadoso nas canções que decido resenhar. E é por isso que, de vez em quando, passa despercebida alguma canção que merecia a minha atenção. Esse é o caso de Messy, da Lola Young.

Single do seu segundo álbum, chamado This Wasn't Meant for You Anyway, a canção foi lançada em maio de 2024, mas foi ganhando destaque aos poucos devido a se tornar um viral no TikTok. E, ao contrário de canções que ganham esse status, Messy é uma canção com substância lírica e sonora. Caminhando no legado de cantoras britânicas que pavimentaram a história da música, a canção é uma refinada e sofisticada mistura de soul/pop soul, com uma estrutura muito bem pensada pela produção que ganha um belo e profundo verniz de indie rock, conferindo à canção novos contornos. Entretanto, o grande destaque do instrumental é a brilhante mudança de atmosfera entre os versos e o refrão, que reflete perfeitamente a diferença lírica e emocional das duas partes. E é aqui que Messy realmente se transforma em uma pérola rara e brilhante.

Messy é um trabalho de uma sinceridade desconcertante e de uma dor sentida, devido à impressionante capacidade da própria Lola, ao lado de Conor Dickinson, de criar uma crônica sobre um relacionamento tóxico causado pelos problemas mentais dos envolvidos. Muito longe de ser um trabalho de autopiedade barata, a letra conta, de maneira crua e nua, as incongruências entre as atitudes do companheiro de Lola em relação ao relacionamento, enquanto ela entende o seu lado na equação dos problemas, mas também deixa bem claro o seu sofrimento. E tudo isso é feito de maneira impressionante, pois mistura toda essa carga emocional com o humor ácido característico britânico, que chega a arder. E o grande momento é no sensacional refrão, especialmente na sua segunda metade:

And I'm too clever, and then I'm too fucking dumb
You hate it when I cry, unless it's that time of the month
And I'm too perfect 'til I show you that I'm not
A thousand people I could be for you, and you hate the fucking lot

E o pacote se fecha com a performance perfeita, ao saber lidar bem com as mudanças da canção, em especial o tom quase confidencial de algumas partes dos versos, e com a personalidade irresistível de Lola Young, devido ao seu timbre maduro, áspero e cativante. Mesmo perdendo o bonde inicial do sucesso de Messy, poder finalmente dar minhas flores para Lola Young é algo que realmente me deixa feliz.
nota: 8,5

Quase Lá, Dona Lorde

Man Of The Year
Lorde


Continuando o seu tão esperado comeback, a Lorde lança o segundo single de Virgin: Man Of The Year. Apesar de menos inspirada, a canção é um trabalho interessante o suficiente para a gente ainda manter um hype alto para o álbum.

Uma balada art pop contida, mas com uma construção emocional bem expressiva, a canção é um trabalho que dá para a Lorde a possibilidade de se mostrar mais experimental devido às decisões instrumentais, voltando a refletir a sua sonoridade inicial. Entretanto, existe uma clara maturidade criativa imposta pelos anos e a evolução pessoal da Lorde em uma letra cortante sobre o difícil processo de amadurecimento íntimo e de encontrar o seu amor-próprio. E mesmo não tendo uma letra genial, Man Of The Year é uma canção com uma composição refinada que não precisa de grandes metáforas para encontrar o ponto certo para se expressar de forma clara e pungente.

O grande problema da canção é que a sua construção climática e densa vai criando a impressão de que vamos ter um grande clímax em que todo o arranjo vai mudar drasticamente para algo grandioso e audacioso. E isso meio que acontece, mas o lugar a que a mudança chega não é impressionante como o que vai sendo “prometido” ao longo da canção. E isso trava a canção em um patamar inferior ao que poderia ter sido com um clímax mais potente. O que não dá para negar da qualidade é a impressionante e emocional performance da Lorde, especialmente na primeira metade da canção. Espero que o caminho do álbum seja dessa para melhor, pois não estou para outra Solar Power.
nota: 7,5

Sublime

SONAR
Ichiko Aoba


Não que seja difícil a cantora Ichiko Aoba entregar uma boa canção, mas em SONAR temos uma das melhores que ela já nos contemplou nos últimos anos.

Single de Luminescent Creatures, a canção é um daqueles momentos em que tudo que já era bom se eleva para outro patamar. Novamente, a canção mostra com louvor e graciosidade a sonoridade indie pop/folk da cantora, mas adiciona uma leve e luminosa camada de new wave para incrementar o belíssimo e melódico instrumental. É impressionante notar o quanto é grandiosa a capacidade da cantora de produzir uma canção com tão poucos elementos instrumentais, soando, porém, de uma grandiosidade impressionante devido à elegância com que é conduzido o arranjo. O trabalho ainda é contemplado com a performance mais angelical e etérea da cantora até o momento, quase como uma ninfa cantando à beira de um rio calmo e reflexivo. Simplesmente sublime.
nota: 8,5


Uma Tema De Respeito

Afterlife
Evanescence


Falei recentemente sobre o quão poderosa é a presença de Amy Lee. Isso é confirmado com Afterlife, canção do Evanescence para a série Devil May Cry.

A música não teria o mesmo impacto se não fosse pela substancial, bela, forte e grandiosa performance da vocalista, que injeta toda a personalidade da canção com sua voz “larger than life” e, ao mesmo tempo, marcada por um timbre melancólico e sombrio. Essa combinação beneficia Afterlife, pois é a voz da cantora que transmite toda a atmosfera da canção de maneira natural e fluida. Amy Lee consegue transitar com maestria entre momentos mais calmos e os mais épicos, deixando a interpretação ainda mais marcante. Sonoramente, o single é uma tradicional, segura e bem conduzida power balada de gothic metal, um território onde a banda domina com autoridade. Aqui, essa familiaridade é complementada por um senso apurado de maturidade. Todavia, a força da canção está no brilhantismo de Amy Lee.
nota: 8