3 de junho de 2018

Antes Tarde do Que Nunca - Grandes Álbuns

Tidal
Fiona Apple



Quando tinha apenas dezenove anos em 1996, Fiona Apple lançou o seu primeiro álbum: aclamado pela critica, Tidal fez um inesperado sucesso comercial, ajudando a cantora a vencer prêmios como o Grammy e o VMA e a transformando na próxima grande promessa da música. Para uma boa parte da mídia era um sonho se tornando realidade, pois eles tinham em mãos uma ainda adolescente, branca, talentosa e de uma beleza peculiar. Isso tudo, lembrado, em uma época pré-internet e pré-Britney e CIA. Todavia, Fiona não tinha "assinado" em lugar para nenhuma para seguir qualquer script que tinha programado para a sua vida/carreira, pois a mesma deu um sutil e eficiente dedo do meio para geral ao começar a ditar as próprias regras e não se tornar uma marionete. Obviamente, apesar de tudo disso, Fiona Apple confirmou-se como uma verdadeira promessa musical, tornando-se uma das mais interessantes e sensacionais artistas dos últimos vinte anos. E acredito que era meio impossível não botar fé em Fiona depois de ouvir acachapante Tidal.

Tidal não é um álbum fácil para ser decifrado para o grande público, pois exige uma bagagem sonora preexistente para conseguir entender plenamente a sonoridade metamórfica, orgânica e pulsante de Fiona Apple. Tentando classificar de uma forma geral, Tidal seria um álbum de rock alternativo, mas que devido a miscelânea de gêneros e estilos introduzidos pela produção essa concepção é muito mais abrangente. Misturando jazz, indie pop/rock, blues, neo soul, blues, R&B, art rock e alguns toques de industrial, o álbum é uma viagem sonora como poucos trabalhos, pegando redemoinhos de fúria, ventos de melancolia, tormentas de excitação e, principalmente, um escaldante sol de emoções nuas e cruas. Essa grande junção de tantos gêneros, estilos e sensações poderia resultar em algo bem fora do tom e esquisito. E, na verdade, isso acontece, porém, devido o incrível sensibilidade da produção e o talento de Fiona, o resultado se torna algo de uma coerência própria, cativante na sua esquisitice e de um vigor impressionante. Cada uma das dez faixas é uma pequena obra de arte com as suas construções complexas, instrumentalização rica que vai do grandioso ao minimalista com a mesma força e uma sensação de urgência impressionante. Todavia, apesar de momentos geniais, algumas canções pecam por serem um pouco arrastadas, deixando o álbum lento demais na sua parte final. Só que esse problema não é maior devido a presença enigmática e transcendental de Fiona Apple.

Com apenas dezenove anos na época, Fiona Apple mostrou um talento fora do comum ao escrever sozinha todas as faixas do álbum. Se isso já não fosse algo impressionante, o grande trunfo do álbum é como a cantora escreveu essas letras. Tentarei explicar o quanto impressionante é a persona compositora de Fiona, pois é algo muito difícil de expressar em palavras para quem nunca a ouviu: imagine uma adolescente/quase adulta com todas as angústias de uma pessoa nessa idade, mas que, devido a suas influências, parece ter uma alma de uma senhora na casa dos quarenta com experiência suficiente para olhar para trás e refletir cuidadosamente sobre o passado e, ao mesmo tempo, continua com a mesma pungência e urgência da juventude de poder expressar os seus dramas que aqui soam bem mais adultos que a maioria dos jovens e, mesmo assim, ainda tem o frescor da tenra idade, misturando a força criativa de um rock/pop de uma Alanis Morissette com a classe e melancolia de uma Billie Holiday. É só isso o talento de compositora de Fiona Apple! Brincadeiras a parte, as composições de Tidal é desse nível de criatividade como podemos ver no maior sucesso da cantora: Criminal é uma indie rock/pop com toques de jazz/blues sobre a infelicidade de se arrepender de machucar alguém em um relacionamento. Poderosa do começo ao fim, a faixa ainda conta com o outro grande trunfo de Fiona: a sua grave, sensual, enigmática e atemporal voz. Dona de um timbra sem igual, Fiona dá para as suas performances uma força impressionante, transitando entre a raiva contida e doce melancolia. Ouvir a jazz/blues Slow Like Honey em que a cantora se molda para soar como uma cantora dos anos quarenta/cinquenta é sentir um pouco da força emocional que a voz dela consegue alcançar. Outros grandes momentos de Tidal ficam por conta da genial Sleep To Dream, a triste e elegante Shadowboxer e frágil e linda The First Taste. Moldando o seu destino desde o genial começo, Fiona Apple construiu uma das carreiras mais interessantes dos últimos vinte anos, começando com uma obra que sempre será uma obrigatoriedade para quem realmente gosta de música.


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