15 de fevereiro de 2026

Primeira Impressão

Wuthering Heights
Charli xcx




Depois da era Brat, ver a Charli XCX lançar como projeto de sucesso a trilha sonora inspirada no filme O Morro dos Ventos Uivantes é algo gratificante e muito bem-vindo, pois mostra que a artista não se acomodou em um lugar e deseja buscar novas fontes de inspiração e, por consequência, novos caminhos. E olha que Wuthering Heights nem acerta totalmente, mas, ainda assim, termina como um convidativo trabalho imperfeito.

Existem duas grandes qualidades do projeto que se destacam ao final. A primeira é o fato de que a produção consegue unir o synth-pop/hyperpop já consolidado da artista com uma faceta mais clássica — classic pop/instrumental — que vem da inspiração cinematográfica de ser uma trilha sonora. E isso é feito de maneira bastante fluida, límpida e natural, ajudando a deixar de lado possíveis ruídos e poluições que atrapalhariam essa fusão. Existe uma maturidade estética na produção — comandada principalmente por Finn Keane — que consegue lapidar essa massa sonora de forma a valorizar todas as qualidades das vertentes usadas, de maneira criativa, sincera e acertada, criando uma sonoridade com força genuína, personalidade única e construção azeitada.

É preciso dizer, porém, que a produção consegue esse trunfo, mas não necessariamente eleva a sonoridade para um novo patamar, deixando Wuthering Heights como uma coleção inspirada de faixas que quase nunca exploram seu verdadeiro potencial. É como se a produção estivesse em uma maratona que, apesar de ter potencial para chegar em primeiro, prefere desacelerar e chegar em quarto lugar. É uma boa posição, mas seria muito melhor se tivesse vencido.

Dito isso, o álbum encontra todo o seu potencial logo de cara com a espetacular House:

Totalmente diferente de tudo o que a cantora já fez, a canção tem como ponto de brilhantismo a genial participação de John Cale, da lendária banda The Velvet Underground. Dono de uma voz forte, marcante e profunda, o artista narra, em forma de poema, um longo verso que se relaciona com a obra literária sem inserir trechos do livro. E é revigorante a ideia e a execução, pois criam toda uma atmosfera densa e sombria que vai crescendo até chegar a um clímax poderoso, no qual Charli aparece apenas para ajudar na quebra de expectativa sonora. Essa quebra vem do fato de que, por boa parte de House, enquanto temos a presença de Cale, a canção se comporta como uma épica e climática dark ambient com elementos neoclássicos, para terminar com influências de industrial e toques de synthpop. É uma produção ousada e majestosa que não teria razão para ser um sucesso comercial, mas que me deixa extremamente feliz por existir.”

O segundo ponto de destaque do álbum é a capacidade da produção de entender melhor o espírito da obra original e de sua nova adaptação do que a própria diretora/roteirista do filme. O álbum consegue adaptar as duas fontes de inspiração exatamente como Emerald Fennell parecia querer fazer no filme: manter a força emocional do livro, mas apresentá-la a um novo público dentro da sua visão. Não é algo espetacular, mas a lírica do álbum consegue capturar bem o espírito da relação dos protagonistas de uma maneira mais clara e verdadeira. Em Always Everywhere, a composição traz a melhor definição da relação tóxica dos protagonistas ao afirmar: “I can't escape the storm you gave me / Constant lightning in my veins / Every echo calls your name”.

Wuthering Heights, o álbum, ainda tem outros destaques, como o single Chains of Love, descrito como “uma refinada, madura, romântica e bem construída power balada synth-pop/alt-pop que consegue mostrar um pouco da aura pop e estilizada que essa nova adaptação do livro de Emily Brontë parece querer seguir”; a faixa mais “Brat” do álbum, Dying for You; e, por fim, a interessante parceria com Sky Ferreira na dramática Eyes of the World.

Wuthering Heights é um projeto que não está à altura do que a Charli XCX é capaz, mas mostra muito bem o que ela pode fazer ao sair da sua zona de conforto.


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