23 de novembro de 2025

Primeira Impressão

Through The Wall
Rochelle Jordan



Existem dezenas de álbuns que se propõem a emoldurar uma sonoridade específica saída de um movimento, de uma época, de um gênero específico ou de uma artista. Poucos deles, porém, conseguem acertar em cheio com a precisão milimétrica como é o caso do magistral Through The Wall, terceiro álbum da cantora Rochelle Jordan.

Continuando sua exploração sonora iniciada no também ótimo Play with the Changes, de 2021, a cantora se concentra de maneira ainda mais direta ao direcionar sua atenção ao deep house. Não que o gênero surgido no final dos anos oitenta seja o único incorporado à sonoridade do álbum, mas é claramente a base principal sobre a qual a produção vai sendo construída. E a produção emoldura essa base sonora à perfeição, fazendo exatamente o necessário para não soar como uma cópia e/ou uma exploração de nostalgia barata.

Boa parte da qualidade da refinada produção está em saber incrementar a base de Through The Wall com doses suculentas, classudas, substanciais e graciosas de dance-pop, garage house, R&B, bass e pop, que apenas dão profundidade ao álbum. Todavia, essas adições não seriam tão efetivas se não fossem aliadas esteticamente à construção do deep house — o que, felizmente, a produção soube executar muito bem ao compreender quais influências, e principalmente de qual período, deveria utilizar.

Fica fácil notar que existe uma clara decisão de se basear em uma estética do final dos anos oitenta e início dos noventa, misturando toques de vogue, Ballroom, artistas cults, elementos de Janet Jackson, funk eletrônico, a estética de remixes de nomes como Sade e Diana Ross, entre outros pontos. E esse caldeirão poderia ter resultado em um trabalho bom, porém sem tempero devido à falta de originalidade. Felizmente, não é o que acontece, pois, em quase uma hora distribuída em dezessete faixas, Through The Wall é sempre excitante, envolvente, cheio de personalidade verdadeira, elegante, sensual e fluido, sem perder o ritmo em nenhum momento, mesmo apresentando algumas mudanças de cadência aqui e ali. E isso é raríssimo, pois a produção teria várias oportunidades de perder o pique de maneira até justificável e perdoável. Ao invés disso, o álbum se torna aquele tipo de trabalho que nos impele a ouvir do começo ao fim sem pular nenhuma faixa. E a cola que une tudo é a presença brilhante de Rochelle Jordan.

Dona de uma voz aveludada, melódica, sensual, profunda e encantadora, a cantora transita de forma cativante e deslumbrante pelos meandros e caminhos que a produção entrega, adicionando uma camada preciosa de personalidade e uma belíssima força interpretativa sempre mutável. Suas influências no R&B, claras mas nunca restritas a um lugar de conforto, fazem com que sua performance transmita continuamente a impressão de estarmos ouvindo uma artista que nunca se apoia no seguro — mesmo mostrando total domínio vocal. E isso confere a Through The Wall a sensação ainda mais forte de estarmos diante de um trabalho de preciosidade rara e brilhante.

Tentar apontar alguns destaques aqui é uma tarefa difícil, pois, como dito, este é daqueles álbuns impossíveis de ouvir pulando faixas. Todavia, é possível fazer uma curadoria das canções que melhor representam sua qualidade. Começa pela excitante batida da deliciosa “Ladida”, passa pela majestosa “Doing It Too” com seu refrão cativante, pela melancolia dançante de “Never Enough”, pelo toque drum and bass da batida cadenciada de “Bite The Bait”, pela construção diretamente dançante de “Crave” — com um refrão que facilmente poderia ter sido gravado pela Janet —, pelo toque de hip hop em “Get It Off” e, por fim, pela suculência sexy de “Sweet Sensation”.

Through The Wall é, sem dúvidas, um dos melhores álbuns de 2025, fazendo de Rochelle Jordan uma artista que você precisa conhecer urgentemente. É para o seu próprio bem.


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