Music
Madonna
Dentro da discografia de grandes artistas existem claras divisões entre os álbuns, mostrando quais são os álbuns definitivos, os de transição, os de renascimentos e entre outros. E é claro que na carreira da Madonna é obvio que tem todos esses álbuns como vem discutindo ao longo das resenhas em Antes Tarde do Que Nunca. Todavia, o álbum que irei falar nesse texto é um dos álbuns que, sinceramente, não consigo achar melhor definição que não seja um “grande álbum de sobras” que foi feito para marcar o território da cantora. E esse trabalho é o Music que deu inicio a carreira da cantora no novo milênio.
Lançado em 2000, o álbum tinha um peso grande devido a ser o sucessor direto do seu maior sucesso de critica Ray of Light que tinha sido lançado dois anos antes. Nesses dois anos entre os álbuns, a cantora venceu os Grammys de Best Pop Album e Best Dance Recording para seu álbum anterior, teve sucesso em trilhas de filmes com a subestimada Beautiful Stranger do filme Austin Powers: O Agente Bond Cama que ganhou o Grammy Best Song Written for a Motion Picture, Television or Other Visual Media e o cover controverso do clássico dos anos setenta American Pie para o fracasso do filme que estrelou Sobrou pra Você. Todavia, o principal contexto para o lançamento de Music era o fato que era um trabalho para “responder” as recentes ascensões de novas divas do pop que “ameaçavam” o seu reinado, especialmente nas figuras da Christina Aguilera e, especialmente, a Britney Spears. E isso foi alcançado com louvor devido ao sucesso comercial do álbum, demonstrando que a então quarentona Madonna não iria abaixar a cabeça para as novinhas. Todavia, o álbum termina sendo com uma espécie de mancha dentro da discografia da artista.
Uma mancha brilhante, mas, sim, uma mancha meio difusa e que mesmo passados tantos anos ainda é meio difícil de decifrar facilmente. Não é exatamente um álbum de transição, pois o que veria a seguir não seria um desses momentos de mudança da Madonna. Ao contrário, pois sua próxima era seria a sua primeira era de flop verdadeira. Não é exatamente um grande álbum, especialmente se comparado com trabalhos anteriores. Não é nem de longe um álbum ruim, pois está bem perto de outros momentos acima da média da cantora. Como disse no primeiro parágrafo, Music é um grande álbum de sobras que tem a personalidade e sonoridade tirados basicamente de Ray of Light. Entretanto, a qualidade cai bastante, pois a intenção e atmosfera do álbum é diluída em ideias que não chegam perto do fluxo criativo que foi imposta tão perfeitamente no trabalho anterior. Falta explosão para que boa parte das canções tivessem o mesmo impacto e atemporalidade. Acredito que essa razão é devido ao fato que Music tem boa parte da produção nas mãos de Mirwais Ahmadzaï que injeta, sim, personalidade própria, mas que nunca encontra seu lugar de fala verdadeiro. Para ser sincero, nem William Orbit realmente encontra realmente aqui esse lugar, aumentando a impressão que o álbum seja esse requente de ideias já usadas. Todavia, é preciso apontar que essas “sobras” são vinda de um dos mais refinados trabalhos da música de todos os tempo e, por isso, é algo que está bem acima da média para qualquer régua. Outro problema que impede o trabalho de não ser melhor é o fato que existe uma clara condução para o publico da época acreditar que o trabalho teria um outro viés. E isso é devido ao single que abriu a nova era: a magistral Music.
É preciso reafirmar que o problema não é a Music em si, pois o trabalho é facilmente não apenas um dos melhores da canção na era moderna da sua carreira, mas como também da sua discografia como um todo. Entretanto, a canção deu e dá a falsa impressão que o álbum como todo vai ser na mesma pegada e, não, indo uma direção mais alinhada com o álbum anterior. E qual essa pegada? Nada experimental, mesmo tendo toques ousados, a canção é uma excepcional, frenética, cativante e extremamente dançante dance-pop/post-disco/funk que consegue que é de um refinamento impressionante devido ao seu imenso fator comercial. Icônica, atemporal e épica, a canção ao abrir os trabalhos do álbum assim como também como dar nome e ser o abre-alas do álbum dá a impressão clara que iremos ter uma Madonna dessa maneira: mais comercial, mais dançante, mais divertida e menos profunda. E é exatamente isso que não acontece. Existem toques dessas qualidades, mas o que é o visto pelo resto do álbum é uma Madonna ainda explorando os limites do pop em uma sonoridade alt pop, eletrônica, downtempo, glitch pop e folk pop que busca os mesmos caminhos de Ray of Light, mas sem realmente chegar nos mesmos lugares. E isso fica bem claro quando o outro grande momento do álbum fica por conta de outra canção que parece deslocada do resto do trabalho: Don't Tell Me.
Segundo single lançado antes do lançamento do álbum, a canção é uma cativante e inusitada mistura de dance-pop/eletrônica com forte influência de folk, country e tri trop que pode até ser uma clara exploração da Madonna, mas é que revestida em um brilhante e gracioso verniz comercial que a faz se tornar irresistível. Com composição da Madonna, Ahmadzaï e do cunhado da cantora Joe Henry, a composição simples, mas extremamente eficiente de Don't Tell Me pode ser interpretada como um recado para aqueles que achariam que devido a surgimento de novos nomes seria o “fim” da carreira da Rainha do pop:
Don't tell me to stop
Tell the rain not to drop
Tell the wind not to blow
'Cause you said so, mmm
E mesmo com a essa mensagem, a canção mostra um lado de Music que também o ajuda a ser uma obra menor: suas composições. Boas letras estão permeadas no álbum, mas faltam profundidade temática e um apuro que as colocassem em outro níveis de criação. Em What It Feels Like for a Girl, Madonna faz uma pungente e tocante crônica sobre as dores de ser uma mulher no mundo que é claramente fonte atual de inspiração para outras artistas como a FKA twigs em Girl Feels Good. Entretanto, a canção parece ainda carecer daquele trato temática e estético de grandes canções da cantora e até mesmo aquelas menos conhecidas. Entre os outros destaques do álbum gosto da atmosfera de Impressive Instant devido a que mais remete aos grandes momentos de Ray of Light que, porém, encontra certas boas saídas originais e Runaway Lover e suas interessantes e bem vindas texturas sonoras. Mesmo não sendo o suprassumo da carreira da Madonna, Music é um trabalho que merece ser escutado de tempos em tempos e ter um bom lugar na sua discografia. Na próxima resenha da discografia da Madonna irei discutir um álbum que tem um lugar de destaque na carreira dela, mas por motivos negativos.
Um comentário:
É um álbum que me causou estranheza na primeira vez que ouvi mas, com o passar do tempo, fui gostando e achando mais criativo.
Postar um comentário