By Storm
O primeiro grande álbum do duo vem de uma fonte que não é exatamente surpresa para quem acompanhou os singles que antecederam o lançamento do projeto: o By Storm. O que surpreende de verdade é notar que My Ghosts Go Ghost é bem mais profundo e emocional do que o esperado, criando uma obra completamente única.
Formado pelo produtor Parker Corey ao lado do rapper RiTchie, o duo surgiu após a morte, em 2020, do rapper Stepa J. Groggs, pois juntos formavam o trio Injury Reserve. Depois de terminarem o segundo e último álbum como trio, os dois integrantes se reagruparam para iniciar o atual projeto, By Storm. Como primeiro trabalho nessa formação, o duo entrega um projeto que não é exatamente para todos os públicos, mas que precisa ser descoberto por qualquer um que consiga compreender a grandiosidade sonora presente em sua construção.
E o grande fator de quebra de expectativa de My Ghosts Go Ghost é perceber o quão complexo e emocional é o resultado final, pois, tematicamente, trata-se de um exercício sobre a dor do luto e sobre as perguntas que ficam quando perdemos alguém que amamos. E isso é realmente devastador devido à maneira tão crua e real com que são escritas as excepcionais composições do álbum. Não são faixas de fácil assimilação, mas, quando conseguimos “quebrar” as fibras mais densas, a força emocional misturada à força poética nos atinge com intensidade.
Um dos momentos mais poderosos está na canção que encerra o álbum, a deslumbrante “GGG”, uma crônica acachapante sobre o peso da memória e as questões com as quais aqueles que ficam sempre se torturam, como a dúvida sobre a existência de uma vida após a morte. É um trabalho difícil de escutar, mas há uma verdade quase catártica em sua execução, que fica mais clara quando percebemos que, ao fechar o álbum, parece também se encerrar um ciclo para o duo.
My Ghosts Go Ghost é, sonoramente, um álbum de produção intrigante, complexa e experimental, ao fundir hip hop com sonoridades experimentais/abstratas, glitch pop, ambient, folk, eletrônico e psicodelia. É o tipo de projeto que exala a sensação de “ser feito por gente grande para gente grande”, devido à sua inteligência e apuração sonora. Nem sempre, porém, a produção acerta precisamente no alvo, pois existem alguns momentos aqui e ali que soam menos imponentes do que outros. Todavia, os acertos acabam ofuscando os tropeços, como é o caso do grande destaque do álbum, a sensacional “Zig Zag”:
“Um longo, intrigante, impressionante e descomunal exercício sonoro ao misturar experimentalismo, hip hop, glitch, psicodelia, ambient e hip hop abstrato, que vai nos puxando para um vórtice envolvente. Não é uma canção que conquista de imediato, mas é com o passar do tempo que sua atmosfera densa e contemplativa se revela. E isso é ainda mais impressionante, pois ‘Zig Zag’ soa contida devido à sua melodia linear, mas esconde uma profundidade imensa que nos deixa pasmos ao notar cada detalhe.”
Outro ponto importante é a presença magistral das performances de RiTchie, pois é por meio de sua imensa versatilidade e total originalidade que o álbum é arrematado estética e, principalmente, emocionalmente, fugindo bastante do padrão médio de um rapper atual. Gosto especialmente de sua performance no abre-alas “Can I Have You For Myself?”, que é sentimental, honesta, estilizada, cheia de nuances e nunca previsível. Outro momento que merece destaque é a densa e sombria “In My Town”.
Com My Ghosts Go Ghost, o By Storm já estabelece um patamar alto logo em seu início. É um trabalho que consolida essa nova fase da dupla com identidade própria e ambição artística evidente, indicando que o projeto tem bases sólidas para evoluir ainda mais a partir daqui.


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