Holly Humberstone
Cruel World, segundo álbum da Holly Humberstone, é o que posso chamar, sem medo, de um unicórnio sonoro. Apesar de claras influências de outras artistas contemporâneas, a artista entrega um trabalho que capta perfeitamente toda uma visão sonora única, requintada, madura e, sinceramente, surpreendentemente muito acima da média.
Compartilhando os créditos das composições com alguns nomes, mas principalmente com o produtor do álbum, Rob Milton, a artista mostra o seu maior trufo na construção das suas sensacionais letras, que fazem o álbum se elevar de maneira graciosa e deslumbrante. A lírica aqui apresentada é uma mistura inspirada e madura de crônicas com temáticas que se mostram claramente reflexos de uma jovem ainda buscando entender as águas da vida adulta, mostrando, porém, um amadurecimento nítido que é visto especialmente na estética das composições, ao serem trabalhos que apresentam uma inteligência apurada, com toques de uma acidez deliciosa, traços sentidos de uma melancolia e uma atmosfera sempre com personalidade bem delimitada.
E também existe uma sinceridade natural na intenção das letras que impede qualquer traço que poderia existir de pretensão ou forçamento em questão de temas e/ou estética, o que corrobora toda a atmosfera que as letras querem passar em um quase diário pessoal em forma de música, em que Holly escreve como se estivesse apenas desabafando sobre a sua vida. Esse teor de confissão/segredo é outro ponto importantíssimo para as composições em Cruel World, pois é o que faz surgir claramente essa conexão emocional entre o álbum e quem o escuta, até mesmo com quem não necessariamente encontra reflexos verdadeiros do que está sendo exposto com o que viveu ou vive. Isso é uma qualidade realmente preciosa da lírica apresentada aqui, pois ajuda a abranger o público da artista de maneira orgânica. Um dos pontos altos do álbum deixa bem clara essa qualidade da artista: a sensacional To Love Somebody.
“A canção é uma balada mid-tempo sobre o lado bom do fim de um amor, em que a cantora preserva as qualidades líricas já citadas, adicionando, porém, uma carga emocional realmente comovente, que tem seu ponto alto no simples, mas completamente eficiente, refrão.” O single apresenta um dos momentos mais inspirados do trabalho quando Holly manda essa “pedrada”: “In the movie of your life/You're the first to die/And the critics called it trash (Too bad)”. É irônica, inteligente e com um toque emocional realmente potente. O que faz o álbum mostrar que a artista ainda precisa de algum tempo para evoluir é a sua sonoridade.
Apesar da produção de Milton ser um trabalho refinado, bem conduzido e bastante coeso, Cruel World parece que ainda não encontrou totalmente a sintonia fina da sonoridade de Holly. O álbum é uma mistura de synth-pop com alt-pop, indie pop, bedroom pop e folk pop que tem, sim, reflexos em sonoridades de outras artistas como, por exemplo, Olivia Rodrigo e Billie Eilish, mas que tem traços próprios aqui e ali que fazem a gente contemplar um futuro auspicioso para a artista. Todavia, o trabalho ainda não parece totalmente certo no caminho, já que tem momentos em que o resultado fica ainda aquém do que a gente nota que poderia ser, especialmente quando aparecem as faixas mais fillers. Entretanto, como apontado anteriormente, o álbum ainda é um trabalho de uma sinceridade artística imensa, que faz ficar difícil não se encantar pelo que é mostrado, especialmente quando existem os grandes acertos.
Em Cruel World, canção que dá nome ao álbum, “a produção de Rob Milton é tão adoravelmente refinada que a gente se sente atraído logo nos primeiros segundos da canção e vai sendo envolvido ainda mais durante a sua iluminada execução. Claramente, a canção tem inspiração dos anos oitenta, mas busca não ser nostálgica para conseguir ser moderna de uma maneira natural e respeitosa. Todavia, a grande qualidade da canção é seu trabalho instrumental cativante e gracioso, em que dá para perceber a inclusão de influências de indie pop, alt pop e pop rock na construção da deliciosa batida synth-pop”. Na tocante e triste Die Happy, a cantora constrói com delicadeza a história de um amor fadado ao desastre, mas que ela não pode deixar de viver, em uma emocionante balada indie pop/alt pop com toques de rock alternativo que deixa a gente perceber toda a doçura do timbre da cantora e um apuro técnico muito bem trabalhado. Um pouco mais animadinha está a deliciosa White Noise, em que a gente percebe que a artista é capaz de ser bem mais versátil do que o esperado, mesmo sem mudar o caminho alt-pop, ao qual são adicionadas algumas novas camadas bem interessantes. E, por fim, o álbum é encerrado com a lindamente devastadora Beauty Pageant, em que a cantora explora os seus medos pessoais sobre a vida e a carreira de maneira a quebrar qualquer coração.
Ao final, Cruel World é um trabalho bem acima da média que ajuda Holly Humberstone a entrar no hall de grandes promessas para um futuro bem próximo.


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