3 de maio de 2026

Primeira Impressão

THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE.
RAYE



Talento verdadeiro sempre vai encontrar o seu caminho, mesmo que para isso precise de uma longa, longa, longa jornada. E isso é algo que não poderia descrever melhor a trajetória da Raye. Depois de ser subaproveitada pela sua antiga gravadora, a artista precisou se tornar independente para não apenas se livrar das amarras que prendiam o seu total potencial como, também, encontrar o caminho para o sucesso. E tudo isso feito de uma maneira absolutamente própria e indiscutivelmente única. Depois de se provar no espetacular My 21st Century Blues, Raye vem para selar o seu destino com o genial e épico THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE.

O segundo álbum da britânica segue a mesma ideia por trás do seu debut ao ser uma coletânea de canções que exploram profundamente todas as emoções e sentimentos da cantora, sendo expostos de uma maneira devastadoramente sincera e, ao mesmo tempo, com um senso estético genial. Existe, porém, uma diferença entre os dois trabalhos que os fazem se separar criativamente: o novo projeto é um álbum conceitual. Todavia, ao contrário de trabalhos recentes da Beyoncé e Rosalía, Raye coloca em primeiro lugar não a sonoridade e, sim, a lírica e a temática como principal fio condutor do álbum. E esse fio condutor é sobre o ciclo de se machucar emocionalmente, sofrer profundamente, começar a se curar e, finalmente, encontrar a felicidade, paralelizando com as estações do ano. Começa pela morte e ressecamento dos sentimentos no outono, passa pela tristeza e frieza do inverno, chega ao renascimento da primavera para finalizar com o calor e a felicidade do verão. Começo, meio e fim. Nascimento, morte e renascimento. Levantar, cair e se levantar de novo. Com isso em mente, Raye nos leva para uma das jornadas mais impressionantes e emocionais que uma artista entregou em muitos anos.

Assim como My 21st Century BluesTHIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE é “sobre traumas, dores e o processo de cura que a cantora passou na vida íntima e profissional nos últimos anos”. Entretanto, como apontado aqui, podemos ver uma construção muito bem delimitada sobre a maneira como a Raye vai abordar esses temas em forma de ciclo, em que cada nova coleção de crônicas vai explorar temas e sentimentos diferentes, mas todos sob uma mesma estrutura. Isso é feito de maneira tão acertada e assertiva que não apenas dá uma força impressionante para o álbum como também o ajuda a se tornar uma épica narrativa que, mesmo não contando uma história única, é fácil perceber as ligações temáticas e emocionais entre todas as canções. Entretanto, o grande trunfo da lírica da Raye é a própria capacidade da cantora de escrever composições com uma estética impecável, única e genial que se mistura com o devastador, profundo e acachapante poder emocional.

Se no álbum anterior já tínhamos uma noção perfeita sobre esse talento da artista, o novo álbum vem para reafirmar essa capacidade e adicionar novas camadas de significação em todas as áreas possíveis. Cada faixa é dona de uma letra que é praticamente um universo próprio dentro da grande configuração do álbum ao ter a capacidade de contar uma história que contribui para a narrativa principal do álbum. E, apesar de parecer “fácil”, já que isso é seguido por outros álbuns, o que é feito aqui é algo completamente desconcertante devido à qualidade de cada uma das faixas, unindo-se com uma força emocional descomunal. E mesmo que a Raye tenha tido alguns parceiros para compor, a sua marca é sentida a ferro e fogo quando a gente nota perfeitamente a mesma personalidade impregnando todas as faixas.

Raye é honesta de maneira a deixar quem ouve meio desconcertado, mas tem um refinamento estético elegante. Raye tem esse apuro estético único devido à maneira complexa e intrigante com que constrói cada canção, saindo bem longe dos lugares comuns de estrutura de uma canção, mas, felizmente, nunca tenta ser difícil liricamente ou com uma pretensão de ser mais do que é realmente. Não há ninguém como a Raye atualmente e isso se deve, especialmente, à sua persona compositora. E nada melhor para mostrar todo esse talento quanto na devastadora e genial I Know You're Hurting.

Funcionando como uma canção que se canta para alguém ou para si mesma, a faixa é uma épica power balada pop/soul sobre entender que a gente precisa se cuidar, se amar e se proteger, especialmente aquelas pessoas que se preocupam mais com as outras pessoas do que consigo mesmas. Colocada ao final do ciclo do “inverno”, a canção claramente é a representação do começo da cura das dores e feridas, já que precisamos primeiro entender a nossa fragilidade e nos deixar vulneráveis para o processo que está por vir. É um tema que facilmente poderia ser piegas e clichê apenas pelo simples fato de ser, mas, em I Know You're Hurting, a canção consegue ter esses elementos elevados pela emoção genuína, uma verdade cortante, uma sinceridade tocante e um apuro lírico impressionante em uma canção que consegue atingir em cheio aquele canto em que muitos esqueceram que estava adormecido:

Oh, I, I know you're hurting,
I know That deep down there something's burning,
I know If you need two more arms to hold these burdens, I am here (Ah-ah-ah)
I said a prayer for you,
I hope it's working Please, my dear, don't stop believing in miracles, oh-oh-oh-oh


E assim que a música termina, o álbum nos faz continuar nessa jornada, que aqui se caracteriza pelo começo da cura, ao apresentar a emocional, mas esperançosa Life Boat.

Liricamente, a canção é de longe a mais simples do álbum, pois toda gira em torno da frase “I'm not givin' up yet”, com algumas adições líricas aqui e ali. Todavia, o grande foco e o que faz a canção funcionar é, além da continuidade temática iniciada por I Know You're Hurting, a introdução de uma coleção de vozes entoando a frase central da canção, que são parentes da Raye. Essa decisão dá para a canção uma atmosfera esperançosa e iluminada que marca o fim de um ciclo e o começo de uma nova fase pela qual o álbum vai transitando. Todavia, o outro ponto é a produção que dá às duas canções, fazendo com que sejam totalmente diferentes, mas com uma ligação clara entre suas construções sonoras. De um lado, como já apontado, a grandiosidade da balada pop/soul de I Know You're Hurting e, do outro lado, o pop eletrônico/house/tech de Life Boat, criando o clímax perfeito e surpreendente para esse momento do álbum. É aqui que começamos a falar e a entender outro ponto fundamental para o resultado mágico de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE: a produção.

Para acompanhar toda a imensa pretensão do que a lírica do álbum quer entregar, era preciso uma sonoridade que fosse capaz de sustentar tudo perfeitamente. E isso é exatamente o que acontece aqui, especialmente devido à maneira como toda a atmosfera do álbum é construída, ao ir totalmente para algo que transita lindamente entre o cinematográfico, o orquestral, o épico e o climático. É um caminho perigoso de se seguir se quem está por trás não está à altura de entregar algo realmente à altura. Felizmente, Raye, que capitaneia todas as faixas ao lado de alguns nomes, não só consegue amarrar todas as pontas de uma forma tão espetacular e impressionante que não apenas “dá conta do recado”, mas também eleva todo o material.

O grande trunfo aqui é o trabalho instrumental simplesmente genial que, como dito antes, é todo baseado em trazer uma construção genuína, encorpada, madura e impressionante para cada arranjo. Toda a faixa é fruto de um trabalho artesanal sonoro que pega o gênero selecionado e vai tecendo sempre uma construção complexa, intricada e magistral para transformar cada faixa em um evento que consegue se unir ao resto do álbum ao mesmo tempo que se torna um universo próprio. E o maior ápice do álbum aparece na genial Click Clack Symphony:

Uma obra que expande os limites da sonoridade da cantora, mas que conversa plenamente com a construção da discografia recente da artista. Completamente imprevisível e sempre com surpresas impecáveis, o single encontra um lugar perfeito e único entre o artístico e o comercial, apresentando momentos de pura engenhosidade criativa, ao mesmo tempo que entrega momentos que facilmente seriam ideais para virarem virais. E isso mostra o quanto a produção entende todos esses elementos de uma maneira única e genial. Quando a gente ouve o resultado final da canção, consegue entender perfeitamente o que passa na mente da Raye, que tem como parceiros de produção Mike Sabath, responsável por Escapism, e o maestro/compositor/condutor/produtor Hans Zimmer, considerado um dos maiores nomes de trilhas sonoras do cinema e que tem no currículo trabalhos como O Rei Leão e Duna, ambos vencedores do Oscar, e só para citar dois exemplos”.

Em questão dos “materiais” usados para a construção, contam com um leque de gêneros que são basicamente uma mistura de pop soul, alt pop, R&B, neo soul, jazz, blues, orquestral, rap, hip hop, spoken word e vários outros que vão sendo transmutados, reorganizados, envernizados e reconstruídos de uma forma que não apenas acompanha a intenção do álbum como, também, continua a solidificar a persona da Raye. Cada canção vai se desenrolando de maneira que começa de uma forma, tem uma quebra total de expectativa para depois se tornar outra coisa e, por vezes, voltar ao começo. Nem sempre é esse esquema e há algumas canções que são completamente lineares. Todavia, essa expectativa que vai se criando pode não ser exatamente algo que todos vão apreciar, mas, sinceramente, isso faz de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE uma obra tão original, impressionante e deslumbrante. E, para acompanhar tudo isso, não seria possível ter uma intérprete que não estivesse à altura de todo o material. E, queridos leitores, Raye não apenas está à altura, como comprova total e absolutamente o gigantesco talento vocal, performático e interpretativo da artista.

Antes, preciso apontar algumas críticas que a cantora recebeu e que vi em alguns lugares, que é o fato de haver algumas faixas em que a Raye utiliza a estratégia de “falar”, ou seja, fazer uma mistura de rap, declamação e poesia. E, sinceramente, na minha visão, esse é um dos fatores mais brilhantes das performances da cantora, pois Raye sabe introduzir esses momentos de uma maneira que casa perfeitamente com todo o resto da canção. Na verdade, alguns momentos dessa escolha vocal são o que fazem o resultado ser tão impressionante no instante em que a gente percebe que, possivelmente, apenas a cantora teria a capacidade e a coragem de seguir esse caminho. Todavia, o que é a genialidade das performances ouvidas é o conjunto da obra, pois a presença da artista é algo impressionante, sublime e magistral.

Dona de uma voz potente, mas de um timbre reconfortante e aveludado, Raye é capaz de elevar a outro nível uma canção dançante e descontraída, assim como injetar emoção genuína e descomunal quando precisa sustentar o peso de uma grande balada dramática, mas também conseguindo transitar entre os diversos estilos, sempre adicionando a sua imensa carga de personalidade absurda e atemporal. Falar que um álbum funcionaria apenas com a presença da artista por trás nunca foi tão verdadeiro como em THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE, pois, sem a Raye, nada iria se encaixar de maneira tão brilhante como acontece aqui, e isso se deve, em parte, às suas performances. E um dos momentos mais inspirados é na linda e emocional Nightingale Lane, em que simplesmente entrega a melhor performance da sua carreira. Não é apenas uma performance grandiosa, mas, sim, definidora de carreira. Existe um toque da aspereza de Janis Joplin, misturado com a melancolia de Amy Winehouse, com nuances do poder vocal de Mariah Carey e inspiração nas grandes divas do jazz. Tudo isso, porém, está nas entrelinhas, pois Nightingale Lane é uma canção que escancara todo o talento de Raye em sua forma mais pura.

Em um álbum em que cada faixa é um momento realmente digno de ser escutado várias e várias vezes, é complicado citar muitos momentos de destaque, mas é preciso dar os louros especiais ao que é merecido. Entre os outros destaques do álbum estão a densa e sentimental abre-alas em I Will Overcome, a construção melancólica da batida contida e intrigante de Winter Woman, a acidez e honestidade de The WhatsApp Shakespeare, a doce, triste e vintage Goodbye Henry, com a participação da lenda Al Green, e, por fim, WHERE IS MY HUSBAND!, que é “uma magnífica, explosiva, refinadíssima, graciosa, dançante e mágica mistura de pop soul, R&B, big band, jazz e neo-soul que resulta em uma das canções mais refinadas e brilhantes” dos últimos tempos.

THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE é um trabalho que realmente desperta esperança, especialmente aquela de perceber que talentos raríssimos como o da Raye sempre vão encontrar as fendas para, finalmente, verem a luz do dia e serem contemplados e elogiados pelo público.


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