30 de julho de 2021

Desconexão

Don’t Go Yet
Camila Cabello


O que aconteceu com a carreira da Camila Cabello? Depois de um inicio promissor para um segundo álbum completamente esquecido, a cantora vem sofrendo de escolhas pessoais e artistas completamente equivocadas como é o caso de Don’t Go Yet.

O pior de Don’t Go Yet é o fato que a canção teria tudo para ser uma ótima canção, mas perde a chance devido a decisões completamente equivocadas. Parece haver uma desconexão entre composição e vocais com a batida latin pop/salsa pop. Ao sair do atual lugar comum da latin music, a produção acerta em uma divertida e mais tradicional batida que chega a realmente empolgar na sua parte final ao desaguar totalmente em uma batida latina. Entretanto, a pobre composição não chega realmente a acompanhar esse clímax e, principalmente, a performance de Camila é especialmente pobre. Em especial, no segundo verso a cantora parece estar entoando outra canção devido a mudança de ritmo realmente inexplicável. E para piorar a situação vem a primeira performance de Don’t Go Yet com a acusação que fizeram brown face em um dos dançarinos brancos para jogar a última pá de cal em cima das pretensões de voltar por cima da Camila Cabello.
nota: 5,5

A Ocidentalização do BTS

Permission To Dance
BTS


Uma das coisas que realmente gostei no BTS era que, apesar de usarem gêneros ocidentais, a boy band parecia adicionar uma camada única de personalidade nas suas canções que refletia diretamente sobre a visão do k-pop sobre o pop. Todavia, percebi que a sonoridade deles vem mudando infelizmente para soar mais alinhado com o pop ocidental e, não, a visão deles sobre o mesmo. E isso resulta na péssima Permission To Dance.

Parecendo algo feito na em 2009 pelo Taio Cruz, Permission To Dance é uma dence-pop medíocre, repetitiva e completamente maçante que passa longe de estar perto do potencial do BTS. Produzida de qualquer maneira e sem nenhum cuidado especial, a canção é um amontoado de clichês juntos que dariam uma canção boa se tivessem nas mãos de alguém realmente capaz de criar algo fora de quaisquer expectativas. E a péssima composição coescrita pelo Ed Sheeran apenas aumenta essa sensação clara que estão fazendo uma sanitização no BTS para o ocidente ao não ter nada em coreano ou japonês, mas sendo completamente em inglês. Nem as performances dos integrantes salvam Permission To Dance, pois a mesma já nasceu sem salvação. Uma pena de verdade.
nota: 4,5

Bad Shakira

Don't Wait Up
Shakira

Apesar de nem sempre acertar em suas canções, a Shakira sempre apresentou um nível sempre bastante elevado de qualidade desde os tempos de Estoy Aquí. E é por isso que ouvir Don't Wait Up é praticamente um soco na cara.

Possivelmente, a pior canção solo da sua carreira, Don't Wait Up não tem um pingo de personalidade que a fez a colombiana uma estrale mundial. E olha que estou falando de uma canção que apresenta os vocais da cantora com todas as coisas boas e, também, os motivos por muitos não curtirem a sua voz. Entretanto, a performance da cantora parece ter sido feita no automático ruim, resultado em uma espécie de imitação feita pela própria Shakira. O pior, porém, está na péssima produção de Ian Kirkpatrick ao lado da própria artista que entrega o que tem de pior no electropop/EDM comercial que de tão genérica deveria ser apenas recomendada por receita médica. Se esse não foi o fundo do poço artístico da Shakira tenho até medo do que vem por aí.
nota: 4,5

Valorização

Tragic
Jazmine Sullivan


Ainda não consigo entender o motivo que a Jazmine Sullivan não é mais valorizada pela indústria. Depois do ótimo EP Heaux Tales, a cantora lançou a interessante Tragic.

A primeira grande sacada da canção é o usar como sample a frase dita pela deputa estadunidense Maxine Waters durante uma audiência no congresso dos Estados Unidos em que a mesma pedia para ser ouvida durante o seu tempo de direito que acabou virando o meme de “reclaimin' my time”. Esse momento é usado aqui como ponto de partida para Jazmine mostrar que precisa se colocar em primeiro em uma relação desgastada e que nem vale pelo sexo apenas. Empoderada do começo ao fim, Tragic também usa do humor para se fazer entender como na hilária estrofe do refrão em que a cantora proclama: “When your dick is tragic/ Who was lying when they told you you was all that?”. Sonoramente, a canção é redondo e cadenciado R&B que a cantora não precisa de muito para dominar e mostra toda a sua imensa personalidade. Espero que essa nova era possa realmente trazer o reconhecimento que a Jazmine Sullivan realmente merece.
nota: 8

27 de julho de 2021

Lorde Lanou

Stoned At The Nail Salon
Lorde

A boa noticia do novo single da Lorde é o resultado está no mesmo nível de Solar Power. A má notícia sobre Stoned At The Nail Salon é que a canção poderia ter sido facilmente lançada pela Lana Del Rey.

Ao serem produzidas por Jack Antonoff, Lorde e Lana (também pode ser incluída a Taylor) estão propensas a terem trabalhos comparados. Ainda mais que as artistas caminham entre o indie pop/rock, folk e pop. Em Stoned At The Nail Salon, porém, as semelhanças se tornam ainda mais visíveis devido a produção de Jack (coproduzindo ao lado da própria cantora) transformar em uma balada indie/folk com base contida e foco nos vocais e na composição. Escolha que já ouvimos várias vezes pela voz de Lana e que soa levemente off na voz da Lorde. O que salva Stoned At The Nail é a sensacional composição que remete a velha “Lorde triste”, mas com uma melancolia pesada que é resultado das suas vivencias e um tino sempre apurado para construção de momentos realmente inspirados e esteticamente pop como, por exemplo, o verso “Got a memory of waiting in your bed wearing only my earrings”. Além disso, Lorde entrega uma performance inspirada, tendo como destaque os backvocais da Phoebe Bridgers, Clario, Lawrence Arabia e Marlon Williams. Resumidamente: para gostar da nova era da Lorde precisa realmente gostar dos trabalhos recentes do Jack Antonoff e esperar que o resto do álbum tenham algumas surpresas.
nota: 7,5



O Cover do Cover

Gloria
Angel Olsen


Nem sempre encontramos toda a força de uma canção apenas durante os seus minutos de duração, mas, sim, no contexto que a envolve. Em Gloria, a cantora Angel Olsen entrega um cover envolvido em vários contextos diferentes para alcançar o seu verdadeiro poder.


Primeiro single de um EP com regravações de canções dos anos oitenta, Gloria é a releitura do sucesso de 1982 da cantora Laura Branigan que já tinha sido uma regravação do original do italiano Umberto Tozzi de 1979. Liricamente, a canção apresenta dois versões distintas, apesar de ter a mesma personagem principal. A original, o protagonista sonha com a tal Gloria e promete encontra-la na realidade para a livrar de todos os problemas. Já na regravação, a narradora adverte a personagem que tem problemas pessoais a tomar cuidado com os sentimentos das outras pessoas, pois o final da história sempre é o da solidão. Nessa segunda versão, o tom é mais sombrio e melancólico, indo na direção contrária da produção que entrega uma cativante e vibrante mistura de disco, synthpop e pop rock. E é dessa contradição que regravação de Laura Branigan ganha um lugar especial no panteão da cultura pop. Com Angel Olsen, Gloria ganhar contornos sonoros que acompanham de maneira alinhada a composição em inglês.

A produção dessa versão cria uma densa, madura e realmente sombria indie rock com toque de arte rock e leves pinceladas do synthpop original, criando uma base perfeita para a composição melancólica. Mesmo que perca esse interessante atrito entre forma e conteúdo, Angel Olsen consegue preencher essa lacuna devido a espetacular instrumentalização que aposta na utilização de instrumentos como, por exemplo, violinos para dar força a construção da atmosfera. Enquanto isso, a tocante performance da cantora é aprimorada pelo uso sábio de efeitos vocais que auxiliam a cantora a dar ainda mais sentido para a sua belíssima interpretação que transita entre o contido para o épico no seu clímax. Obviamente, ouvir Gloria na voz de Angel Olsen sem conhecer todo o seu contexto é uma experiencia única, mas tudo muda de patamar ao ter o conhecimento de como as coisas chegaram aqui.
nota: 8,5

New Faces Apresenta: Måneskin

ZITTI E BUONI
Måneskin


A tiktokzação da indústria fonográfica tem as suas desvantagens e, claro, a suas vantagens no momento que fica possível para artistas fora dos Estados Unidos terem a capacidade de se tornarem hits mundiais. Esse é caso da banda italiana Måneskin. Impulsionada pelo sucesso do cover da canção Beggin’ de 1967, a banda vem conquistando ótimas colocações nas paradas, milhões de streamings e, claro, reconhecimento mundial. E isso ajuda outra canção a também ter destaque: ZITTI E BUONI.

Segundo colocados no The X Factor italiano na décima primeira temporada, a banda de rock conseguiu vencer o tradicional Sanremo Music Festival e, também, o Eurovision Song Contest com a canção presente no seu segundo álbum. Até queria dizer que é fácil entender o motivo, mas a canção não tem nada parecido com as músicas que normalmente vencem essas competições. E isso não é algo ruim, pois ZITTI E BUONI é uma surpreendente e excitante canção hard rock que com toques de dance rock e pop rock ajuda o resultado se tornar deliciosamente comercial e abrangente para todos os públicos. Lembrando uma cruza de The Killers com Franz Ferdinand, ZITTI E BUONI ganha personalidade devido a ótima instrumentalização, a performance explosiva do vocalista Damiano David e da sua composição em italiano verborrágica e irresistivelmente contagiante. Infelizmente, para cada Måneskin que surge irá existir umas dez pragas em forma de canção para virar hit durante a nova era da viralização de músicas.
nota: 8

Emoção e Texturas

Wrecked
Imagine Dragons

Como uma das poucas bandas de rock ainda fazerem sucesso comercial, o Imagine Dragons está longe de ser uma unanimidade entre críticos e o público. E é por isso que Wrecked é uma canção que pode diminuir esse distancia entre a banda e os seus detratores.

Possivelmente uma das melhores canções que a banda já lançou, Wrecked consegue esse feito ao adicionar texturas para a sua produção. Sem precisar recorrer para saídas fáceis, a construção da instrumentação apresenta uma nítida vontade de sair do lugar comum ao ter camadas diferentes para cada parte sem precisar soar como uma colcha de retalhos mal feita. Mesmo assim, a canção não tem uma produção revolucionária que ainda deixa a desejar criativamente. Felizmente, a emoção dos vocais de Dan Reynolds e a composição realmente tocante sobre a perda da cunhada do vocalista ajudam Wrecked a encontram um equilíbrio raro para o Imagine Dragons. Uma pena que a canção soa mais como um tiro que acertou o alvo no escuro do que um novo caminho para a banda.
nota: 7