31 de agosto de 2021

As Queers ao Salvamento!

SLUGGER (feat. $NOT & slowthai)
Kevin Abstract

Estou começando a achar que será responsabilidade dos artistas queers salvarem o atual hip hop. Depois de Lil Nas X, outro nome que vem ganhando notoriedade é a do rapper Kevin Abstract. Abertamente gay e parte do grupo colaborativo Brockhampton, o rapper lançou a ótima SLUGGER.

SLUGGER, primeiro single do seu quarto álbum, é uma demonstração da força criativa de Kevin ao entregar um potente e áspero hip hop que foge de qualquer lugar comum dentro do atual cenário do gênero ao construir uma intricada e rica instrumentalização. E isso diferencia completamente SLUGGER de cerca de 90% que ouvimos nas rádios atualmente: complexidade sonora. Além de toda a qualidade de produção, Kevin entrega uma performance excepcional, deixando espaço para seus convidados brilharem sem o ofuscar. E é aqui que a canção também se destaca ao misturar três estilos de flow completamente diferentes, mas que se completam de forma exemplar. A excentricidade controlada de Kevin contrasta com a retidão e sobriedade de $NOT que, por sua vez, fica na outra extremidade do estilo britânico de slowthai. E assim as gays vão conquistando espaços que anteriormente eram quase impossível de ocuparem.
nota: 8,5

Os Pequenos Detalhes de Genialidade

Life Is Not The Same
James Blake

Aprendi que nem sempre as melhores canção são aquelas que explodem nos nossos ouvidos, pois de tempos em tempos surge algo como a sensacional Life Is Not The Same do James Blake.

Segundo single de Friends That Break Your Heart, Life Is Not The Same é uma contida, delicada e devastadoramente tocante mistura de indie pop, hip hop, eletrônica e R&B que brilha nos pequenos detalhes. O corro sussurrado que fica por trás da canção durante a sua execução, a leve mudança rítmica entre os versos e o refrão, a texturas elegantes e as nuances delicas que são incorporadas a construção do instrumental, a mudanças vocais de James auxiliado por um backvocal excepcional, a atmosfera levemente melancolia sem perder o romantismo. Cada um desses detalhes auxilia para que Life Is Not The Same em toda a sua falsa simplicidade brilhe como um dos melhores trabalhos de James até hoje. E, por falar no cantor, a maneira como o cantor entoa a faixa com sua versatilidade incrível e a sabedoria de quando e como quebrar expectativas ao adicionar mais força ou acrescentar o momento climático é outra prova do atual momento em que o mesmo se encontra: o seu nirvana.
nota: 9

Fritação de Primeira

OUT OUT (feat. Charli XCX & Saweetie)
Joel Corry & Jax Jones

De tempos em tempos, uma canção surge que consegue ser tão clichê artisticamente que consegue o milagre de ser realmente boa. Esse é caso de OUT OUT, parceria dos produtores Joel Corry e Jax Jones.

Sonoramente, a canção não passa de electropop/EDM para fritar como se não houvesse amanhã em uma festa estilo verão em Ibiza, mas, felizmente, funciona devido a presença marcante de Charli XCX. A cantora adiciona uma dose cavalar de personalidade para a canção, mesmo que tenha que repetir os mesmos versos repetidamente. E, mesmo reduzida a algumas frases soltas, a rapper Saweetie dá sua boa contribuição. Outro ponto interessante de OUT OUT é que, provavelmente, adiciona um diferencial para a canção é o uso do sample de Alors on danse do cantor bélgico Stromae que por sua vez já uma interessante eurodance/hip hop. Resumidamente: OUT OUT é o tipo de canção que pode ser considerada deliciosamente descartável.
nota: 7

Uma Mistura Diferente

Drugs n Hella Melodies (featuring Kali Uchis)
Don Toliver

Nem sempre quebras uma expectativa é sinônimo de alcançar algo realmente de qualidade, mas sempre é responsável por entregar algo no mínimo interessante. Felizmente, a canção Drugs n Hella Melodies do rapper Don Toliver alcança essas duas qualidades.

A grande qualidade da canção é a forma que é divido a parte de Don com a sempre ótima Kali Uchis. Ao contrário de usar a cantora como apenas uma forma de “up” na canção ao entoar o refrão, a produção da canção dá exatamente o mesmo espaço entre os dois artistas, criando uma parceria equilibrada que consegue adicionar um revestimento único para a canção. Sonoramente, Drugs n Hella Melodies é uma melódica, sexy e contida mistura de hip hop com R&B que não é novidade, mas feito de maneira sofisticada e deliciosamente sensual. É esse tipo de toque que o atual cenário hip hop comercial está precisando para voltar aos trilhos.
nota: 7,5

29 de agosto de 2021

Primeira Impressão

Surrounded by Time
Tom Jones


Primeira Impressão

Californian Soil
London Grammar


Uma Dose de Farofa Bem Feita

How Does It Feel
London Grammar


Existe algo mais gostoso que uma boa farofa? E quando essa farofa tem o requinte de uma canção como How Does It Feel do London Grammar é ainda melhor.

A versão sobre o queria seria um pop farofa para o trio, How Does It Feel é uma elegante, atmosférica e encorpada mistura de synthpop com indie pop e toques bem interessantes de EDM que ajuda a canção a ganhar um verniz radiofônico bem-vindo. Apesar da boa qualidade de produção é a deliciosamente melancólica e acetinada performance vocal de Hannah Reid que faz quase todo o serviço para que How Does It Feel seja tão boa. Uma farofada chique, mas ainda assim de qualidade ímpar.
nota: 7,5

24 de agosto de 2021

Uma Diva Ao Seu Modo

star-crossed
Kacey Musgraves


Após a surpreendente vitória em Álbum do Ano no Grammy para Golden Hour em 2019, a carreira da Kacey Musgraves foi elevada em outro patamar. A vitória merecida deu a cantora uma visibilidade maior dentro do grande mainstream, ajudando a mesma a ganhar uma legião de fãs que não a conhecia até o momento. Então, o anuncio do sucessor de Golden Hour chega com um hype bem alto e isso é aumentando com o excelente primeiro single star-crossed.

Dando o nome ao quinto álbum da carreira da artista, star-crossed continua a explorar a visão de Kacey sobre o que pode ser o country ao ser uma atmosférica e tocante mistura de country pop com influência latina, indie pop e folk. Especialmente na sua primeira metade, o single cria uma construção realmente original e inesperada que dá o tom perfeito para toda a canção, entregando uma instrumentalização espetacular. Entretanto, o grande ponto alto da canção é a arrasadora performance de Kacey que sabe como usar o seu delicado timbre para dar vida a devastadora e, ao mesmo tempo, simples letra sobre o fim do seu casamento. Uma diva ao seu modo e com todo o direito, Kacey Musgraves conquistou um lugar para chamar de seu dentro do atual pop e isso é maravilho.
nota: 8,5

O Verão Esfriou

Summer of Love
Shawn Mendes & Tainy

Sempre achei o Shawn Mendes um bom artista e sempre achei que o jovem recebe um hate meio que desnecessário. Entretanto, não dá para defender uma canção como Summer of Love.

Uma canção que parece ter uma produção que não sabe ao certo qual caminho seguir ao misturar de maneira descuidada electropop com toques latinos sem nunca saber tirar o melhor de suas influências. Culpo principalmente o produtor Tainy que não deixa nenhuma presença a não ser o seu nome em letras garrafais no título da canção. Summer of Love também sofre pela sem graça e esquecível composição que tenta ser romântica, mas termina sendo apenas sonífera. O que segura um pouco a canção é a produção vocal acertada e a presença luminoso de Shawn. Isso não é suficiente para dar força par uma canção que deveria ser radiante, mas termina como um por do sol no inverno.
nota: 5

Aos Poucos

Under My Skin
Katy B


Sumida desde 2016 quando lançou o álbum Honey, a britânica Katy B faz o seu retorno com a surpreendente Under My Skin.

Longe do refinado electropop da sensacional Crying for No Reason, a sua melhor canção até o momento, Under My Skin é uma cadenciada mistura de R&B e drum bass que resulta em uma canção que não necessariamente irá conquistar na primeira vez. Escutar novamente o single é possível realmente se deixar conquistar com a batida contida, a atmosfera envolvente e leve toque de inspiração dos anos noventa. Katy B entrega uma performance aveludada, sexy e, ao mesmo tempo, melancólica que carrega bem a interessante composição sobre as feridas de um coração enganado. Longe de ser um trabalho genial, Under My Skin faz a gente relembrar sobre o talento de Katy B.
nota: 7,5

Ideias Cruas

people watching
Conan Gray


Ainda continuo achando Conan Gray uma promessa que ainda precisa ser melhor trabalhado. Isso fica bem claro em people watching.

A canção seria um trabalho excepcional se tivesse “cozinhado” as próprias ideias de maneira mais apurada e refinada, dando espaço para a exploração melhor e deixando de lado o aspecto comercial. Com apenas dois minutos e meio, people watching clama por uma duração maios que seja capaz de abrigar o seu desenvolvimento sonoro, pois o indie pop/synthpop criado para a canção pede um trabalho cuidadoso de exploração das possibilidades. Tudo termina de forma abrupta e anticlimática, mesmo com uma qualidade técnica ótima. O destaque da canção é a interessante e inteligente composição que se mostra alinhada com o atual cenário do pop teen, mas consegue ter personalidade de sobra. Nas mãos de uma produção que possa aparar essas pontas soltas, Conan Gray pode decolar de vez.
nota: 7

18 de agosto de 2021

Tom Pastel

Cold Heart - PNAU Remix
Elton John & Dua Lipa


Algumas expectativas podem dar de cara com um muro tão impenetrável que a gente quebra totalmente a cara. Em alguns casos, porém, a gente não quebra a cara, mas recebe um tapa bem doido. Esse é o caso de ouvir Cold Heart, união do Elton John e a Dua Lipa.

Dois ícones pop dentro do que trouxeram para o público, os dois cantores ficam meio perdidos em canção que, na teoria, deveria ser uma explosão de cores, mas, na prática, termina como um grande quarto vazio pintado de tons pasteis. Remixado pelo duo PNAU juntando duas canções de Elton (o clássico Rocket Man e Sacrife de 1989), Cold Heart se torna uma redondinha, linear e quase esquecível post-disco/dance-pop que não chega a empolgar, mas também não é uma bomba. O grande ponto alto da canção é a Dua Lipa entoando o refrão com passagens de Rocket Man, deixando para Elton apenas os versos. Um encontro que deveria inspirar diversas sensações e emoções, mas que fica apenas no quase.
nota: 6

Libertação e Vitória

Something To Say
Michaela Jaé

Conhecida pelo seu genial trabalho como Blanca Evangelista na série, a atriz MJ Rodriguez se tornou a primeira pessoa mulher trans a ser indicada a um prêmio principal do Emmy ao ser nomeada para Outstanding Lead Actress in a Drama Series. Além disso, a artista também está se aventurando na carreira musical com o lançamento da ótima Something To Say.

Uma deliciosa e old fashion disco, Something To Say tem uma mensagem extremamente positiva sobre aceitação e poder se expressar de maneira livre. Mesmo beirando o piegas, a energia que a composição passa se compara com a explosão radiante da produção que consegue ser descontraída, leve e deliciosamente cativante sem soar datada. O ponto alto da canção é sensacional performance vocal de Michaela Jaé, nome usada pela artista na carreira musical. Saída do teatro musical, a cantora entrega uma performance requinta e cheia de nuances que apenas adiciona substancia para Something To Say. Apenas de imaginar que não muito tempo atrás o mundo do entretenimento não existia quase nenhuma representação dentro do mainstream de pessoas transsexuais e que hoje em dia, apesar de muito para se conquistar, é possível ver uma evolução realmente importante é um alento realmente incrível.
nota: 8

Ansiedades Pop

Sweet Dream
Alessia Cara

Apesar de não ter cultivado o mesmo sucesso comercial do começo da carreira ou de alguns nomes que vieram depois do seu surgimento, a Alessia Cara pode se dizer como uma das “percursoras” do atual cenário pop feminino devido a sua sonoridade low profile e a capacidade de expressar sentimentos complexos de forma sincera, inteligente e despretensiosa. Em Sweet Dream, primeiro single do seu terceiro álbum, a cantora repete essa característica muito bem.

Dona de escrita limpa e direta, Alessia entrega na composição uma descontraída, divertida e inteligente crônica sobre ansiedade e insônia que pode até cativar parte do público que procura algo menos engajado emocionalmente, pois a letra tem uma profundidade um pouco desconcertante para qualquer pessoa que já teve/tem esses tipos de problemas. O toque de mestre da canção é a inclusão de um verso que faz alusão a canção Mr. Sandman sobre trazer o sono para quem precisa. Em questão de produção, Sweet Dream é uma fofa e luminosa mistura de pop e R&B que pode não ser extremamente original, mas ganha com as nuances que são adicionadas. Com uma performance delicada, leve e inspirada, Alessia Cara continua a fazer pop de qualidade sem precisar recorrer a saídas fáceis.
nota: 7,5

Encontro de Gerações?

Stay
The Kid LAROI & Justin Bieber

Podemos dizer que a parceria do Justin Bieber com o The Kid LAROI é um encontro de gerações? Sinceramente, não sei ao certo, mas o importante de Stay é o tipo de canção que não parece agregar nada artisticamente para a carreira de ambos.

Apesar de sucesso comercial, Stay é uma sem graça e pouco inspirada pop, pop punk e synthpop que, ao menos, consegue ser comercial sem ser totalmente irritante. O principal problema da canção é que a produção parece ter feito a canção com o simples proposito de ser vendável e não uma parceria com o DNA misturado dos dois cantores. Sem nenhum dos cantores marcar com performances desinteressantes, Stay ainda sofre com a composição bem mais ou menos que coloca um verso composto quase todo por apenas “Oh, ooh-woah”. Mesmo não sendo uma bomba, o encontro de Bieber e LAROI é completamente esquecível.
nota: 5,5

15 de agosto de 2021

Primeira Impressão

SOUR
Olivia Rodrigo


Novos Ares, Velhos Hábitos

Good 4 U
Olivia Rodrigo

Passado já dois lançamentos do mega sucesso de Drivers License já é possível afirmar que a Olivia Rodrigo é a maior sensação pop de 2021. Em Good 4 U, terceiro single de Sour, a jovem cantora dá uma quinada de 180° para entregar a sua canção mais diferente até o momento, mesmo que tenha um problema que precisa ser corrigido.

Totalmente diferente do pop que flertava com indie pop e bedroom pop, Good 4 U é uma explosão inesperada de pop rock/punk na nossa cara que deixa até tonto em uma primeira ouvida. Eletrizante do começo ao fim e remorso por mudar tanto a sonoridade da cantora, a canção funciona muito bem ao mostrar a versatilidade de Olivia de maneira tão explicita e surpreendente. Com uma produção acertada e uma ótima performance de Olivia, o problema de Good 4 U é a temática da composição que volta ao mesmo caminho dos dois singles anteriores: a dor de levar um pé na bunda e não saber como lidar com o coração partido. O que salva o resultado final é a qualidade da escrita que consegue ser ácida, divertida, inteligente e totalmente cativante. Resumidamente: o problema não é estético e, sim, de conteúdo. De qualquer forma, a canção é outro acerto para a Olivia Rodrigo que vai transformando em uma força pop de verdade.
nota: 7,5

13 de agosto de 2021

As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer

Alguns artistas ficam tão marcados para o grande público por apenas uma canção especifica que é até fácil esquecer todas as canções que fizeram toda a sua história de uma carreira. E hoje no As 100 Melhores Músicas Que Você Não Deve Conhecer irei falar de uma verdadeira genialidade em forma de canção pop que precisa ser redescoberta como sendo uma das melhores de todos os tempos. Estou falando sobre...


Dona Lizzo Ao Ataque

Rumors
Lizzo & Cardi B

Depois de finalmente alcançar o sucesso merecido devido ao sucesso estrondoso de Good as Hell e Truth Hurts, a Lizzo faz o seu comeback com a divertida Rumors com a participação da Cardi B. E mesmo com alguns defeitos, a canção mostra o que a cantora sabe fazer de melhor: ser a Lizzo.

Rumors começa estranha sonoramente, pois parece que existe uma desconexão entre a presença da Lizzo com o instrumental. Todavia, quando a canção vai encorpando e acrescendo toques de funk, rock e hip hop, o resultado melhora drasticamente para chegar em um final explosivo e realmente inspirado. Entregando carisma e força, a cantora mostra novamente a sua versatilidade imensa e uma química ótima com a Cardi B. A rapper poderia sim ter uma maior participação, mas o seu verso é realmente bem acima da média. Refletindo sobre a sua recepção perante a mídia e parte do público, Lizzo continua de forma inteligente a estabelecer a sua imagem empoderada sem precisar se submeter aos padrões da sociedade. Não é um trabalho genial, mas ajuda a continuar a fazer da Lizzo uma das artistas mais excitantes dos últimos tempos.
nota: 7


Uma União de Pitadas

Reckless
Madison Beer

Como uma canção que parece um trabalho de no mínimo três outros artistas pode terminar realmente boa? Esse é o caso raro de Reckless da Madison Beer.

Já preparando o segundo álbum, a cantora entrega uma canção que parece tirar o melhor de algumas de suas contemporâneas. Vocalmente, Madison ainda caminha em um terreno perigosamente parecido com a Ariana Grande, especialmente durante o seu primeiro álbum Yours Truly de 2013. Todavia, a ótima entrega de Madison ajuda a canção a ser realmente interessante ao ter força, emoção e uma delicadeza melancólica tocante. Sonoramente, a produção parece querer fazer uma mistura de Billie Ellish com Olivia Rodrigo ao entregar uma balada doo-wop encontra indie rock, por rock e, principalmente, bedroom pop que funciona melhor que o esperado. Em questão lírica, a canção mira diretamente em drivers license ao narrar a traição da visão da traída com frases de efeito (And she must be perfect, oh well/ I hope you both go to hell) e uma tristeza dor de cotovelo que realmente conecta com o público. Uma colcha de retalho que funciona para o bem da Madison Beer.
nota: 7,5

A Beleza do Falso Brilhante

Send Me
Tirzah


Existem canções que são brilhantes por entregarem realmente o que parecem ser e outras que enganam quem ouvir ao criarem uma falsa ilusão de entendimento para resultarem tão brilhantes como as do primeiro exemplo. Send Me da britânica Tirzah é um desses casos,

Levando ao conhecimento do público e aclamada pela critica com o seu debut Devotion de 2018, a cantora parece querer enganar com Send Me, pois, na superfície, parece que estamos diante de uma tradicional bedroom pop que se estaciona nos domínios do atual cenário pop. Entretanto, a produção Mica Levi entrega uma experiência única ao misturar R&B alternativo, toque de jazz e um final quase hard rock, mas sustentando por uma hipnótica batida que consegue ser rica sonoramente. Estranhamente peculiar e envolvente, Send Me é elevada devido a contida, mas belíssima, performance de Tirzah que utiliza com sabedoria o seu timbre cristalino para dar nuances revigorantes para a canção. Sem precisar ser uma joia rara, Send Me é de uma beleza quase impossível de se recriar.
nota: 8

10 de agosto de 2021

Ao Mestre, Uma Última Vez!

I Get A Kick Out Of You
Tony Bennett & Lady Gaga

Aos noventa e cinco anos de idade e setenta anos de carreira, a lenda Tony Bennett irá encerrar a sua carreira da melhor maneira possível com o lançamento do seu último álbum ao lado da Lady GaGa. Intitulado Love for Sale, a segunda parceria dos cantores lançou como primeiro single a versão deliciosa de I Get A Kick Out Of You.

Parte do musical Anything Goes de 1936 e escrita por Cole Porter, a versão entoada por Tony e GaGa é um tradicional, irresistível e adorável jazz tradicional muito bem produzido e instrumentado. Apesar de toda a qualidade técnica é a presença deslumbrante dos dois cantores. De um lado a experiência de toda uma jornada de Tony que ainda exala um frescor como se fosse a primeira vez e, do outro lado, a elegância da versatilidade de GaGa que prova mais vez o imenso alcance artístico que possui. Entretanto, o grande ponto alto é a química perfeita e rara entre os dois que dá toda a força emocional para I Get A Kick Out Of You. Apesar de ser uma despedida de uma lenda que envolve uma emoção que vai além do resultado da canção é preciso celebrar a vida de uma das maiores lendas da música de forma a consagrar uma vida inteira que poucos podem dizer que terão a chance de alcançar.
nota: 8

Plot Twist

Coloratura
Coldplay


Comecei a resenha de Higher Power com a seguinte frase: “sinceramente, não consigo entender direito a transformação do Coldplay de uma excitante banda de indie rock/pop post-britpop em uma pastiche deles mesmos”. Então, surge Coloratura para recolar a banda dentro do caminho certo em um trabalho realmente espetacular.

A grande razão de Coloratura funcionar é que a banda esquece esquemas prévios de como fazer uma canção comercial atualmente e embarga em uma linda, nada comercial e tocante viagem sonora. Com um pouco de dez minutos, a canção é uma sensorial, inspirada, celestial e completamente envolvente progressive rock misturado com indie rock e pinceladas de psychedelic rock/pop que cria uma história com começo e fim, sendo envolvida em uma atmosfera delicada e sonhadora. Com uma performance realmente cativante de Chris Martin em seu melhor momento em tempos, a canção ainda entrega uma composição inspirada que beira o filosófico sem pender para o pretencioso. Com fortíssima inspiração do Pink Floyd em Dark Side of the Moon, Coloratura é uma das melhores canções que a banda entregou nos últimos devido a produção e, principalmente, o Coldplay voltando a ser a banda excitante de indie rock/pop post-britpop que se mostrou desde o começo. A pergunta que fica é: uma exceção ou o começo de uma reinvenção?
nota: 8

O Assombro da Felicidade

Say What You Will
James Blake

Ouvir alguma canção do James Blake é sempre esperar por uma carga poderosa de emoções que normalmente refletem sentimentos melancólicos e profundos. Em Say What You Will, primeiro single de seu próximo álbum intitulado Friends That Break Your Heart, o britânico parece entregar o primeiro ato de uma nova fase: a descoberta da felicidade.

Liricamente, a canção mostra um James menos tenso ao não se importar com as opiniões de outras pessoas sobre a sua vida, mostrando uma confiança inspiradora e uma positividade orgânica. Em uma época em que a saúde mental está se mostrando cada vez mais importante para o nosso bem viver, James Blake mostra que é realmente possível a gente encontrar esse lugar saudável com nossas emoções e sentimentos. Sonoramente, Say What You Will também reflete essa felicidade com um espetacular indie/eletrônico com toques de post-dubstep em uma atmosfera leve e energética sem perder, porém, a qualidade técnica excepcional com adição de gratificantes e revigorantes nuances e texturas que sempre permeiam a sonoridade de James. Todavia, o grande destaque vai para a avassaladora performance do cantor que coloca toda a força do timbre único em uma entrega vocal que consegue captar o seu estado de espirito e, ao mesmo tempo, encantar de maneira desconcertante. Especialmente a última nota é um verdadeiro soco no estomago. E dessa maneira James Blake prova que a felicidade também pode ser revertida em arte da melhor qualidade.
nota: 8,5

Datado e Eficiente

Everytime I Cry
Ava Max


É necessário que a Ava Max pode não ser o suprassumo do pop em questão de originalidade, mas a cantora sempre entrega algo que tem a possibilidade de hitar. Esse é caso de Everytime I Cry.

Um electropop com pitadas de EDM completamente datado, mas eficiente o suficiente para ter um verniz comercial perfeito. Saído direto do final de 2010, Everytime I Cry é o tipo de canção que não parece fazer efeito logo de cara ao escutar, mas depois de duas ou três escutas começa a grudar igual a chiclete velho no solo do sapato. Com um refrão rasteiro e grudento, Ava canta novamente sobre se sentir empoderada e outra vez compensa a falta de criatividade com uma ótima performance vocal que lembra para o público o tamanho do seu talento. Everytime I Cry é o prato requentado que funciona quando a gente realmente está com vontade de uma farofa bem feita.
nota: 7

8 de agosto de 2021

Primeira Impressão

Crooked Machine
Róisín Murphy



Entra Na Minha Casa Róisín Murphy

Assimilation
Róisín Murphy

Assim como uma enviada dos céus, Róisín Murphy continua a entregar trabalhos que parecem serem feitos nas soldas celestiais. Esse é o caso de Assimilation.

Remix de Simulation, canção que abre Róisín Machine e que defini na resenha como “uma genial e hipnotizante house/techno que funciona com um glorioso abre-alas que trabalha como aquela viagem psicodélica de barco na versão original de A Fantástica Fábrica de Chocolate”, Assimilation desconstrói toda a pomposidade épica da canção para entregar uma acachapante remix/versão em forma de uma mistura de EDM, post-disco, funk e toques da batida original de house/techno. Menor em duração, a canção parece trocar a atmosfera fantástica por algo mais orgânico. A batida que era antes costurada dentro do reino do etéreo passa para o da sensualidade envolvente sem perder, porém, a potencia original. E, novamente, Róisín coloca o seu toque de bruxa pop para entregar uma canção nada comercial, mas que faz a gente querer se levantar para dançar como se não houvesse amanhã. Ao desconstruir a sua própria canção para remonta-la em uma versão que funciona perfeitamente por si só, a cantora apenas continua a sua jornada para escrever as suas próprias leis do pop. E, por isso, eu a agradeço e rezo para que continue assim.
nota: 9

6 de agosto de 2021

Era Disco

Take My Breath
The Weeknd

Seguro como o maior nome masculino da atualidade, The Weeknd começa a deixar para trás a era After Hours com o lançamento da requintada Take My Breath.

Se formos levar em conta apenas a canção é possível prever que o cantor irá apostar em mais na disco para o próximo álbum. Deixando um pouquinho de lado a atmosfera oitentista, Take My Breath é uma classuda e nostálgica post-disco/synthpop que busca beber da fonte dos sintetizadores de I Feel Love da Donna Summer. Menos impactante comercialmente que os outros trabalhos nessa mesma pegada anteriores, a canção mostra uma versatilidade do cantor que não perde em nenhum momento a sua essência de hitmaker. Acredito que o refrão poderia ter mais impacto, mas a performance inspirada de The Weeknd ajuda a compensar possíveis erros cometidos. E assim continua a dominação do The Weeknd sem quase nenhum concorrente a altura.
nota: 8

Estranho e Familiar

Cure For Me
AURORA


Ouvir Cure For Me da AURORA é quase como ver a fusão da água e do óleo: não deveria funcionar, mas, de alguma forma, o resultado é melhor que o esperado.

Dona de um estilo próprio que trafega entre o indie/folk com uma estética de ninfa nórdica, AURORA faz de Cure For Me uma curiosa mistura desse estilo com uma batida que recaí para o EDM/electropop. Nada muito drástico, pois soa levemente como algo remixado do Florence and the Machine, mas fora da zona de conformo e expectativa para a cantora. E o que poderia ser um tiro no pé se torna um acerto devido ao cuidado da produção em casar duas propostas tão diferentes em apenas uma canção. Acredito que o elemento que faz Cure For Me é a forma como AURORA performa, pois em nenhum momento ouvimos a cantora se perder ou/e pender para a batida radiofônica ao encontrar o seu equilíbrio perfeito. Liricamente, a canção também é outro acerto já que a composição adiciona estofo emocional para a canção se distinguir ainda mais de outras com a mesma pegada. Não irei dizer que Cure For Me funcione do começo ao fim, mas, felizmente, AURORA faz as peças quase entrarem em seus lugares de maneira graciosa.
nota: 7,5



Estranho e Familiar 2

Bunny Is a Rider
Caroline Polachek

Sensação pop/indie dos últimos tempos, Caroline Polachek entrega em Bunny Is a Rider, single lançando recentemente, que para a construção de algo realmente divertido não precisa ser exatamente algo realmente novo, mas, sim, criativo.

Em questão sonora, Bunny Is a Rider é uma mistura azeitada de electropop, R&B e pop que lembra alguns como, por exemplo, MØ, Banks e Tove Lo. Entretanto, essas semelhanças ficam apenas na superfície, pois Caroline Polachek entrega uma canção com uma personalidade estranhamente interessante devido a adição de sons como a risada de uma criança e uma performance ousada. Especialmente esse segundo ponto é que dá para Bunny Is a Rider a força suficiente para se destacar. Parece que em alguns momentos os vocais não irão se encaixar na canção, outros soando perfeitamente alinhados e outros adicionando efeitos que parecem exageros, Polachek consegue encontrar o equilíbrio certo e adicionar uma dose cavalar de personalidade sem precisar necessariamente de entrega vocais arrebatadores. Não é um trabalho que mude o cenário pop, mas é interessante o suficiente para ganhar um merecido destaque.
nota: 7,5

Mutações

Mötley Crew
Post Malone


Apesar de não ser exatamente o fã número um do Post Malone é necessário admitir que o rapper sensação é um artista versátil ao entregar performances bem diferentes em cada um dos seus hits. Em Mötley Crew, porém, Post entrega uma performance tão estranha que atrapalha o que poderia ser uma boa canção.

Trabalhando a sua vertente verdadeiramente rapper, Post utiliza o seu tom mais agudo e esquisito para entoar os versos da canção, deixando um ruído bastante off no resultado final. Ouvir Mötley Crew sem saber que a canção é o do rapper é bem possível de não identificar quem é o artista por trás. Infelizmente, essa decisão atrapalha a canção que tem uma produção até interessante ao entregar uma densa, sombria e viciante batida trap rap que é ofuscada pelo erro de performance. Uma mutação performática que não agrega em nada para o Post Malone.
nota: 5,5

3 de agosto de 2021

Quase Tão Sedoso

Skate
Silk Sonic


Logo depois de surgiram basicamente do nada e dominaram o mundo com o mega sucesso de Leave the Door Open, o Silk Sonic, projeto formado pelo Bruno Mars e o Anderson .Paak, meio que sumiu do mapa sem aviso de novo single ou de maiores informações sobre o álbum. Depois de muita especulação envolvendo até o nome da Beyoncé, o duo lança finalmente a divertidíssima Skate.

Menos inspirada que a canção anterior, mas ainda com qualidade alta, Skate dá uma acelerada na batida ao entregar uma deliciosa mistura de pop soul, R&B e toques de funk que remete diretamente aos anos setenta. Dessa vez, Silk Sonic aposta na vontade de dançar como se não houvesse amanhã com uma batida deliciosamente dançante e suingada. A química entre os dois integrantes do projeto é a base perfeita para personalidade da canção, pois o timbre aveludado de Bruno e a voz mais grave de Anderson se casam de forma harmoniosa e de uma elegância ímpar. E assim aumenta a expectativa para o lançamento do álbum do Silk Sonic para um nível ainda mais excitante.
nota: 8

O Épico e o Intimista

I Love You, I Hate You
Little Simz


Demonstrando que já prepara o álbum do ano com o antecipadíssimo Sometimes I Might Be Introvert, a rapper Little Simz entrega um novo soco no estômago com a devastadora I Love You, I Hate You.

Apresentando uma nova faceta, a rapper mostra no single o seu lado mais intimista ao fazer uma crônica pungente e arrasadora sobre o seu conturbado relacionamento com o seu pai. Refletindo não apenas as suas experiências pessoais, mas, também, expondo de forma inteligente sobre o papel do homem na criação de filhos, I Love You, I Hate You apresenta uma das composições mais brilhantes dos últimos tempos, pois consegue ser tecnicamente perfeita e de uma força emocional descomunal ao mostrar uma vulnerabilidade tocante de uma pessoa em busca de resposta para o motivo de ter o que deveria ser o relacionamento mais importante completamente despedaçado. Transitando entre o emocionalmente melancólico (Never thought my parent would give me my first heartbreak) para o devastadoramente sincero (And wish than be faced with this reality/ Is you a sperm donor or a dad to me?), Little Simz entrega uma performance com a mesma força, deixando claro que a rapper encontra-se no seu melhor momento da carreira ao alcançar um patamar que, sinceramente, nenhum outro rapper nesse momento parece estar nem perto. E assim se vai construindo o que deve um verdadeiro ápice musical.
nota: 9

Velha Emoção

Right On Time
Brandi Carlile


Dona de um dos meus álbuns preferidos dos últimos anos (By the Way, I Forgive You), a cantora Brandi Carlile se prepara para lançar um novo trabalho (In These Silent Days) e como primeiro single foi lançada a bela Right On Time.

Boa parte da razão para a canção funcionar é devido a arrasadora performance de Brandi em uma entrega que mistura momentos contidos e contempladores com outros de pura emoção e poder vocal. Sabendo bem dosar as duas “pontas”, a cantora é perfeita para explorar a emoção genuína da simples, mas extremamente eficiente composição sobre se arrepender de machucar quem ama. Misturando indie, rock e folk, Right On Time se transforma em uma power balada que pode não acrescentar nada novo, mas apresenta uma produção competente e realmente capaz de dar a base perfeita para segurar toda o sentimento expresso na canção. Mesmo que não seja realmente original, a emoção Right On Time é o que precisamos de tempos em tempos para lembrar do papel fundamental da música nas nossas vidas.
nota: 8

Elevação

Bouncin'
Tinashe


Apesar de ser um talento genuíno, a Tinashe nem sempre acerta no alvo em todos os seus lançamentos. Todavia, quando a cantora está na sua plenitude entrega pérolas com é caso de Bouncin'.

Em um mundo perfeito, a canção seria o próximo sucesso viral, mas como as coisas não são um conto de fadas, o single está fadado a passar desapercebido pelo grande público. E é uma verdadeira pena, pois Bouncin' é o tipo de trabalho que consegue pegar tendências que nem sempre funcionam artisticamente e dar um verdadeiro verniz reluzente sem perder o fator comercial. Uma mistura bem azeitada de R&B, pop e trap, a música conquista pela batida sensual, cadenciada e perfeita para dançar até cansar as pernas. Além disso, a performance de Tinashe é realmente incrível, pois apresenta ao menos três nuances de timbre sem perder a personalidade. Essa é a elevação que uma artista de talento pode fazer em uma canção que poderia ser mais do mesmo na mãos de outros.
nota: 8