1 de fevereiro de 2026

Primeira Impressão

locket
Madison Beer


O Encontro Pop

Stateside + Zara Larsson
PinkPantheress & Zara Larsson


Existem alguns unicórnios na música, e um deles é a existência de um remix que consegue ser melhor do que a canção original. Esse feito raro é alcançado no remix de Stateside, de PinkPantheress, ao lado de Zara Larsson.

Uma das melhores canções de Fancy That, o single original já era a prova de que a "sonoridade da PinkPantheress estava se direcionando para uma abordagem mais eletrônica, incorporando influências de house e EDM para enriquecer sua já sólida identidade musical". No remix, a produção — sabiamente — mantém essa base, mas altera o suficiente para que a faixa se apresente, de fato, como um remix verdadeiro, graças a adições muito bem-vindas em sua construção.

A mais pungente delas é a batida mais marcante de electroclash/EDM, que eleva ainda mais o impacto sonoro da canção e se alia perfeitamente à presença de Zara Larsson.

É aqui que o remix realmente brilha. Ao convidar a sueca, a música poderia facilmente optar por caminhos seguros e previsíveis, mas prefere integrar genuinamente a personalidade da convidada à mistura, criando uma parceria real entre as duas artistas. Essa decisão transforma a faixa na fusão ideal de duas potências do pop — e o resultado é recompensador: uma canção que não só rivaliza, como consegue superar a original, realizando um verdadeiro milagre musical.
nota: 8,5

O Retorno Depois do Sucesso

Where's My Phone?
Mitski

Depois do sucesso comercial inesperado de My Love Mine All Mine, Mitski está de volta com o lançamento de Where’s My Phone?, primeiro single de Nothing’s About to Happen to Me.

É fácil perceber que a canção não tem relação direta com seu single de sucesso, mas, felizmente, continua mantendo o nível artístico da cantora bastante elevado. Trata-se de uma faixa reconfortante, madura, graciosa e com forte estética vintage: um noise pop com garage rock que claramente se inspira nos anos setenta, com uma camada noventista, sem, no entanto, soar como um simples exercício de nostalgia. Na verdade, Where’s My Phone? apresenta um trabalho instrumental incrível e complexo, repleto de camadas, que vão se desenrolando gradualmente até alcançar algo muito mais climático e poderoso do que sua primeira metade deixa transparecer. Esse é, sem dúvida, o grande trunfo da canção.

Liricamente, a faixa não é de digestão fácil para quem busca algo mais direto e palatável. Não se trata de uma escrita complexa em sua forma, mas Mitski possui uma capacidade impressionante de expressar sentimentos difíceis de maneira elaborada, sem jamais soar pretensiosa. Aqui, fica claro que a cantora busca traduzir uma angústia existencial típica do mundo contemporâneo, em que estamos constantemente cercados de coisas, mas ainda assim podemos nos sentir vazios e perdidos. Mitski entrega uma performance vocal sólida e poderosa, que se encaixa perfeitamente na proposta da canção; ainda assim, é preciso apontar que a mixagem vocal deixa um pouco a desejar, já que sua voz acaba ficando abaixo do instrumental devido às escolhas de efeitos adotadas.

De qualquer forma, Where’s My Phone? se firma como um dos melhores momentos deste início de ano, que promete ser repleto de destaques como este.
nota: 8

O Sábio

Death of Love
James Blake

Uma das maiores qualidades de James Blake é manter, a cada nova canção lançada, a sua personalidade artística intacta, mas adicionando novas nuances para sair da mesmice. Esse é o caso da ótima Death of Love.

Primeiro single do álbum Trying Times, a canção é um típico trabalho do britânico ao unir, com inteligência e graciosidade, uma mistura de eletrônico, UK bass, R&B, downtempo e trap, criando uma sonoridade madura, vigorosa e bastante familiar. Todavia, Death of Love não é uma mesmice sonora devido à inteligência criativa da produção, que adiciona texturas excitantes para dar vida à canção.

A principal e mais sentida delas é a introdução de um toque religioso, perceptível no sample vocal em hebraico e no coro presente em parte da canção. Dessa maneira, a faixa ganha uma camada de significação mais profunda ao ligar essa atmosfera religiosa à experiência sobre as consequências do fim de um amor, tema abordado na ótima composição, que consegue ser devastadoramente emocional sem soar piegas ou excessivamente dramática.

Com uma performance que exala toda a sua personalidade, mas que é capaz de encontrar perfeitamente novos lugares para explorar, James Blake mostra como se manter fiel a si mesmo e, ao mesmo tempo, buscar novos caminhos.
nota: 8,5

Tema Filler

Wall of Sound
Charli xcx

Se a adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes parece que vai ser um dos filmes mais divisivos do ano, a soundtrack feita por Charli XCX parece que vai ser um dos álbuns mais interessantes do ano. E olha que Wall of Sound é a menos impactante até agora.

A grande qualidade da canção é a capacidade de criar algo flertando com o orquestral/clássico sem perder a essência eletrônica da artista, criando um amálgama muito bem estruturado. Isso é ouvido perfeitamente na poderosa instrumentalização que dá à canção uma atmosfera épica, cinematográfica e “brat”.

O problema de Wall of Sound, porém, é que a canção não chega de verdade à explosão que a sua base promete alcançar, deixando o gosto de ser uma faixa que funciona bem dentro do álbum, mas que, como single, deixa clara sua natureza filler. Outro problema é a sua composição, que não chega a fazer feio tematicamente, mas deixa espaços vazios em uma letra quase burocrática e com um refrão apenas ok.

De qualquer forma, a canção é um caminho muito auspicioso para que Charli XCX entregue mais uma era inspirada para a sua carreira.
nota: 7,5

Um Reencontro

2SIDED
Arlo Parks


Fazia um tempo que não escutava nada da Arlo Parks, mas fico bastante feliz em me deparar com a ótima 2SIDED.

Primeiro single de seu novo álbum (Ambiguous Desire), a canção representa uma mudança bem interessante em relação ao que eu lembrava da cantora, ao partir para uma competente construção de alt-pop com influências de drum and bass e house. Não é nada revolucionário, mas funciona de maneira tão azeitada que nos envolve completamente.

Há um toque de PinkPantheress, mas 2SIDED se beneficia da presença marcante e, ao mesmo tempo, delicada de Arlo, que tem um timbre e uma maneira de cantar tão peculiares que injetam personalidade na canção de forma indiscutível. Além disso, a composição deixa visível sua precisa capacidade criativa de entregar emoção genuína.

Um feliz reencontro com Arlo Parks, que também pode ser o descobrimento da cantora para quem nunca a conheceu.
nota: 7,5


25 de janeiro de 2026

Qual é o Seu Prazer?

I Could Get Used to This
Jessie Ware

A volta que todos estavam esperando ganha forma com o lançamento de I Could Get Used to This, da incomparável Jessie Ware. E a cantora já responde, de cara, a uma questão levantada alguns anos atrás: qual é o seu prazer?

Não sei vocês, mas o meu prazer é escutar canções sensacionais como essa produção inspiradíssima. Aqui, é novamente um deleite perceber como a produção consegue compreender perfeitamente toda a personalidade da cantora, mesmo trabalhando com dois novos nomes, Jon Shave e Barney Lister. O resultado é uma canção que mistura com perfeição a vibe do início da carreira de Jessie com aquilo que ela vem apresentando desde o sucesso de What’s Your Pleasure?: uma deliciosa, refinada, elegante, madura, cativante e aveludada fusão de pop soul com post-disco, além de toques de dance-pop, R&B e boogie.

Sem pender para uma nostalgia barata, mantendo um claro verniz contemporâneo sem perder o charme de um bom “revival”, I Could Get Used to This impressiona ao unir pontas tão distintas em uma canção extremamente gratificante e de qualidade técnica notável. Desde sua abertura envolvente e graciosa, que estabelece um clima convidativo e sonhador, até o seu desenrolar preciso, no qual novas camadas sutis, porém pungentes, vão sendo adicionadas, a faixa cresce em força dançante e energia até culminar em um clímax vibrante e suculento.

E nada disso teria o mesmo impacto sem a presença magistral de Jessie Ware, que entrega uma performance brilhante, dominando cada momento da canção com sua voz sedosa e carisma luminoso. Para quem acompanha a cantora, isso não é surpresa, mas ainda assim impressiona o quão poderosa é sua presença de forma tão única e refrescante. Por fim, a composição de I Could Get Used to This atinge um nível altíssimo ao traduzir a elegância da artista em uma deliciosa fábula sobre amor e desejo.

Assim, ainda em janeiro, Jessie Ware já entrega uma das fortes candidatas ao título de melhor canção do ano.
nota: 9

A Primeira Grande Música de 2025

DANCE...
Slayyyter


Com uma sequência de lançamentos incríveis, a Slayyyter vai finalmente lançar o seu aguardadíssimo quarto álbum (Worst Girl in America). E, para continuar essa impecável sequência de singles, a cantora lançou a primeira grande canção de 2025 com a sensacional DANCE...

É impressionante que todos os lançamentos da cantora consigam ser completamente diferentes entre si, mas ainda assim seguir claramente uma linha de raciocínio criativo clara e impressionante. Aqui, a produção segue para um caminho electropop misturado com acid house, post-disco, dank pop e alternativo, com uma produção mais dramática, soturna e pegajosa.

São elementos que a cantora já mostrou algumas vezes, mas, em DANCE..., são remodelados para dar camadas de personalidade à cantora, mostrando uma total e indiscutível versatilidade. E não é apenas sonoramente que a canção ganha muitos pontos, pois também é fácil notar o tamanho da qualidade instrumental da canção em um trabalho calculadamente complexo de construção técnica. Econômica na lírica, mas eficiente na medida para mostrar um lado mais emocional da cantora, Slayyyter entrega outra vez uma impressionante performance ao deixar brilhar sua voz mais “direta” e sem grandes efeitos, comprovando a sua versatilidade.

Queridos leitores, DANCE... é como que todos os anos deveriam começar.
nota: 8,5