8 de março de 2026

Primeira Impressão

Kiss All The Time. Disco, Occasionally.
Harry Styles



Desde que Harry Styles lançou a sua carreira solo, tenho acompanhado a trajetória do britânico bem de perto e tenho sempre a consciência do tamanho do astro que ele se tornou. E isso é algo que não se pode tirar do artista, especialmente porque boa parte disso vem merecidamente do seu talento. Todavia, ao chegar ao seu quarto álbum, Kiss All The Time. Disco, Occasionally., Harry quer claramente mostrar evolução artística, mas, infelizmente, empaca exatamente no que ainda é o seu maior problema: substância.

E, novamente, preciso apontar, assim como fiz na resenha de Harry's House, a frase de que “o que falta para Harry Styles alcançar outro nível é se deixar levar pela sua própria coragem ao mergulhar sem medo nas ideias vistas em Fine Line”. E é assim que basicamente se comporta o seu novo álbum: ótimas ideias, execução pouco inspirada.

E olha que aqui existe uma clara e pungente tentativa de evoluir e explorar a sonoridade do artista no instante em que a produção, capitaneada principalmente por Kid Harpoon, com algumas faixas em parceria com Tyler Johnson, caminha por trilhas que buscam inspiração em uma sonoridade alternativa/experimental de eletrônica, alt-pop, dance-pop, indie pop e synth-pop. Todavia, a produção demonstra saber exatamente qual é o destino escolhido e, especialmente, de onde buscar as referências, mas não sabe bem como chegar lá e o que é necessário, de fato, para essa viagem.

Aqui é que entra o grande problema da falta de substância. Esteticamente, a produção de Kiss All The Time. Disco, Occasionally. entende bem como construir instrumentais e atmosferas que passam todo o conceito desejado, mas, quando a gente olha um pouquinho a mais, pode perceber que existe quase nada preenchendo o interior das faixas, deixando lacunas criativas expostas e que pesam no resultado final.

Não que não exista nada que dê corpo às canções, pois o álbum é, sim, preenchido com um material criativo até compreensível. Entretanto, esse material é oco, bobinho e nada inspirado. É uma coleção de lugares-comuns de quem acha que está sendo cult e refinado, quando, na verdade, é no máximo uma fileira de inofensivos pretensiosismos com toques de criatividade limitada.

Uma ótima comparação é alguém escrevendo um texto em que a pessoa tem, além de uma ótima ideia, uma introdução auspiciosa, mas não sabe como sustentar teoricamente seus pontos de vista, resultando em um texto que mais enche linguiça com frases bonitas e palavras rebuscadas do que com reflexões profundas e inteligentes. Isso é basicamente toda a sensação de ouvir o álbum que, assim como um ótimo primeiro parágrafo, começa de maneira muito auspiciosa com Aperture:

A melhor parte do single é que a gente vê nitidamente a evolução sonora do cantor e, principalmente, a sua vontade de buscar novos caminhos. Aperture é uma gratificante, madura e corajosa incursão de Harry no eletrônico ao entregar uma densa, mas palatável, mistura de progressive house com alt-pop, synth-pop e deep house. Bem construída e com personalidade, Aperture dá profundidade à imagem do artista por ser um experimento sincero e com personalidade. Falta, porém, picância para conseguir elevar o material, já que o resultado flerta com o genérico aqui e ali, mesmo conseguindo sair desses buracos com facilidade devido ao trabalho elogiável de instrumentalização.”

Apesar dessa lacuna criativa na construção sonora, o maior problema substancial que se estende por toda a carreira de Harry é a sua construção lírica. Apesar de amadurecido, o cantor, que assina todas as faixas do álbum, não demonstra realmente evolução ao compor letras que exploram de maneira rasa, piegas e com pitadas de vergonha alheia todas as temáticas que ele decide explorar aqui.

Não são exatamente trabalhos ruins, pois têm bons momentos estéticos em vários pontos. Contudo, as composições não têm aquele gancho emocional que precisariam ter para serem realmente trabalhos interessantes. Nem estou falando de sentimentalismo, mas, sim, da emoção que faz a gente se conectar com uma faixa, seja qual for o sentimento expresso.

Por exemplo, Pop é um dos destaques do álbum devido à sua elétrica batida synth-pop com pinceladas de EDM, post-disco e synthwave, mas tem uma letra que deveria ser o grande momento do álbum, pois possivelmente alude a uma experiência sexual de Harry que pode ser com alguém do mesmo sexo. Todavia, a canção tem uma composição que mais parece preencher campos criativos do que servir como uma crônica sobre uma possível exploração da sexualidade do cantor. E mesmo que não fosse algo realmente profundo, mas buscando algo sexy ou polêmico, a composição em Pop também não entrega algo realmente nesse nível de refinamento devido a escolhas questionáveis ou sem graça, mesmo tendo bons momentos como, por exemplo, o refrão. Tenho que admitir que, na primeira escutada, não “peguei” esse possível tema da canção, sendo “alertado” em um post no Twitter. E isso mostra um pouco da desconexão da lírica em Kiss All The Time. Disco, Occasionally.

Felizmente, o que se mantém bem durante todo o álbum e que, sim, é o elemento mais evoluído e coeso do trabalho é a presença vocal de Harry, que aqui claramente injeta sua personalidade em caminhos diferentes, mostrando grande versatilidade ao transitar muito bem entre as mudanças sonoras apresentadas e conseguindo entregar performances sólidas em todos os momentos. Gosto especialmente da performance solar e melódica de American Girls, ajudando essa deliciosa faixa de alt-pop/dance-pop a se tornar um dos melhores momentos do álbum. Outras faixas que merecem ser citadas são a batida envolvente de Taste Back e os toques funk de Dance No More.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally. poderia ser o grande momento da carreira de Harry Styles, mas termina sendo outro tijolo meio defeituoso, mas sólido, na construção da jornada do artista. Quem sabe na próxima?



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