12 de julho de 2026

Primeira Impressão

CONFESSIONS II
Madonna




Ao terminar a resenha de Hard Candy, último álbum da Madonna resenhado no Antes Tarde do Que Nunca, escrevi que “a próxima resenha de um material inédito — o aguardado Confessions on a Dance Floor Part 2 — sirva para registrar a volta triunfal da maior de todas ao seu ápice”. Apesar de ter esperanças, especialmente depois dos lançamentos dos singles, preciso admitir que tinha um pé atrás sobre o que realmente seria o resultado do décimo quinto álbum da carreira da artista devido, principalmente, aos resultados de quatro álbuns lançados no período de 2008 até 2019, em que o melhor pode ser creditado apenas como “divertido”. Todavia, eu claramente estava esquecendo de um detalhe: nunca duvide da Madonna.

CONFESSIONS II não é apenas um bom álbum da Madonna, mas, sim, um dos melhores trabalhos da sua carreira, em que a cantora não apenas faz o seu retorno triunfal ao topo da sua capacidade artística, mas também revitaliza o pop basicamente com a mesma intensidade que fez algumas vezes na sua carreira. E um dos grandes motivos para isso foi a decisão de trabalhar novamente com o Stuart Price como principal colaborador nas composições e, principalmente, na produção. E não porque apenas o mesmo foi o principal nome responsável por Confessions on a Dance Floor, mas devido ao fato de que, depois de quase vinte anos, a Madonna volta a trabalhar com alguém que consegue entender perfeitamente toda a grandiosidade e complexidade artística da mesma, de uma forma que consegue traduzir, de fato, do campo das ideias para o campo do concreto. Não que a cantora não tenha trabalhado com nomes que tinham essa capacidade nos últimos vinte anos, mas Price é claramente o que encontrou a melhor e mais apurada "fórmula" para dar a liga com a Madonna e, finalmente, elevar o material para um nível que esteja no mesmo lugar que todo o lendário e genial potencial da artista. E isso é ouvido em todos os momentos em CONFESSIONS II, mesmo aqueles menos “inspirados”, mostrando perfeitamente o total sincronismo entre as mentes criativas.

Uma das maiores qualidades da produção é fazer do álbum não apenas uma simples continuação do que a gente já ouviu, mas, sim, uma exploração, celebração e experimentação sonora do “dance” sob os olhos da Madonna, pois o “gênero” é claramente um dos que a artista mais influenciou na sua carreira. Para isso, a produção busca inspiração nas tendências modernas, assim como busca diretamente da própria história da cantora, já que CONFESSIONS II tem elementos bem nítidos de outras eras da cantora que vão além do álbum de 2005. Dá para notar elementos sonoros de Ray of Light, Erotica, Bedtime Stories, entre outros mais específicos, como, por exemplo, Into the Groove, que vão sendo adicionados ao longo do álbum, criando ilhas de sentidos que dão ainda mais substância para o trabalho da produção. Dessa maneira, Madonna e Price não querem apenas celebrar a importância da música dance e todas as suas variações, mas também o álbum é para celebrar a cantora como essa patrona indiscutível do pop que espalha seus tentáculos de legado até hoje para todas as gerações que vieram e ainda vão surgir. Todavia, isso não seria possível se o álbum não fosse rigorosamente um trabalho à altura dessa ideia. E, para a alegria geral, CONFESSIONS II é esse álbum com louvor.

O trabalho técnico aqui é realmente impressionante ao conseguir erguer dezesseis faixas em mais de uma hora de duração, de maneira que todas as canções tenham instrumentações de um nível altíssimo, sendo emolduradas com uma força criativa inspirada. Dessa maneira, o álbum se torna uma épica, excitante, poderosa, elétrica, magistral e profunda viagem por gêneros diversos dentro do escopo do dance, passando pelo bom e velho pop e eletropop, passando pelo synth-pop e dance-pop, tendo paradas no EDM e disco e chegando até o house e vários dos seus subgêneros. E tudo isso é construído de uma maneira tão revigorante e refrescante que a gente realmente pode achar que estamos diante do debut de uma jovem artista com um produtor novato em ascensão. Todavia, o estofo criativo que ouvimos em CONFESSIONS II dá logo a entender que quem está por trás do álbum são artistas com anos de estrada que usam tudo o que sabem para extrair o mais puro e cristalino sumo do dance. Só que o álbum não é apenas um deleite sonoro.

Ao ligar uma faixa com a outra em transições que vão de divertidas até as perfeições, assim como no primeiro Confessions, a produção dá para o álbum um fio narrativo que claramente vem da intenção do mesmo ser essa a grande narrativa sonora e lírica em que Madonna vai contando e refletindo sobre a sua vida em letras pessoais que mostram um pouco mais do atual momento da vida da artista. Entretanto, o que de mais genial é feito aqui é que o álbum também tem composições sobre a importância da música dance e seu mundo para a Madonna e, também, sobre a importância da cantora para a história da música. E isso é fascinante, pois isso poderia facilmente cair no lugar de total e gigantesca pretensão se, primeiro, não fosse verdade e, segundo, não fossem trabalhos tão bons criativamente. E o grande momento dessa “categoria” é com a genial Danceteria.

Melhor canção do álbum e já entrando facilmente no panteão da cantora, a faixa é uma espetacular dance-pop/diva house/french house/disco com uma das batidas mais contagiantes e viciantes do álbum, que faz a gente lembrar perfeitamente de todo o potencial pop da Madonna. Todavia, o grande momento de genialidade é a sua composição, em que a Madonna faz uma homenagem misturada como registro histórico da sua presença lá no começo dos anos oitenta, bem no início da sua carreira, na boate de mesmo nome, em que a mesma construiu parte da sua bagagem de vida pessoal e profissional. A letra é uma descrição de como seria uma “noitada” na boate e as pessoas que a mesma encontraria lá, indo de amigos pessoais da cantora, como Martin Burgoyne, Debi Mazar e Mark Kamins, até grandes nomes da arte que frequentavam o local, como a banda B-52s, o pintor Basquiat e os músicos Nile Rodgers e David Byrne. E tudo isso é coroado com um dos melhores refrões pop da última década que, para mim, é uma homenagem à sonoridade da cantora nos anos oitenta, especialmente na melodia de “Everybody get up and dance”. Além disso, a canção é também uma das melhores performances da cantora em todo CONFESSIONS II. E é agora que entramos no único ponto dúbio do álbum.

No alto dos seus 67 anos, é meio que compreensível que a voz da Madonna mudou com os anos, mesmo nunca tendo sido dona de uma voz exatamente poderosa no sentido de alcance. Todavia, várias decisões de produção vocal e da própria cantora nos últimos trabalhos deixaram a voz da cantora, no mínimo, estranha e overproduced em vários momentos, que eram um dos pontos baixos das suas canções. Apesar de ter alguns momentos aqui e ali em que alguns erros acontecem, a presença vocal da cantora em CONFESSIONS II é a melhor em muitos anos, sem nenhuma dúvida, pois a mesma encontrou um equilíbrio ideal e saídas que ajudam perfeitamente a compensar certas perdas devido ao tempo. E a melhor e mais apurada delas é o uso do falar em várias faixas, que é usado de uma forma a se integrar de maneira fluida com as canções, sabendo dosar bem com as partes cantadas. Claramente, um dos melhores momentos é na impactante e inesquecível abertura na genial I Feel So Free, pois “a canção é o melhor trabalho da cantora em anos, pois, além de deixar a sua voz o mais natural possível na parte cantada, os momentos em que ela declama os versos casam lindamente com a atmosfera da canção e são a base perfeita para o estouro sonoro do refrão e o ótimo clímax final”.

Só que a faixa não é apenas um destaque por isso, já que a mesma “traz uma fusão refinadíssima de deep house com progressive house e dance-pop, criando uma sonoridade esteticamente familiar, mas que vai se desenrolando em um trabalho energético, atmosférico, poderoso e impressionante. A produção consegue dar a gravidade e grandiosidade que uma música da Madonna precisa ter para carregar toda a sua força, lembrando de criar uma vibe que é puramente pop”. Como abre-alas, I Feel So Free abre o caminho para um dos inícios mais sensacionais da carreira da Madonna, em que logo em seguida engata a etérea Good For The Soul para continuar com a magistral crônica sobre a importância da música dance na vida das pessoas na magnética, envolvente e reflexiva One Step Away. Então, o álbum dá uma guinada sonora para a presença de Bring Your Love, com a Sabrina Carpenter, que funciona até melhor dentro do álbum ao ser “uma cativante, dançante, divertidíssima, deliciosa, gratificante e bem pensada mistura de dance-pop com house”. Então, esse começo finaliza com a presença da já citada Danceteria.

Outros momentos importantes que precisam ser citados ficam por conta da ode à música eletrônica na elegante Love Without Words, da grandiosa crônica sobre um dos seus relacionamentos mais tumultuosos em Bizarre, com coprodução de Martin Garrix, e, por fim, da emocionante Fragile sobre o seu irmão Christopher Ciccone.

CONFESSIONS II não apenas recoloca a Madonna totalmente no caminho certo artisticamente, mas também faz com que a gente perceba que não existe ninguém à sua altura, já que existe apenas uma Rainha do Pop.


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