Florence + The Machine
Ao chegar ao sexto álbum da carreira, o Florence + The Machine continua a demonstrar o motivo de a banda ser um dos nomes mais importantes da música das últimas décadas. Em Everybody Scream, porém, a banda faz uma certa mudança de curso na sua sonoridade ao mesmo tempo que embarca totalmente no lado mais “descendentes das bruxas que não foram queimadas”.
Obviamente, a sonoridade da banda sempre esteve de alguma maneira ligada a esse aspecto desde o começo, e isso não é novidade nenhuma. Entretanto, o novo álbum é o que mais assume essa faceta ao refletir diretamente a noção de poder e feminilidade que a alcunha de bruxa/bruxaria carrega, pois esse é um dos pontos de partida para sua construção. E isso é visto claramente na elaboração lírica e temática de Everybody Scream.
Mesmo já tendo caminhado por essas trilhas, Florence Welch, ao lado de Mark Bowen (da banda Idles), compôs as canções mais raivosas e ácidas da carreira da banda, que buscam expor os pensamentos mais críticos e diretos, retirando a contemplação lúdica e melancólica dos trabalhos anteriores. E isso é feito de uma forma que faz a Florence meio que se tornar essa figura mística em busca de vingança e reparação, além de expor as mazelas que as mulheres passam ao embarcar em sua vassoura e começar a invadir a vila onde se escondem os bárbaros “homens de família” que perseguiram o seu covil. É uma construção bem elaborada e detalhada, mas, sinceramente, essa é uma visão que claramente poderia ser apenas alcançada pela capacidade do Florence + The Machine.
Além disso, o álbum é recheado pelas composições mais pessoais da carreira da banda, especialmente ao vermos Florence refletindo sobre amores conturbados e experiências de vida traumáticas, em especial a de quase morte que teve. A cantora já escreveu sobre esses assuntos, especialmente no álbum anterior Dance Fever, mas em Everybody Scream isso soa mais palpável devido a serem ainda mais íntimos. Junta-se a tudo a sempre magistral estética que consegue misturar poesia e literatura com um toque pop especial e uma emoção irretocável, e o resultado final é um dos tour de forces mais poderosos da carreira da banda. Em um dos momentos mais potentes e devastadores do álbum, Sympathy Magic é uma honestíssima e tocante crônica sobre o que é voltar de uma experiência de quase morte e começar a ver a vida por outros olhos, sendo não necessariamente mais positivos, mas, sim, mais realistas e urgentes: “I do not find worthiness a virtue / I no longer try to be good / It didn't keep me safe”.
Em quesito de sonoridade, Everybody Scream também apresenta uma mudança, como apontado anteriormente, mesmo sem exatamente sair do reino do que estamos acostumados a ouvir da banda. É o trabalho mais indie rock desde High As Hope, mas aqui, porém, consegue acertar perfeitamente ao ter uma construção mais parruda, lapidada e, principalmente, que agrega outros gêneros para transmitir a essência da banda de maneira fluida e natural. Existem doses de art rock, baroque pop, folk, indie pop e outros gêneros que vão sendo fundidos, misturados e refinados para se agrupar nessa áurea de indie rock, criando um material sólido, resplandecente, familiar, marcante e sempre em busca de saídas nada fáceis. E um dos grandes momentos instrumentais do álbum, que se torna um dos ápices do trabalho, é a canção que dá nome ao álbum e que serve como seu abre-alas: o single Everybody Scream.
“A canção carrega a marca definida, inesquecível e, sinceramente, lendária da banda, ao se apresentar como uma grandiosa e impressionante mistura de art rock e pop que apenas eles poderiam entregar. Entretanto, a produção acrescenta camadas vibrantes, com cores fortes, que conferem à faixa uma personalidade reluzente, sem deixar de preservar a essência já consolidada do grupo. Dessa vez, há uma bem trabalhada e excitante influência de rock alternativo e gótico, com toques de punk rock e gospel, que dá a Everybody Scream uma áurea completamente distinta dentro da discografia — ainda que soe, ao mesmo tempo, familiar. É exatamente o tipo de experiência que apenas o Florence + The Machine seria capaz de oferecer.”
E é claro que tudo isso é sustentado pela sempre espetacular presença surreal de Florence Welch, que, como sempre, entrega performances divinas que carregam toda a força emocional de suas palavras e consegue se transmutar para se adequar às diversas atmosferas da sonoridade, indo de uma titã em busca de vingança até uma simples feiticeira em busca do amor. Em um dos seus momentos mais impactantes, Florence vai da delicadeza melancólica até a explosão sentimental da épica You Can Have It All. Todavia, o álbum encontra o seu ápice com a genial One of the Greats:
“Uma crônica genial sobre a percepção da nossa mortalidade (influenciada diretamente por uma experiência de quase morte da Florence em 2023), ao mesmo tempo que é uma visão aguçadíssima e destemida sobre o lugar da mulher na indústria da música”, que, sonoramente, é “uma classuda, poderosa e marcante mistura de indie rock, art rock e gothic rock, com uma inspirada instrumentalização que carrega toda a força da composição sem dar espaço para vazios e, também, sem se sobressair a ponto de tirar o foco principal da canção. Florence entrega uma performance sensacional, como sempre, transmitindo toda a emoção crua da sua composição sem exageros e sem fugir também da melancolia e da acidez”.
Outros momentos que ajudam o álbum a ser um dos melhores de 2025 ficam por conta da melancólica Perfume and Milk, da pragmática Witch Dance, da climática The Old Religion e, por fim, da ácida Music by Men.
Everybody Scream é o tipo de álbum que apenas uma banda como o Florence + The Machine pode entregar, ao ser indiscutivelmente um trabalho com sua marca registrada e, ao mesmo tempo, buscar novos caminhos para continuar a evoluir sua sonoridade. E isso é algo bem raro nos dias de hoje.


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