MARINA
A definição de prazer culposo é “alguma coisa (como um filme, um programa de televisão, uma peça de música ou uma atividade) que é desfrutada apesar de se entender que geralmente não é muito apreciada ou é vista como incomum ou estranha”. E acredito que essa seja a melhor definição para a minha reação ao ouvir o divertidíssimo Princess of Power da Marina.
Sexto álbum da carreira da cantora, o trabalho não vai ser o mais amado da sua carreira pelo público, mas também vai criar um grupo que realmente vai adorar essa era “controversa”. E, como já apontado, estou nesse segundo espaço. Preciso dizer, porém, que, como um prazer culposo, entendo perfeitamente o motivo de o álbum ter suas críticas. E o motivo disso é principalmente que a produção navega perigosamente nas águas do pieguismo, rodeada por grandes icebergs de brega e com ventos fortes do clichê. Essa mistura tão forte é a causa para que muitos não se deixem levar por Princess of Power, pois, claramente, gera um álbum com todos esses adjetivos, e muitos vão considerá-lo literalmente piegas, brega e clichê. Entretanto, minha visão positiva vem exatamente desse lugar.
Sim, Princess of Power é tudo isso, mas, ao meu ver, é realizado de certa maneira deliberada, conseguindo criar um trabalho tão consciente da sua própria essência que resulta em algo campy, divertido, cativante e verdadeiramente um prazer culposo delicioso. O álbum vai deliberadamente buscando referências e influências de gêneros e sonoridades que invocam essa atmosfera ao incrementar a base do synth-pop já estabelecido da cantora, incluindo elementos de farofadas do EDM, europop, techno, eletropop, entre outros. O que faz o álbum ter esse verniz de prazer culposo não é apenas a adição desses gêneros, mas, sim, a maneira como é feito pela produção comandada por CJ Baran e, por quase todas as canções, pela Marina, que é buscar o lado mais literal e clichê desses gêneros, mas envernizá-los como trabalhos que sejam “originais”, embora não tenham um pingo de originalidade pura. Entretanto, existe uma sinceridade nas criações do álbum que deixa quem consegue entender a sua essência realmente fascinado. E a grande peça que ajuda a compreender toda a persona sonora da Marina aqui é o primeiro e “polêmico” single: Butterfly.
“A canção é visivelmente um trabalho que vai dividir o público, pois não é exatamente algo de fácil assimilação. E isso é completamente compreensível, pois a canção é um alt pop/synth-pop que transita bem entre o piegas e o pretensioso, com sua construção sonora com toques datados e quase irritantes. E isso é especialmente ouvido no refrão, em que a voz da cantora é distorcida para uma versão infantil. Todavia, Butterfly é deliberadamente todas essas coisas, pois, ao que parece, a sua razão de existir parece ser um exercício da própria noção da sonoridade que o público tem da Marina”. Acredito que, se você gostou da canção, vai realmente gostar do álbum como um todo, pois todas as características do álbum estão dispostas na canção sem tirar nem pôr. Outro momento que mostra muito bem o que esperar do trabalho é a deliciosa Cuntissimo, ao ser “uma brega, divertida, exagerada, estilosa e carismática crônica sobre empoderamento feminino que consegue ter um forte fator de prazer culposo que a transforma em um trabalho irresistível, amando-a ou odiando-a. E a principal razão é sua composição, que consegue cair em lugares comuns ao mesmo tempo que soa datada e também tem momentos geniais, como, por exemplo, nos versos do refrão: “(Cuntissimo) Salma Hayek in the sun / (Cuntissimo) Louise and Thelma on the run””. E, apesar de funcionar aqui, a lírica de Princess of Power é o que impede o trabalho de ser ainda melhor.
Apesar de vários bons momentos, as letras de algumas canções pendem mais para o lado negativo da qualidade campy, pois não apresentam o mesmo carisma peculiar de uma canção como Cuntissimo e deixam mais à vista o lado negativo de seguir esse caminho. Não são, porém, trabalhos que causam um dano suficiente para prejudicar significativamente o álbum. Quando tudo funciona bem, o álbum entrega a graciosamente brega I <3 You, que tem no seu segundo verso o ápice de toda a breguice majestosa do trabalho, ao ser uma mistura de verso de uma drag queen em um desafio musical de RuPaul’s Drag Race com a Kristen Wiig nesse sketch do Saturday Night Live. Existe, porém, um fator em Princess of Power que é inegável: os vocais impressionantes da Marina.
Não apenas deixando claro todo o seu potencial e a beleza do seu timbre angelical, a cantora realiza performances realmente deslumbrantes. E a maior delas é em Metallic Stallion, ao ser uma balada épica e sombria sobre o medo de compromisso de quem se ama ao compará-lo com uma espécie de cavalo selvagem. Apesar da estranheza criativa da canção, ela funciona de fato devido à presença magnífica da cantora, que dá vida sincera e elegante à composição. Outros bons momentos que precisam ser citados são o toque operático e “francês” de Je ne sais quoi e Cupid’s Girl, ao ser “uma elétrica e carismática synth-pop com toques de dark pop e alt pop que capta perfeitamente a atmosfera do começo da carreira da artista com perfeição, sem soar como nostalgia barata ou uma pastiche rasa”. Princess of Power não é exatamente o álbum que poderia ser, mas Marina entrega um trabalho que tem mais personalidade que muitos trabalhos mais aclamados por aí. E esse prazer culposo que emana deve ser responsável por fazê-lo ser redescoberto ao longo dos anos como uma verdadeira gema sonora.


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