31 de agosto de 2020

Natalie is The New Jolene

Natalie Don't
RAYE

De tempos em tempos aparece uma canção que surge meio que do nada e se torna uma verdadeira surpresa gratificante. Recentemente, o mais novo caso é Natalie Don't da britânica RAYE.

Sumida aqui do blog tem um bom tempo, RAYE parece que agora está solidificando a sua carreira e preparando para lançar o seu primeiro álbum. Como possível primeiro single foi lançada essa pequena joia chamada Natalie Don't que consegue unir em apenas uma canção a tendência do momento e uma homenagem ao passado que é completamente diferente da sua estética. Explicando: Natalie Don't é uma dance-pop/disco com toques de R&B que remete diretamente a lendária Jolene, canção country da atemporal Dolly Parton. Essa mistura estranha funciona melhor que o esperado em uma faixa deliciosamente envolvente. A produção não aposta em algo explosivo, mas acerta da batida quase mid-tempo envolvida em uma dramaticidade bem orquestrada. Vintage na medida certa, Natalie Don't é dona de letra sensacional ao contar a história de uma mulher que pede a outra para não "tirar" o seu homem dela. Não é apenas o mesmo tema de Jolene modernizada, mas a letra faz uma referência direta a canção de Dolly. Inesperadamente inspirada, a canção é até o momentos uma das melhores canções de 2020 que você não deve conhecer.
nota: 8

Pequenos Erros, Grande Acertos

Holiday
Little Mix

Enquanto muitos comemoravam o aniversário de formação do One Direction, a outra força pop saída do The X Factor UK estava lançando o seu mais novo single. Provando que continuam fortes como uma das principais girl band do mundo, o Little Mix lançou a legal Holiday.

Holiday é uma canção que claramente poderia ser bem melhor, mas o resultado final ouvido é realmente inspirado. Misturando algumas referências dos anos oitenta em uma cruza de Debbie Gibson com The Pointed Sisters que quase não funciona, o single consegue ter uma personalidade diferente e, ao mesmo tempo, condizente com o atual cenário pop. Leve e despretensiosa, a produção poderia dar um clímax bem mais poderoso para a canção. Além disso, a canção também poderia ter usado um sample da sua homônima Holiday da Madonna para dar aquele toque final na construção da instrumentalização que seria a cereja em cima do bolo. Felizmente, a canção consegue se sustentar em pé sozinha devido, principalmente, do refrão cativante e as performances sólidas de todas as integrantes da girl band. Erros a parte, Holiday é uma canção que se encaixa bem na narrativa de 2020.
nota: 7,5

25 de agosto de 2020

A Hipocrisia

WAP (feat. Megan Thee Stallion)
Cardi B

O ano é de 2020 e ainda existem pessoas que se sentem ofendidas e/ou horrorizadas quando mulheres decidem falar sobre sexo com a mesma linguagem que homens sempre falaram. O lançamento de WAP, parceria da Cardi B com a Megan Thee Stallion, é a prova da imensa hipocrisia que a nossa sociedade ainda vive, colocando dois pesos e duas medidas para homens e mulheres. Enquanto rappers homens sempre falaram de forma explicita, vulgar e, por muitas vezes, machistas e não tinham tantos odiadores, duas mulheres que resolvem fazer o mesmo ao "reclamar o seu ponto de vista", o mundo parece que irá cair do firmamento. E, por isso, WAP ganha uma importância ímpar que não teria em outros contextos. O mais interessante, porém, é que a canção é melhor do que poderia ser esperado.

WAP, sigla para Wet-Ass Pussy, é sobre as duas rappers buscarem por prazer sexual. Simples, direto e, por várias vezes, explicito. E isso não é nenhum problema, pois a composição é super divertida em sua metáforas e muito bem construída. Com uma divisão ótima entre as duas rappers de espaço, a canção não funcionaria se não tivesse duas artistas tão carismáticas como Cardi B e Megan, entregando duas performances bem diferentes com a primeira em uma cadencia mais devagar e a segunda com uma força acelerada e com uma química ótima. O mais importante é que as duas exalam poder que ajuda imensamente a canção não ser apenas mais sobre sexo e, sim, uma ode ao prazer feminino. Sonoramente, a canção é bem melhor que eu poderia ter prevido, apesar de alguns tropeços aqui e ali. A produção acerta ao "poptizar" a batida trap para dar um toque comercial mais amplo, mas esquece de dar mais substância para a batida. O uso do sample de Whores in This House é bem vinda e dá personalidade para WAP, mas poderia ter sido restrito em alguns momentos chaves. Além disso, a transição seca entre os versos das duas rappers deixa um gosto meio estranho. Felizmente, WAP é o tipo de canção que não veio para agradar a gregos e troianos, mas veio para marcar uma discussão importante sobre o quanto hipócrita ainda é o tratamento da mulher em nossa sociedade.
nota: 7,5

A Maturidade Pop

Something More
Róisín Murphy

As novas divas pop são ótimas, né? Mas vocês já deram uma chance de verdade para aquelas artistas já bem estabelecidas? Em especial para aquelas fora do mainstream? Se não, você está perdendo verdadeiras pérolas como o novo single irlandesa Róisín Murphy, a sensacional Something More.

Something More é uma post-disco/eletrônica que parece flutuar em campo de papoulas enquanto nos envolve em uma névoa de riqueza, beleza, melancolia e uma elegante nostalgia. Construção de imagem estranha, mas perfeita para traduzir o que senti ao ouvir essa gloriosa canção que faz parte do próximo álbum da vocalista do duo Moloko. Ouvir Something More é como estar de volta aos Studio 54 em pleno 2020 vestido de dourado e cercado pela nata da sociedade underground. Claramente, a batida cadenciada não é nada comercial impossibilitando o sucesso comercial da canção, mas a madura composição sobre ter todas as coisas do mundo e, mesmo assim, sentir que existem coisas mais importantes para se conquistar na vida é um trabalho reluzente. O refrão poderia ser, porém, mais pungente na sua construção, deixando para a parte final o seu grande momento. Um fato curioso é que ao contrário de outras canções, a versão estendida de mais de sete minutos funciona melhor que a versão normal com apenas quatro minutos, pois parece preencher algumas lacunas sonoras ao encorpar a construção instrumental, especialmente o seu avassalador começo. De qualquer forma, Róisín Murphy e a sua maturidade entrega uma canção pop para mostrar que as novas divas pop precisam comer muito arroz com feijão para chegar aos seus pés.
nota: 8,5

Há Coisas Boas Em Ser Mediano

What's Love Got to Do with It
Kygo & Tina Turner

Depois da surpreendente versão remix de Higher Love com a voz da Whitney Houston, o DJ Kygo aposta em uma versão remix do clássico What's Love Got to Do with It. Dessa vez, porém, o resultado não passa de apenas mediano, mas, felizmente, existe uma ótima notícia: a volta aos holofotes da lendária Tina Turner.

Ao contrário do remix com a voz de Whitney de uma canção que originalmente foi lançada como bônus de um álbum nos anos oitenta e que quase ninguém conhecia, What's Love Got to Do with It é uma das canções mais conhecidas da mesma década, faturando os Grammys de Canção e Gravação do Ano. Além disso, a canção é uma das assinaturas da lendária carreira da Tina Turner ao fazer dela um dos maiores nomes da música mundial. Por isso, qualquer mudança no original aqui será sentida de forma profunda e significativa. E isso acontece nesse remix que não vai além de um mediano tropical house que qualquer DJ/produtor poderia entregar. Existe, porém, dois lados bons do remix What's Love Got to Do with It: o primeiro, Kygo não alterou a melodia icônica da canção e, também, não adicionou muitos efeitos vocais na voz de Tina, deixando quase como na versão original e, o segundo, o remix é a chance da Tina Turner voltar aos holofotes para uma nova geração ter a oportunidade de conhecer a lenda. E isso já é algo para celebrar.
notas
Remix: 6
Original: 10

23 de agosto de 2020

A Falta de Respeito

Levitating (The Blessed Madonna Remix) (feat. Madonna and Missy Elliott)
Dua Lipa

Dua Lipa resolveu lançar um álbum de remixes de Future Nostalgia com a participação de grandes nomes do pop. Intitulado Club Future Nostalgia, o álbum conta como primeiro single o remix de Levitating com o featuring da Madonna e da Missy Elliott. Após o lançamento do single notei a grande falta de respeito em torno da canção.

Com uma recepção predominantemente negativa por fãs, Levitating (The Blessed Madonna Remix) parece que está condenada a ser a bomba do ano para muitas pessoas. Felizmente, aqueles que realmente entenderam a ideia pro trás do remix conduzido pela DJ The Blessed Madonna (sim, esse é o nome artístico de Marea Stamper) baseado no trabalho de Koz e StuarPrince podem notar a clara referência a um sub-gênero que teve o seu ápice durante os anos noventa e começo dos dois mil: os remixes de canções que eram vendidos em CDs singles de grandes nomes do pop. Mariah Carey, Jennifer Lopez, Beyoncé, Whitney Houston e, claro, a própria Madonna tem dezenas de canções nessa mesma categoria que transitavam sonoramente entre o club house e o eletrônico. E é nesse nicho que fica a nova versão Levitating, mas muitos "fãs" parecem não ter essa referência clássica do pop e acusaram a canção de "destruir" a versão original. Além disso, parece que esses mesmos críticos parecem não saber qual a definição de o que é um remix.

Ao contrário de vários exemplos recentes, Levitating (The Blessed Madonna Remix) não se limita apenas a colocar um novo verso para incluir uma participação especial. O trabalho aqui é mais profundo e modificador ao alterar a estrutura da versão original, passando de uma electropop/disco com toques de R&B e eletrônico para uma direta electro/club house com boas pinceladas de future bass. A mudança é drástica, mas para aqueles que realmente entendem o conceito é um verdadeiro presente nostálgico de uma era de pop que ainda está vivo na memória de muitos. Poderia ser melhor? Sim. O remix parece não explorar todas as possibilidades que esse sub-gênero apresenta, apesar que a parte final flerta com ideias bem interessantes. Mesmo assim, o remix é um trabalho sólido, divertido e muito bem segurado pela presença das três artistas. Dua perde espaço, mas continua carismática. Madonna está presente na sua melhor canção em anos. E a Missy Elliott mostra para o que veio de forma primorosa. Para aqueles que não gostaram da canção aconselho procurar saber sobre a influência em Levitating (The Blessed Madonna Remix) para depois julgar realmente se achou bom ou ruim. 
notas
Versão Original: 7,5
Versão Remix: 7,5

Casualidade da Pandemia

Hallucinate
Dua Lipa

Apesar de ser um dos maiores sucessos do ano e, surpreendente, um dos álbuns mais aclamados do pop em anos, o Future Nostalgia poderia ser ainda maior se a pandemia não tivesse impedido a Dua Lipa de promover devidamente o álbum ao redor do mundo. E a maior prova disso é o lançamento do single Hallucinate que poderia ter um clipe de verdade e não apenas um em desenho animado, promoção digna e um desempenho nas parada bem melhor. Apesar disso, a canção é outro acerto em um álbum de grandes acertos.

Mesmo não sendo a melhor das faixas ou mesmo a minha preferida, Hallucinate é uma rica e cheia de personalidade dance-pop com toques de disco, house music e psychedelic que parece fazer uma ponte entre a sonoridade dos anos noventa com a dos anos oitenta de forma natural. Viciante, dançante, divertida e com uma batida feita para fazer um verdeiro show de coreografia nas baladas da vida. Dominando a canção com propriedade, Dua Lipa tem a capacidade de elevar uma canção que nas mãos de outras poderia ser mais do mesmo. O único defeito de Hallucinate é o seu ok refrão que poderia claramente ser bem melhor. Uma pena que a pandemia minou boa parte da força que a Dua Lipa poderia alcançar esse ano. E seria algo para entrar para os livros.
nota: 7,5