8 de novembro de 2018

Primeira Impressão

Honey
Robyn


Atualmente, qualquer cantora que consegue atingir certo nível de popularidade já passa a ser chamada de diva por uma legião de fãs que a seguem quase cegamente. Na minha opinião, porém, uma cantora passa ser uma verdadeira diva quando consegue alcançar um lugar que apenas a mesma habita. Normalmente, esse lugar foi conquistado/construído pela mesma ao longo dos anos de carreira. Madonna fez isso ao dominar o pop durante décadas, transgredindo as normas impostas pela indústria da música e sociedade. Cher fez isso ao ser transitando entre várias mídias com a mesma força, tornando-se uma verdadeira camaleoa a cada nova aparição. Kylie Minogue fez isso ao se tornar uma verdadeira força pop mundial sem precisar do mercado estadunidense. E, apesar de não ter alcançado o mesmo patamar comercial das citadas e outras, a Robyn alcançou o seu lugar de direito entre as maiores divas de todos os tempos ao construir a sua carreira pelas suas próprias regras em que o principal objetivo é apenas elevar o pop ao sublime. Honey, o seu oitavo álbum, não é a sua magnus opus, mas é uma deslumbrante e preciosa coleção do que melhor a cantora consegue elaborar.

Longe dos holofotes desde o lançamento do projeto Body Talk, apesar de ter lançados projetos paralelos em forma de EPs colaborativos, Robyn volta a ativa para continuar a provar que o pop é um gênero que pode ir muito além das expectativas e das normas que estão postas para o grande mainstream. É necessário dizer que caso você esteja esperando algo que se assimilhe com os trabalhos anteriores, especialmente a atmosfera genial de Dancing On My Own, não se assuste em descobrir que o novo álbum está bem longe de espectro sonoro, apesar de a cantora ter como base noções que a mesma já apresentou. A principal delas é aquela que já disse várias vezes aqui no: Robyn faz canções para "chorar enquanto bate o cabelo na boate". E isso significa o quê? Resumidamente é o fato de que a cantora consegue ir profundo na construção da sua sonoridade, adicionando um fator sentimental desconcertante na sua humanidade. 

Normalmente, uma canção pop não é necessariamente um momento em que a faz gente parar seriamente para pensar sobre a sua mensagem, mesmo que existam várias canções que tenham letras com essa característica. Quando uma canção desse tipo apresenta esse detalhe é necessário a gente parar um pouco e pensar sobre a mensagem e, então, dar o sentindo pretendido pelo artista. Com a Robyn, a situação muda completamente, pois as suas canções demandam que o público tenha essa percepção logo de cara, criando um novo patamar para um trabalho como Honey. E, queridos leitores, a cantora não poupa esforços nesse sentido no álbum. Recheado de letras sobre corações partidos, solidão, amores conturbados, desejos ardentes, sentimento de culpa e uma deliciosa sensação de leveza em se apaixonar, Honey é envolto em uma delicada, mas pungente, atmosfera que transita entre a excitação para a melancolia para a luxúria para alegria a e, finalmente, para a tristeza e a contemplação que consegue retirar emoções verdadeiras de quem escuta o álbum. E o melhor que as composições não precisam de complicadas e complexas letras, pois o cerne central dos trabalhos da Robyn é alcançar todo o que já foi dito utilizando a simplicidade em construções liricas que privilegiam a delicadeza e a elegância Nunca, porém, as letras chegam perto do simplista. Longe disso na verdade, pois os trabalhos são de uma inteligência única como é caso da sentimental Because It's In The Music, uma das melhores do álbum, sobre a dor de um pós-relacionamento em que é preciso refletir sobre o que foi bom e, claro, o foi ruim. Se aqui a cantora continua quase com as mesmas características, sonoramente é outra história.

Como já citado anteriormente, Robyn é dona de uma sonoridade tão única e distinta que foi edificada ao longo dos anos que se diferencia da maior parte dos outros artistas do mesmo gênero devido a atmosfera ("chorar enquanto bate o cabelo na boate") e um cuidado artesanal na sua estética e substância. Dessa vez, porém, a cantora não nos presenteia com uma coleção de canções pop que transitam no território entre o indie/underground/alternativo electropop e o pop/dancepop/electropop comercial e contemporâneo, mas que pendia mais para a segunda linha de sonoridade. Honey é um trabalho caminha bem mais afundo no território desse lado mais artístico ao ser um climático trabalho de electropop/eletrônico, mas que tem uma pegada bem menos pungente e popular (no sentido de vendável). Traduzindo: menos comercial como Call Your Girlfriend, mais alternativo como em Missing U. Se fosse para definir ainda mais a sonoridade de Honey é necessário lembra o quiet storm, subgênero do R&B em que a batida é calma, romântica e, por muitas vezes, contemplativa, pois Honey é o que posso descrever como um electropop quiet storm. E é nesse quesito que encontramos o único problema do álbum.

Não é exatamente um problema e, sim, uma pedra no caminho do álbum, mas o que de fato acontece é que a rica, estilizada, cheia de nuances, envolvente e com uma impressionante produção técnica parece faltar aquela explosão sonora que sempre esteve presente nos álbuns da cantora. Quando falo em explosão é o fato de álbum não ter aquela(s) faixa(s) de genialidade pura em todos os sentidos. Apesar da imensa qualidade, as canções estão todas em um mesmo nível, principalmente na sonoridade devido o estilo mais contido que foi escolhido para o trabalho. Essa característica é um solavanco no resultado final, mas, felizmente, não é suficiente para deixar Honey nem perto de ser apenas bom, pois o trabalho é excelente. Além da canção já citada como sendo uma das melhores, os outros dois momentos que merecem ser colocados como destaques é o delicioso e sensual single que dá nome ao álbum Honey e a post-disco/eletrônica Between The Lines. Ainda é possível destacar as ótimas Send To Robin Immediately e a sua delicada/melancólica atmosfera e a batida quase experimental de Beach2k20. Mesmo não sendo a melhor obra da Robyn, Honey é incontestavelmente uma obra da Robyn e, só por isso, já é algo sensacional e de uma personalidade incomparável.

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