17 de setembro de 2026

Antes Tarde do Que Nunca

Debut
Björk





Considerada uma verdadeira lenda da música, que continua a inspirar e a moldar gerações de artistas, Björk tem uma das discografias mais geniais da história da música. E é uma das artistas que eu sempre quis mergulhar em sua história musical para entender melhor toda a sua grandiosidade e genialidade. Já comecei a fazer isso há alguns anos com a resenha do seu genial segundo álbum, Post (1995). Agora, preciso voltar alguns anos para analisar onde tudo começou com o lançamento de Debut.

Na verdade, o álbum não foi exatamente o debut da artista. Antes do seu grande estouro internacional, Björk já tinha trabalhos lançados solo e como parte de bandas. Só com a banda The Sugarcubes, como vocalista, são três álbuns lançados entre 1988 e 1992, além de um álbum com o projeto Björk Guðmundsdóttir & tríó Guðmundar Ingólfssonar, de 1990. Além disso, a cantora ainda criança, em 1977, lançou o que, digamos, seria seu verdadeiro debut, que levou seu próprio nome. O álbum não é considerado oficialmente parte de sua discografia. Então, quando, em 1993, a artista lançou Debut, o mundo não estava diante de alguém em começo de carreira e, sim, do início de uma nova fase, em que ela começava finalmente a se encontrar em toda sua glória, possibilidades e, principalmente, em sua verdadeira voz artística.

Como primeiro contato de boa parte do público da época com Björk, Debut é o começo da construção da sonoridade da artista, mas, na verdade, representa uma mudança considerável em relação ao que ela fazia com The Sugarcubes, ao sair do rock/alternativo/indie para uma mistura de eletrônico/art pop/dance. Essa mudança foi decisiva para o começo de sua carreira solo e, também, para a construção da imagem que viria a ser refinada nos próximos álbuns. Então, quando a gente escuta Debut, dá para perceber que o que ouvimos é um embrião do que seria aquilo que hoje conhecemos como a sonoridade de Björk. Todavia, não espere algo “menor”, pois a artista já começa com os dois pés no acelerador em um álbum excêntrico, divertido, excitante e atemporal.

Falar sobre um álbum da artista como sendo excêntrico é meio que chover no molhado, mesmo para um trabalho de mais de trinta anos. Entretanto, fico imaginando o que as pessoas que não tinham conhecimento da cena alternativa acharam quando a cantora lançou seu álbum e ganhou destaque no mainstream pop. Com um honroso top 3 nas paradas britânicas, o trabalho teve bons desempenhos ao redor do mundo, ajudando Björk a ser apresentada ao público da época. Além disso, o álbum rendeu uma indicação ao Grammy e duas vitórias no Brit Awards, como Best Newcomer e Best International Female. O curioso é perceber que, fora da Europa, mais precisamente nos Estados Unidos, a recepção da crítica foi bem mediana, mas, felizmente, ao longo do tempo, foi sendo reavaliada positivamente. Acredito que o motivo para esse estranhamento inicial é que Debut não pede licença nem faz concessões ao apresentar a visão de Björk e do produtor Nellee Hooper sem amarras e com um olhar à frente do seu tempo.

E aqui temos um dos pontos mais importantes para a construção de Debut: a produção de Nellee e da própria Björk. Inspirada pelo trabalho de Kate Bush, a artista até queria que o álbum tivesse vários produtores, mas, depois de ser apresentada pelo então namorado ao produtor, decidiu trabalhar apenas com ele. A partir disso, a criação do disco foi um processo de pegar todas as influências da cantora, como, por exemplo, sua recente paixão por jazz e sua visão do que era feito na cena eletrônica, misturar tudo em um grande caldeirão regado a um tempero completamente único e resultar em um álbum tão distinto quanto a voz da artista. Preciso apontar que, como dito anteriormente, aqui temos uma “baby Björk” e, então, é fácil notar uma construção sonora mais “tradicional”, sendo que isso é para os padrões já bem diferentes da artista. E tudo já começa com a melhor canção do álbum: Human Behaviour.

Primeiro single do álbum e, também, a canção escolhida como abre-alas, a faixa é quase como uma ponte entre quem era a artista antes do trabalho solo, sua então nova persona e, também, uma anunciação do que ela iria fazer dali para frente. Além disso, é disparada a melhor de Debut e o trabalho que ajudou a introduzir a cantora para boa parte do público na época. Sonoramente, pode ser definida primordialmente como art pop, mas sua construção é bem mais complexa ao introduzir elementos de house, tribal, experimental e trip hop. Excêntrica, hipnotizante, atemporal, cativante, estranha e impressionante são adjetivos que classificam perfeitamente Human Behaviour, mas que também não fazem exatamente jus à qualidade da música, especialmente à sua criatividade e excepcional construção instrumental, que vai se desenrolando de maneira a manter intacta a concepção inicial, na mesma medida em que novas camadas e elementos texturais são introduzidos à base sonora. E tudo isso é apenas uma das “introduções” que a faixa faz, pois ela também é um portal para a gente entender toda a artista que se revelava na época.

Não é novidade para ninguém que estamos diante de uma artista totalmente fora da curva em todos os elementos e, claro, que isso iria refletir em sua escrita. Em Debut, mesmo ainda não estando em sua força total, as composições deixam bem claro o quanto singular, mágica e inteligente é a lírica de Björk, mesmo que a gente nem sempre entenda muito bem o que ela quer dizer. Escrevendo sozinha cinco das faixas de Debut, sendo cinco com o produtor Nellee e uma delas uma regravação, a artista marca a ferro e fogo sua estética, que parte de uma simplicidade gramatical, usando frases relativamente de fácil compreensão e construções diretas e limpas, mas que guardam profundas, complexas, filosóficas e metafóricas crônicas sobre diversos e plurais aspectos da experiência humana. Em Human Behaviour, a cantora se “baseia” no naturalista David Attenborough para falar sobre o comportamento humano, partindo do ponto de vista de um animal, e abre a canção dessa maneira: “If you ever get close to a human/And human Behaviour/Be ready, be ready to get confused”. Entretanto, a faixa que melhor incorpora plenamente os traços mais puros da escrita da artista é a espetacular Venus as a Boy.

Lançada como segundo single, a canção é um trabalho que acredito que apenas Björk teria a capacidade de criar, ainda mais na época do lançamento. Uma “balada” art pop/downtempo/ambient com toques de música eletrônica, indiana e clássica, a faixa faz uma comparação entre um homem sensível e de traços diferentes da masculinidade padrão e a deusa Vênus (Afrodite), responsável pelo amor e pelo desejo. E, claramente, a canção é sobre a maneira como esse homem trata sua parceira de forma diferente durante o ato sexual. O verso inicial é o que dá toda a atmosfera da canção:

His wicked sense of humour
Suggests exciting sex
His fingers, they focus on her
And touches
He's Venus as a boy

Seja sincero: qual outro artista estava fazendo algo do tipo, especialmente no começo dos anos noventa? Apenas Madonna, mas de uma maneira diferente e sem esse toque poético que vemos claramente nas letras de Björk. E toda essa construção é ainda elevada pela presença completamente única da artista, quase sobrenatural.

A primeira “coisa” que chega na gente quando ouvimos uma canção da artista é sua voz. E não é apenas o seu inegável e fortíssimo sotaque, mas também a maneira como ela entoa as músicas. Existe uma sensação quase etérea que se mistura com esquisitice, toques de excentricidade e uma dose de loucura com algo transcendental na forma como a cantora encara cada faixa, fazendo tudo terminar em algo tão distinto e especial que fica claro que não existe ninguém igual a Björk. Em alguns momentos, parece que os vocais da cantora nem se “encaixam” na música, mas isso é apenas outra camada de significação para a persona dentro e fora da música da artista.

Por exemplo, Big Time Sensuality é, possivelmente, a canção mais “normal” do álbum sonoramente falando, ao ser uma divertida, grandiosa e dançante dance-pop/deep house com pinceladas de jazz e funk, em que a cantora fala sobre seu amor pelos amigos e o ato de fazer amizades, mesmo usando o termo sensualidade, que poderia indicar algo sexual. Nada mais típico da artista. Todavia, é a maneira como ela entoa a faixa que dá toda a força emocional ao momento, introduzindo com força descomunal sua personalidade completamente fora dos padrões, ainda mais com seus momentos de “gibberish”, em que “canta” palavras incompreensíveis em sons inarticulados apenas para adicionar camadas vocais ainda mais “a cara da Björk”.

Debut também é recheado de outros grandes momentos que precisam ser citados, como a dançante alt-pop/dance-pop com infusão de jazz e deep house Crying, sobre se sentir sozinha após sua mudança para Londres para gravar o álbum; a inspirada regravação de Like Someone in Love, de 1944, em que a cantora se despe da grande produção para deixar sua voz como o grande destaque dessa versão; a atmosférica e épica One Day; e, por fim, a interessante e sóbria electro house Violently Happy, lançada como último single do álbum.

Além de introduzir Björk pela música, Debut também apresentou o visual da artista, especialmente devido aos seus lendários, geniais e à frente do seu tempo videoclipes.

Com Debut, a cantora foi oficialmente apresentada ao mundo para que, dois anos depois, o público pudesse conhecer toda a glória da artista no genial Post, que já tem resenha aqui no blog. Então, a próxima análise será do terceiro álbum da cantora, que resulta na consagração máxima da artista em dois álbuns definitivos dos anos noventa, nascido de uma das experiências mais traumáticas vividas por um artista moderno.


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