JADE
Na história da música existem alguns casos de grandes artistas que fizeram história depois de se lançarem em carreira solo após integrarem um girl group ou uma boy band. Diana Ross, Beyoncé, Justin Timberlake e Harry Styles são apenas alguns dos principais nomes que, apesar do sucesso em grupo, se tornaram ainda maiores sozinhos. Não posso afirmar qual será exatamente o futuro da Jade, mas a ex-Little Mix entrega em THAT'S SHOWBIZ BABY! um dos melhores primeiros álbuns de um artista em carreira solo depois de sair do seu grupo.
Preciso dizer que, apesar de ser um trabalho realmente bem acima da média, o primeiro álbum da Jade não é perfeito nem figura exatamente entre os melhores do ano. O que o torna tão especial, porém, é a tonelada e meia de coragem que a artista colocou por trás da criação para entregar um projeto com uma visão totalmente única, distinta, ousada e que quebra qualquer expectativa que se pudesse ter sobre o que ela iria apresentar, conseguindo também surpreender em cada passo dessa era inicial da sua carreira solo. Isso precisa ser elogiado ao máximo, pois deixa claro que a Jade não tem intenção de transformar sua trajetória em algo saído de uma cartilha pronta e batida, mas, sim, seguir o caminho dos maiores nomes: trilhar uma estrada que seja apenas sua. Todavia, nada disso funcionaria sem um elemento central — o imenso talento da Jade.
Essa coragem poderia ter resultado em um desastre de proporções épicas, caso não tivesse a base sólida da sua capacidade e visão artística. Apesar de não ter crédito como produtora, a cantora impõe sua vontade criativa ao escolher trabalhar com nomes que trouxeram à vida toda a sua peculiar visão sobre a carreira e, principalmente, a sonoridade que queria expressar. A mistura de Mike Sabath, Lostboy, Cirkut, MNEK, Raye, entre outros, forma um time criativo que se funde de maneira uniforme, brilhante, multicolorida e de um poder artístico ímpar.
Ainda assim, o resultado final ficou um pouco aquém do que poderia ter sido. É como um problema de sintonia fina: sabe quando tentamos sintonizar uma estação de rádio e não chegamos exatamente na frequência correta, ouvindo sempre um leve chiado ao fundo? É exatamente isso que sinto com THAT'S SHOWBIZ BABY!: está muito próximo da sintonia perfeita, mas ainda com um ruído que impede a imersão completa. O exemplo claro disso, na minha visão, é o single Angel Of My Dreams.
Peça central do álbum e a faixa que apresentou ao mundo o que Jade poderia entregar, a canção não é exatamente a minha preferida. Com o tempo, passei a respeitar mais a produção e a compreendê-la melhor — especialmente após ouvir outras faixas da cantora e entender o destino pretendido. Todavia, acredito que minha reação inicial continua válida:
“É extremamente interessante que ela tenha decidido se arriscar tanto nesse primeiro momento da carreira, mostrando a vontade de realmente criar algo distinto do que fez no Little Mix. Entretanto, Angel Of My Dreams não se sustenta tão bem após a surpresa inicial. A canção é uma reluzente mistura de dance-pop, electro house, progressive pop e synth-pop, unida em uma produção cheia de quebras criativas, mas que, infelizmente, parecem vazias ao final de uma análise mais cuidadosa.”
Consigo entender perfeitamente todo o clamor sobre a música, mas, assim como o álbum, o single deixa transparecer que a ideia por trás é maior que sua execução, mesmo encontrando vazão criativa na produção. É como planejar escalar o Everest, mas sem o equipamento necessário, parando a duzentos metros do cume. Muito perto, mas ainda não é o destino final. Obviamente, isso é um problema, pois impede o álbum de alcançar seu ápice. Todavia, o patamar que THAT'S SHOWBIZ BABY! atinge já é triunfal, e poucas de suas contemporâneas teriam a coragem e ousadia de chegar tão perto.
Sonoramente, o álbum pode ser definido de forma simples e direta: pop. E isso é realmente poderoso, pois nada mais justo do que afirmar que aqui temos o puro suco do pop em sua melhor qualidade. A complexidade da construção é impressionante, e o resultado é vigoroso ao longo das quatorze faixas. Indo do electropop ao synthpop, passando pelo nu-disco, EDM, e até incorporando elementos de R&B e dance-pop, THAT'S SHOWBIZ BABY! é um dos caldeirões mais efervescentes, elétricos e interessantes do ano. Nem sempre funciona perfeitamente, mas o simples fato de ousar já impressiona. E quando tudo se encaixa sem ressalvas, vemos a glória do álbum — melhor representada pela sensacional Fantasy.
“Equilibrando perfeitamente todas as suas facetas, Fantasy é uma contagiante mistura de nu-disco, funk, dance-pop e french house que une com graça o experimental e o tradicional, resultando em uma canção de energia caótica e, ao mesmo tempo, coesa e fluida. Imagine algo no meio do caminho entre That! Feels Good! da Jessie Ware e Brat da Charli XCX — sem copiar nenhuma das duas, mas encontrando seu glorioso lugar ao sol.”
Liricamente, o álbum se divide em duas vertentes: canções sobre amor/sexo e críticas à indústria fonográfica. Com um trabalho lírico refinado e de personalidade ímpar, os momentos mais ácidos são os melhores, pois injetam força extra que acompanha a ousadia da produção. Em IT girl, “uma excelente, travessa, original e ácida fusão de electropop, EDM, dance-pop e ballroom”, Jade mostra “sua língua afiada com uma crítica direta, honesta e esteticamente perfeita à indústria musical, consolidando-se como uma das artistas pop mais instigantes da atualidade”. Felizmente, as faixas mais pessoais também se destacam, como a linda Plastic Box, sobre a dor de ser trocada por outra pessoa, marcada por uma performance angelical e deslumbrante da cantora — prova cabal do seu potencial.
Desde o Little Mix, sempre destaquei o poder e a distinção vocal das integrantes, e o talento de Jade brilha intensamente aqui. Sua presença versátil e dominadora percorre o álbum inteiro, sustentando até mesmo os tropeços. É incrível como, no mesmo projeto, ela entrega a leveza irônica de FUFN (Fuck You For Now), “uma divertida dance-pop/synth-pop/electro house com estrutura grandiosa e instrumental encorpado”, a performance estilizada de Midnight Cowboy, “uma batida pesada, classuda e marcante que mistura EDM, electropop, UK bass e R&B com toques noventistas”, e também a graça e refrescância da ótima Headache. Outras faixas que merecem menção são a estilizada Unconditional, o som vintage de Self Saboteur, a dramaticidade inesperada de Natural at Disaster e a sensualidade raivosa de Glitch.
THAT'S SHOWBIZ BABY! tem tudo para se tornar um álbum cult com o tempo, especialmente quando pudermos revisitar sua ousadia em retrospectiva e ver Jade explorar ainda mais seu potencial. Mesmo imperfeito, é um começo brilhante — a base ideal para uma carreira que promete ser memorável.


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