18 de janeiro de 2026

Os Melhores Álbuns de 2025 - Parte Final

 


Parte I
Parte II
Parte III


10. Something Beautiful
Miley Cyrus


"Something Beautiful não é apenas o melhor álbum da carreira da Miley, mas também um dos melhores trabalhos da música pop recente e, sem dúvida, o melhor entre as cantoras da geração da artista. Sinceramente, a reação mista dos críticos é algo que não consigo entender completamente, pois o trabalho tem pedigree suficiente para ser melhor apreciado por especialistas em música. Felizmente, a recepção do público que realmente escutou e entendeu o álbum como um todo conseguiu captar toda a essência de uma consagração artística e criativa de uma artista que, aqui, encontra sua melhor persona. Desde que surgiu como Hannah Montana até agora, Miley demonstrou, em cada nova era, uma personalidade artística que, de alguma forma, refletia seu estado pessoal na época do lançamento. Os resultados comerciais e artísticos variaram bastante, mas sempre foi interessante ver como ela navegava por essas mudanças, emergindo sempre diferente do outro lado. Até agora, o melhor momento da cantora foi a fase roqueira do excelente Plastic Hearts, de 2020, no qual apontei que essa “persona não apenas funciona para a imagem já forte da cantora, mas, principalmente, se mostra um acerto sonoro para separá-la da multidão”. E isso posso afirmar que acontece ainda mais e melhor em Something Beautiful, pois aqui existe uma apuração estética, sonora e temática que eleva a sonoridade da cantora para um novo patamar. Então, qual é essa nova persona da Miley? Acredito que a melhor definição seja a de que é a versão madura da artista Miley Cyrus, pois aqui é evidente que vemos a cantora em seu estágio mais avançado sonoramente. Entretanto, com o desempenho comercial bem baixo e as críticas mornas no lançamento, acredito que a melhor definição para Something Beautiful seja que o álbum é o seu Impossible Princess. Lançado em 1997 como o sexto álbum da carreira de Kylie Minogue, o trabalho, na época, foi recebido de maneira mista pela crítica e pelo público, devido à estranheza da experimentação sonora da australiana. Todavia, ao longo dos anos, a recepção mudou, mostrando o quanto esse ponto fora da curva foi glorioso e à frente de seu tempo. Acredito, sinceramente, que esse será o destino de Something Beautiful. Isso se consolida ao percebermos a qualidade da construção do álbum."

9. Sincerely,
Kali Uchis



"Quinto álbum de sua carreira, o trabalho é uma reflexão que não se estende apenas sobre o nascimento de seu primeiro filho, em março de 2024, mas também pela morte de sua mãe. Todavia, o resultado do álbum reflete mais um lado “esperançoso”, em que Kali parece claramente encontrar uma clareza pura e cristalizar pensamentos sobre a vida. A cantora não parece querer mostrar que encontrou o sentido da vida, mas, sim, o que faz a mesma viver e qual é o seu propósito no mundo. Isso é algo impressionante, pois, em sua lírica, é expresso todo o seu estado mental de maneira madura, poética, envolvente, inteligente e profunda, com doses perfeitamente equilibradas de clichês, sentimentalismo, sensualidade e dramaticidade. E tudo encontra o seu momento mais impressionante logo na primeira faixa: a magistral Heaven Is a Home…. Escrita enquanto a cantora ainda estava grávida, mas que ganhou novos contornos depois de sua mãe ficar doente, a faixa é uma belíssima, tocante e devastadora power balada sobre querer proteger quem amamos de todo o mal do mundo. De uma sinceridade absurda, Heaven Is a Home… mostra uma vulnerabilidade imensa da cantora, ao também evidenciar que, apesar de todo o desejo, não temos todas as ferramentas para “salvar” quem amamos dos perigos, restando-nos pedir pelo melhor e fazer o que está ao nosso alcance. A canção ganha novos contornos quando percebemos que a faixa que encerra o álbum, ou seja, a que está na outra ponta da jornada, é ILYSMIH, em que a cantora “apenas” aceita o fato de que a vida seguirá seu curso, precisando apenas fazer o seu melhor para criar seu filho com todo o seu amor. Em versos como “All the world is crazy, but you're here / My baby made me realize that nothing else even matters”, Kali demonstra o quanto sua escrita é refinada, sempre limpa e direta."

8. Through The Wall
Rochelle Jordan


"Boa parte da qualidade da refinada produção está em saber incrementar a base de Through The Wall com doses suculentas, classudas, substanciais e graciosas de dance-pop, garage house, R&B, bass e pop, que apenas dão profundidade ao álbum. Todavia, essas adições não seriam tão efetivas se não fossem aliadas esteticamente à construção do deep house — o que, felizmente, a produção soube executar muito bem ao compreender quais influências, e principalmente de qual período, deveria utilizar. Fica fácil notar que existe uma clara decisão de se basear em uma estética do final dos anos oitenta e início dos noventa, misturando toques de vogue, Ballroom, artistas cults, elementos de Janet Jackson, funk eletrônico, a estética de remixes de nomes como Sade e Diana Ross, entre outros pontos. E esse caldeirão poderia ter resultado em um trabalho bom, porém sem tempero devido à falta de originalidade. Felizmente, não é o que acontece, pois, em quase uma hora distribuída em dezessete faixas, Through The Wall é sempre excitante, envolvente, cheio de personalidade verdadeira, elegante, sensual e fluido, sem perder o ritmo em nenhum momento, mesmo apresentando algumas mudanças de cadência aqui e ali. E isso é raríssimo, pois a produção teria várias oportunidades de perder o pique de maneira até justificável e perdoável. Ao invés disso, o álbum se torna aquele tipo de trabalho que nos impele a ouvir do começo ao fim sem pular nenhuma faixa. E a cola que une tudo é a presença brilhante de Rochelle Jordan."

7. Lotus
Little Simz



"Para a produção do álbum, a rapper agora conta com a participação do produtor Miles Clinton James, que já tinha coproduzido algumas faixas para a artista. E a escolha não poderia ter sido melhor, pois é fácil perceber que existe uma clara noção do produtor em relação à sonoridade da rapper. Não apenas ele a entende, mas também faz com que a rapper evolua e experimente, refletindo um novo estado de espírito artístico e pessoal. E é também impressionante notar que existe claramente um caminho que continua, pois Lotus não é uma quebra sonora na trajetória de Little Simz. É, sim, uma nova fase em que existem novas cores para o que já era uma explosão impactante. Acho que a grande diferença em relação aos trabalhos anteriores é que a visão aqui é mais centralizada e contida, indo na contramão da epicidade sonora e instrumental que era uma das marcas da produção de Inflo. Não é nem de perto dizer que as canções ficaram menores, pois a produção de Miles continua a dar para a rapper todo o suporte para que carregue a sua força artística. A diferença é que antes a rapper estava em um trem indo a 200 km/h, mas agora ela está em uma Ferrari indo na mesma velocidade. Diferentes veículos, mesma potência. Lotus é um trabalho que funde lindamente o hip hop/rap com infusões potentes de conscious hip hop, jazz, neo-soul, afrobeats, R&B e post-punk em um tecido intrincado, glorioso e de uma finalização espetacular e lindamente polida. A produção não apenas entende como construir a sonoridade em torno da rapper, mas como entregar de fato o que ela precisa para poder explorar toda a sua potência. E até mesmo quando a faixa não é exatamente o destaque do álbum, é possível ver todo o cuidado e criatividade da criação, como é o caso de Flood, ao ser “uma sóbria, marcada, profunda e inspirada faixa de hip hop com fortíssima e impressionante influência de afrobeats. A canção consegue ser curta (menos de três minutos) e ainda assim explorar todas as possibilidades sonoras que a sua base proporciona, especialmente devido a um instrumental intrigadíssimo. A produção também acerta na introdução das nuances e texturas, mas, principalmente, constrói uma atmosfera perfeita para toda a força da presença poderosa da Little Simz". E o que digo quando estou me referindo à força da rapper, que precisa de tanto cuidado para poder ter a base à altura, é sobre o quanto ela é genial, começando pela sua sempre impressionante lírica."

6. Um Mar Pra Cada Um,/ Antes que a Terra acabe
Luedji Luna



"Intricado, maduro, elegante, profundo e exuberante, o trabalho instrumental apresentado no álbum é impressionante e magistral, pois consegue captar toda a essência de Luedji e de sua arte de uma forma que a coloca em outro patamar, sem que perca sua identidade original. Pode parecer estranho elogiar algo que deveria ser o básico, mas preciso destacar isso justamente porque, infelizmente, o aspecto técnico da música brasileira atual tem apresentado qualidade bastante questionável, especialmente nos lançamentos do nosso mainstream. E veja: não há nada de revolucionário em Um Mar Pra Cada Um — tudo aqui é feito na medida certa para valorizar a presença iluminada da cantora. Todavia, o básico aqui é executado com perfeição de sabor, textura e estética, criando um deleite sonoro verdadeiro, único e magistral. Toda essa excelência técnica existe para sustentar a força artística de Luedji Luna."

"Funcionando claramente como o segundo lado de um álbum duplo, o trabalho continua a esparramar a mágica sonora da artista, pois fica bem claro que é a continuidade direta do que ouvimos no primeiro lado. Na verdade, o resultado aqui fica um pouquinho acima, devido especialmente ao começo avassalador das primeiras faixas. Além disso, Antes que a Terra Acabe também apresenta uma leve, mas importante, diferença na construção sonora que faz certa diferença na percepção do trabalho ao ter uma carga mais proeminente de neo-soul/R&B e alguns gêneros bem brasileiros como, por exemplo, o axé e a bossa nova, deixando as influências de jazz um pouquinho de lado. Não é uma exclusão, mas, sim, um holofote mais explícito. É preciso dizer de maneira categórica que isso é apenas um apontamento para diferenciar os dois trabalhos, pois, no frigir dos ovos, o que temos diante de nós é um trabalho impecável e necessário de ser ouvido por quem gosta de boa música."

5. Everybody Scream
Florence + The Machine


"Obviamente, a sonoridade da banda sempre esteve de alguma maneira ligada a esse aspecto desde o começo, e isso não é novidade nenhuma. Entretanto, o novo álbum é o que mais assume essa faceta ao refletir diretamente a noção de poder e feminilidade que a alcunha de bruxa/bruxaria carrega, pois esse é um dos pontos de partida para sua construção. E isso é visto claramente na elaboração lírica e temática de Everybody Scream. Mesmo já tendo caminhado por essas trilhas, Florence Welch, ao lado de Mark Bowen (da banda Idles), compôs as canções mais raivosas e ácidas da carreira da banda, que buscam expor os pensamentos mais críticos e diretos, retirando a contemplação lúdica e melancólica dos trabalhos anteriores. E isso é feito de uma forma que faz a Florence meio que se tornar essa figura mística em busca de vingança e reparação, além de expor as mazelas que as mulheres passam ao embarcar em sua vassoura e começar a invadir a vila onde se escondem os bárbaros “homens de família” que perseguiram o seu covil. É uma construção bem elaborada e detalhada, mas, sinceramente, essa é uma visão que claramente poderia ser apenas alcançada pela capacidade do Florence + The Machine. Além disso, o álbum é recheado pelas composições mais pessoais da carreira da banda, especialmente ao vermos Florence refletindo sobre amores conturbados e experiências de vida traumáticas, em especial a de quase morte que teve. A cantora já escreveu sobre esses assuntos, especialmente no álbum anterior Dance Fever, mas em Everybody Scream isso soa mais palpável devido a serem ainda mais íntimos. Junta-se a tudo a sempre magistral estética que consegue misturar poesia e literatura com um toque pop especial e uma emoção irretocável, e o resultado final é um dos tour de forces mais poderosos da carreira da banda. Em um dos momentos mais potentes e devastadores do álbum, Sympathy Magic é uma honestíssima e tocante crônica sobre o que é voltar de uma experiência de quase morte e começar a ver a vida por outros olhos, sendo não necessariamente mais positivos, mas, sim, mais realistas e urgentes: “I do not find worthiness a virtue / I no longer try to be good / It didn't keep me safe”."

4. MAYHEM
Lady Gaga


"Depois de um hiato de cinco anos sem lançar um álbum dentro da sua discografia principal, GaGa volta de maneira triunfal em um álbum que está a altura do hype criado, mas, principalmente, está a altura do talento da artista. Mesmo tendo uma carreira gloriosa, Gaga nunca entregou exatamente um álbum que mostrasse completamente o real motivo para a mesma ser uma das maiores forças da musica desde o lançamento do blockbuster Born This Way em 2011. Na verdade, em questão de qualidade, a cantora não atingia esse mesmo nível de qualidade desde o The Fame Monster em 2009. E a grande e genial qualidade que faz o álbum ter essas alcunhas é o fato do trabalho ser basicamente a visão da atual GaGa, plena e madura artisticamente, sobre quase todas as suas eras e, ao mesmo tempo, entregando um trabalho atual, único, excitante e épico.

Para quem acompanha com atenção a carreira da GaGa ao ouvir com cuidado MAYHEM vai notar que o trabalho é um condensado de todas as fases musicais da cantora, mas com um verniz brilhante e com acabamento magistral que faz as canções serem “atualizadas” para a imagem da atual artista. E isso é que faz o álbum ser tão especial. Ao contrário de se apoiar na pura e descarada nostalgia, GaGa e sua equipe de produção brilhante reconstrói essas influencias, atmosferas e sonoridades de uma forma tão refinada e inteligente que as transformam em um lufada monstruosa de frescor, especialmente comparando com atual cenário pop. E isso que distingue a cantora de outras artistas que tentaram seguir na mesma onda de reviver/recriar o seu glorioso passado, mas acabaram explodindo de maneira nuclear. Novamente, o resultado de MAYHEM é um atestado da genialidade da GaGa que chega em um dos seus momentos mais plenos até hoje.

Tenho que admitir que é um pouco complicado poder resenhar o álbum da maneira que gosto, pois, literalmente, coloquei nas minhas anotações todas as canções do álbum como destaque. E esse é outra imensa qualidade de MAYHEM: a sua gigantesca coesão. Apesar de ser maior sonoramente, Born This Way apresenta uma montanha russa de momentos que o deixa com algumas lacunas, colando o trabalho abaixo do resultado sólido do atual álbum. Então, precisei tirar algumas canções dessa resenha para editar o texto, mas preciso apontar que o álbum é um daqueles que precisam e merecem ser escutados do começo ao fim em toda a sua totalidade. E mais: um álbum que tem a canção mais “fraca” algo como o gigantesco hit Die With A Smile, "uma poderosa, épica e marcante balada pop rock com toques de pop soul que não entrega nada novo que consegue, porém, ser tão bem feita e cativante que fica impossível a gente encontrar defeitos", é um álbum realmente genial."

3. Cancionera
Natalia Lafourcade


"Com exatamente uma hora e quinze minutos divididos em quatorze faixas, sendo duas versões acústicas, o álbum nunca fica cansativo ou arrastado devido à sua esplêndida execução e à sua impressionante construção instrumental, melódica e temática. E isso já é algo para ser elogiado, mas Natalia vai muito além ao conseguir entregar em cada momento do álbum algo tão encantador e completo que os transformam em quase pequenos mundos dentro da galáxia que é o álbum como todo. E tudo parte da grandiosidade avassaladora do instrumental que é criado para dar conta de toda a força que é colocada na construção sonora do álbum.

Cancionera é, novamente, a expressão do amor da Natalia com a sonoridade mexicana e da América Latina ao introduzir com perfeição e sabedoria gêneros como bolero, ranchera, cumbia, tango, pregón, rumba, salsa, tropical, entre outros, mas também mostrando sua influência vinda do jazz e folk. É importante apontar que, mesmo adicionando gêneros não exatamente latinos, a cantora, que assina a produção ao lado de Adán Jodorowsky, impregna totalmente e brilhantemente todo o álbum com essa força latina irrestrita e sem concessões, pois cada segundo é uma ode para essa sonoridade e a história da música latina. Tudo isso é plenamente alcançado devido ao trabalho sublime de instrumentação, que chega a ser algo quase divino. Refinado ao extremo, complexo sem parecer pretensioso e sabendo que da simplicidade também sai o brilhantismo, elegante, maduro, profundo, emocional sem ser piegas, sentimental, reflexivo, respeitador e ao mesmo tempo moderno, o trabalho instrumental ouvido no álbum é tudo isso, mas, sinceramente, não consegue abarcar com precisão toda a magnitude que ouvimos durante todo o álbum."

2. LUX
ROSALÍA


"A primeira coisa que a gente precisa entender é que o álbum funciona, de certa maneira, como o final apoteótico de uma trilogia que Rosalía vem desenvolvendo, mesmo que não de forma totalmente consciente. Uma trilogia que chamarei de “a trilogia experimental da Rosalía”.

Em EL MAL QUERER temos “o resultado da união da constância do tradicional com a inovação do moderno, criando algo novo e realmente excitante”, pois o álbum mostra a cantora pegando todas as suas influências da música tradicional espanhola e as atualizando para a contemporaneidade sem perder nenhuma essência. Motomami é Rosalía expandindo sua visão para além-mar ao buscar referências na América Latina, fazendo “a decodificação e reconstrução do Latin Pop, especialmente — e mais evidentemente — do reggaeton”. Ao experimentar com escolhas sonoras, influências, gêneros e estilos, Rosalía criou sua própria versão de pop, baseada em sua formação musical e acadêmica como poucas artistas possuem. Em LUX, a cantora pega toda essa bagagem pesada e substancial para não se focar diretamente em um objeto delimitado, mas, sim, na própria concepção do que é pop e suas imensas possibilidades.

A produção, capitaneada pela própria Rosalía, recolhe tudo que foi feito anteriormente — referências, desconstruções, experimentações e realizações — para se voltar a um escopo maior e mais amplo, fazendo de LUX essa jornada pelo pop segundo Rosalía. E, para isso, foi preciso, primeiramente, garantir que a base fundamental do álbum fosse capaz de sustentar tamanha grandiosidade idealística. E, queridos leitores, isso é um dos pontos que fazem toda a diferença para que o álbum funcione e vá muito além do esperado: o trabalho instrumental apresentado.

Dentro do que podemos chamar de “diva pop”, Rosalía é uma das melhores artistas na construção instrumental de seus álbuns. E em LUX estamos diante do melhor trabalho de sua carreira — e um dos melhores dos últimos anos. E também pudera: para carregar o peso titânico que a produção constrói, era preciso algo que pudesse sustentar tanta força criativa pulsando plenamente. O caminho aqui foi aumentar o volume das melhores qualidades que a cantora sempre apresentou à décima potência, adicionando ainda novas camadas para criar uma coleção de arranjos intrigadíssima, inspiradíssima, preciosíssima e grandiosíssima, que fazem quem escuta o álbum ser tragado para uma experiência fantástica, inesquecível e única."

1. Pain to Power
Maruja



"Acompanhando os primórdios da carreira do Maruja sempre tive a certeza que a quando a banda finalmente lançasse seu álbum debut estaria a altura de todo o hype criado ao longo dos anos. E mesmo tendo essa ideia ainda não estava totalmente preparado para a grandiosidade esmagadora e sublime de Pain to Power.

Pain to Power é a culminação de tudo que a banda vinha mostrando nos lançamentos de singles e EPs, mas elevado a um novo patamar por finalmente apresentar a construção completa das ideias por trás do projeto e uma apuração estética, temática e sonora que apenas víamos em vislumbres ao longo do tempo. Quem nunca ouviu a sonoridade da banda e se aventurar pelos cinquenta minutos de duração do álbum, dividido em oito faixas, vai levar um soco no estômago devido à força que o trabalho emana desde o primeiro momento até o derradeiro final. E quem já conhece, como citei anteriormente, vai basicamente ter reações parecidas como se estivesse escutando pela primeira vez.

Produzido por Samuel W. Jones, o álbum dá continuidade à trajetória da banda ao entregar um trabalho colossal, fazendo o Maruja navegar por um extraordinário e inigualável oceano de vários gêneros, estilos e subgêneros que, já desbravados antes, ganham aqui uma nova e distinta vida. Não se trata dos caminhos que a banda segue, mas de como ela reconstrói esses caminhos de uma maneira que tudo se torna reluzentemente novo, de um brilhantismo magnético e desconcertante. Por conceituação, Pain to Power é um trabalho de post-rock impregnado de altas concentrações de jazz rock, post-punk, art rock, experimental, industrial rock, rock orquestral, rap rock, acid jazz, entre outros, criando um tecido sonoro denso, complexo, grandioso, estonteante, excêntrico e de uma carga criativa pulsante. É ambicioso ao extremo, mas sem nunca dar um passo maior que a perna — é fácil notar que a capacidade do Maruja acompanha perfeitamente suas pretensões sonoras. Também não é, de forma alguma, um trabalho pretensioso: tudo flui de maneira natural e orgânica ao longo das faixas, deixando clara a visão da banda. Eles não querem ser mais do que são, mas sim mostrar, de maneira cristalina, o que são. Isso é expresso com clareza em Pain to Power — algo que poderia ir por água abaixo caso a banda não sustentasse tecnicamente. E essa é outra das genialidades do grupo.

Basicamente, os quatro integrantes da banda são os responsáveis pela construção instrumental de todas as canções. Isso não apenas torna o álbum ainda mais sincero, como também deixa evidente que o que ouvimos é diretamente a concretização das ideias do próprio Maruja. E o trabalho instrumental feito aqui é realmente de cair o queixo: para atender toda a concepção sonora por trás, a banda entrega uma coleção de arranjos simplesmente geniais. É difícil explicar em palavras a complexidade construída ao longo das oito faixas, pois existe uma intricada rede interconectada e fluida de nuances, ápices, contemplações, explosões, reflexões, quebras de expectativas, mudanças rítmicas, experimentações e descobrimentos. A comparação com um tecido é mais do que válida: temos a sensação de ouvir algo cuja estrutura de fios vai sendo ornada por diferentes e maravilhosas estampas e incrustações que a transformam sem jamais fazer perder sua essência."

Um comentário:

João disse...

Eu adoro suas listas. Só senti falta mesmo do álbum maravilhoso da Hayley Williams