18 de janeiro de 2026

Os Melhores Singles de 2025 - Parte Final

 



Parte I
Parte II
Parte III


10. Shandy in the Graveyard (feat. billy woods)
Panchiko


"Sonoramente, a canção é uma melódica e tocante indie rock com um instrumental maduro e muito bem conduzido. Nada inusitado aqui, mas Shandy in the Graveyard dá uma guinada grandiosa com a presença genial do rapper billy woods que entrega um verso inspiradíssimo, mirando em uma mistura rica de poesia com flow tradicional. Com essa entrada, a canção tem uma quebra de expectativa ao ser adicionada de toques de trip hop e experimental sem, porém, tirar o caminho original da canção."

9.I Like It I Like It
Moses Sumney & Hayley Williams


"A crescente rítmica, que vai sendo tecida do começo contido e suingado até terminar em um apoteótico e orgástico clímax final, é simplesmente genial. I Like It I Like It, como dito antes, tem essa qualidade de unir os dois cantores de maneira primorosa à estética sonora, mas o toque final é dado pelas performances impecáveis e inesquecíveis de Moses e Hayley. Ele parece emoldurar o espírito de Prince em sua extenuante sensualidade, com seu timbre excitante e quase orgástico, enquanto a presença dela é mais terrosa e orgânica, mas não menos envolvente, criando a contraposição perfeita. A união dos dois possui uma química palpável de tão sinuosa, honesta e elétrica."

8. Abracadabra
Lady Gaga


"É impressionante ouvir a capacidade da GaGa ao lado dos produtores Cirkut e Watt ao conseguir emoldurar todas as qualidades da era The Fame Monster, mas ainda mostrar originalidade e frescor incríveis. Abracadabra é uma eletrizante electropop, dark pop e electro house com uma batida hipnótica, grandiosa e impressionante que consegue ser dançante ao extremo e ter uma atmosfera tão épica. E essas é uma das qualidades da GaGa que estava faltando já tem um bom tempo, mas que é inundada em Abracadabra. E outra qualidade que faz a canção ser tão especial é a capacidade de entregar uma composição com tino pop refinadíssimo com uma mensagem com substância genuína, tendo um dos clichês e pontes mais grudentas da sua carreira. Finalizando a canção, GaGa nos contempla com uma performance tão poderosa e refinada que apenas a mesma poderia ser capaz de entregar, especialmente devido ao seu impressionante alcance."

7. Saoirse
Maruja


"Com “apenas” um pouco mais de cinco minutos, a canção soa de forma mais reflexiva do que os trabalhos anteriores da banda, mostrando sua capacidade de explorar novos caminhos para a própria sonoridade. Apesar dessa mudança, “Saoirse” é claramente uma canção do Maruja, devido à impressionante e meticulosa criação instrumental, que novamente transforma o art rock/jazz rock em algo transcendente, magistral e atemporal. A crescente construção climática da canção é impecável, culminando em um desfecho deslumbrante."

6. 2004 (feat. The Gang & Buddy)
YG


"A música aborda um tema delicado: o abuso sexual que YG sofreu na adolescência. Não é um assunto fácil ou comum no rap, especialmente porque, no caso dele, o abuso foi cometido por uma mulher — algo que ainda é cercado por tabus, machismo e preconceito. YG expõe esse relato com uma honestidade desconcertante, em uma crônica emocionalmente devastadora. Ele descreve como enfrentou a situação na época, a reação de seus amigos e, principalmente, os impactos desse trauma em sua vida adulta. A composição é tão sincera e eloquente que transmite a dor de maneira visceral. O tema, por si só, já seria suficiente para tornar 2004 uma obra marcante, mas a música vai além. A produção mistura west coast hip hop e R&B, evocando o som clássico do início dos anos 2000. Esse contraste entre a melodia envolvente e a intensidade da letra cria um efeito poderoso. A performance de YG é crua e quase apática, como se ele estivesse emocionalmente anestesiado, narrando a história de forma desolada."

5. Sympathy Magic
Florence + the Machine


"Refletindo sobre experiências de quase morte, Florence Welch entrega uma letra que desconcerta pela simplicidade e pela forma direta com que expõe sentimentos que muitas vezes não temos coragem de admitir. Sympathy Magic funciona como uma crônica sobre repensar a vida e buscar novas maneiras de enxergá-la, adotando um olhar realista que nem sempre encontra acolhimento. Por isso, a canção também se torna um “feitiço” lançado por Florence em busca de conexões verdadeiras. É a capacidade criativa dos envolvidos que permite que uma temática tão complexa seja abordada sem pretensão ou excesso, amparada por um apelo estético absolutamente preciso."

4. WHERE IS MY HUSBAND!
RAYE



"A canção é um trabalho que, atualmente, apenas a Raye parece capaz de fazer e ainda ser relevante comercialmente — e isso é algo extraordinário. Produzida pela cantora ao lado de Mike Sabath, a faixa é uma magnífica, explosiva, refinadíssima, graciosa, dançante e mágica mistura de pop soul, R&B, big band, jazz e neo-soul que resulta em uma das canções mais refinadas e brilhantes do ano. Nem de longe eu achava que a Raye seria capaz de entregar algo como Where Is My Husband!, mas, novamente, sua imensa capacidade artística é de cair o queixo devido ao quanto intrincada é a construção da canção e, ao mesmo tempo, por ser um trabalho que conquista desde a primeira escuta."

3. Berghain
ROSALÍA, Björk & Yves Tumor


"Deixando de lado algumas influências dos seus trabalhos anteriores, mas continuando a explorar os limites da sua sonoridade, Berghain é um trabalho inesquecível que mistura, de maneira genial, art pop, música clássica, avant-garde, orquestral, operático e barroco para criar uma verdadeira pièce de résistance na carreira da cantora. Mostra não apenas a sua capacidade, mas também a clara noção de que o “pop” pode ser muito mais amplo e profundo do que algumas cantoras fazem. Pode ser experimental, cativante, estranho, nada comercial, revolucionário, grandioso, contemplativo e único — e isso em uma canção de dois minutos e cinquenta e oito segundos. Quando a ouvi pela primeira vez, achei que essa duração curta, especialmente diante da imensidão criativa colocada na canção, seria um grande problema, fazendo-a perder alguma força. De certa forma, isso acontece, pois, se Berghain fosse um minuto ou um minuto e meio maior, poderia explorar ainda melhor seus melhores pontos sem deixar nada a desejar. Todavia, os “pontos” que isso faz a canção perder não são suficientes para que ela deixe de ser considerada uma genialidade magistral."

2. One of the Greats
Florence + The Machine


"One of the Greats é uma crônica genial sobre a percepção da nossa mortalidade (influenciada diretamente por uma experiência de quase morte da Florence em 2023) ao mesmo tempo que é uma visão aguçadíssima e destemida sobre o lugar da mulher na indústria da música. Assuntos profundos e espinhosos como esses não são territórios desconhecidos para a banda, mas aqui é algo que, sinceramente, encontra a perfeição lírica devido a como a Florence, ao lado de Mark Bowen, consegue fundir os assuntos tratados com uma fluidez impecável, criando uma narrativa robusta sem nunca soar pretensiosa, que vai se desenrolando em um soco no estômago atrás de outro. E o grande ápice de uma composição já de qualidade altíssima é quando surge o melhor verso de 2026: “It must be nice to be a man and make boring music just because you can”. Eu dei uma lufada de ar misturada com uma risada sincera ao ouvir o verso. Sonoramente, One of the Greats é uma classuda, poderosa e marcante mistura de indie rock, art rock e gothic rock, com uma inspirada instrumentalização que carrega toda a força da composição sem dar espaço para vazios e, também, sem se sobressair a ponto de tirar o foco principal da canção. Florence entrega uma performance sensacional, como sempre, transmitindo toda a emoção crua da sua composição sem exageros e sem fugir também da melancolia e da acidez."

1. Look Down On Us
Maruja


"Em definição, a canção é art rock, post-rock, jazz-rock, post-punk, rap rock e punk art, mas, sinceramente, o resultado é muito mais do que isso, pois encontra um lugar tão único que pode-se dizer que é o gênero Maruja. Grandioso, barulhento, contemplativo, reflexivo, contido, expansivo, inesperado, raivoso e intoxicante são apenas alguns dos adjetivos possíveis para Look Down On Us — e ainda faltariam palavras para descrever, com justiça, toda a imensidão que a música representa. Isso também é válido para definir a performance do vocalista Harry Wilkinson. Sua presença é o fio condutor perfeito ao ser um arauto celestial que transita por toda a jornada da canção, transformando-se e transmutando-se em diversas personas para conseguir carregar o peso sonoro. E isso é algo assustadoramente lindo de presenciar. Mais uma vez, a lírica do Maruja é ácida, verborrágica, refinada e sempre devastadora em suas crônicas sobre a sociedade. Aqui não poderia ser diferente, culminando em uma composição de apuro estético, temático e poético impecável. O melhor momento da letra é no final do primeiro verso, quando está gravado a ferro e fogo: “There's genocide abundant, we all just turned away / And sold for a bargain lap it up like dogs hear them barkin' / The cunning isn't subtle, you're a target.” Em Look Down On Us, o Maruja não apenas prova que o hype de sua caminhada até aqui é totalmente justificado, mas também se posiciona em um patamar artístico totalmente fora da curva, em que apenas a banda vive atualmente."

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