13 de janeiro de 2019

Top 30 - Melhores Álbuns (Parte V)




Parte I
Parte II
Parte III


10. Golden Hour
Kacey Musgraves


"Ouvir Golden Hour é como colocar uma espreguiçadeira no meio de um jardim imenso em um dia ameno de primavera. Completamente florido, cheios de sons de batidas de asas de borboletas e beija-flores e com um aroma irresistível de terra molhada, a gente fica inebriado e entra em um quase estado de transe com uma serenidade que quase chega ao nirvana. A paz e a placidez que nos invade é algo que é lindamente transmitida em Golden Hour. Kacey resolveu que deveria pintar a vida com cores vivas, luminosas e sempre alegres ao contar sobre a como o mundo pode ser bonito. Sobre a alegria de se aceitar. Sobre se apaixonar à primeira vista. Sobre ver o lado bom das coisas. Sobre amar e até mesmo sobre terminar uma relação. Tudo isso é motivo para a cantora mostra que existe beleza. Otimismo em excesso pode em alguns casos ser tão irritante como o pessimismo exagerado. Todavia, Kacey Musgraves tem o talento saber escrever pequenas poesias, sabendo utilizar belas imagens, construções perfeitas e de uma simplicidade tocante revigorante. Veja o caso da quase intro Mother que fala sobre as saudades que todos têm de nossas mães de alguma forma, seja pela distância ou pela perda. Simples, delicada e de uma emoção genuína. Nunca simplista ou sem substância, as composições de Golden Hour é o que mais se aproxima do que o pop é de verdade, pois Kacey Musgraves entrega sonoramente a melhor definição do que é o country pop."

9. EL MAL QUERER
Rosalía


"Símbolo da cultura espanhola, o flamenco é o tipo de música que, apesar do reconhecimento até fácil por quem não nasceu na Espanha, ainda é pouco conhecido pelo resto do mundo em todas as suas facetas, sendo melhor prestigiado na sua forma clássica e tradicional. E, assim como outros gêneros com essas mesmas características, o público em geral quase não tem contato com artistas e canções de artistas desse nicho e apenas é exposto ao mesmo em momentos peculiares. Então, como pode Rosalía ter conseguido fazer de EL MAL QUERER tão discutido e importante para 2018? Primeiramente, o álbum não é um trabalho de flamenco puro, mas, sim, o que pode ser denominado como flamenco pop devido a atualização do gênero com a do tão disseminado pop. Em segundo lugar e o mais importante, a jovem cantora tem uma ideia e visão apenas sua sobre o que deve ser o flamenco e, principalmente, o que é o flamenco pop. Assim como grandes nomes da música como, por exemplo, Kendrick Lamar, Janelle Monáe e Beyoncé, Rosalía pega a expectativa que se constrói do público, ao ouvir que o mesmo está diante de um álbum de flamenco pop, e a destrói para reconstruir a seu belo prazer, sem ter medo de ousar, quebrar paradigmas, misturas referências, texturas, batidas e cores. Produzido pela própria Rosalía ao lado do coletivo de produção El Guincho, EL MAL QUERER é o resultado da união do constância do tradicional com a inovação do moderno, criando algo novo e realmente excitante.

Para elaborar a sonoridade do álbum, a produção misturou ao flamenco, além do pop, vários outros gêneros como R&B, trap music, experimental e hip hop, conseguindo entregar um trabalho com uma personalidade tão forte como os passos de flamenco. Sem perder o foco em nenhum momento, mas sempre querendo dar um passo a frente, a produção constrói uma das instrumentalizações mais complexas e ricas de 2018. Sem precisar, porém, de estender as canções em longas durações, pois, como um todo, o álbum tem apenas trinta minutos de duração. Essa rapidez ajuda demais ao resultado final ao não gerar aquela impressão de ser um trabalho arrastado como vários álbuns apresentam. Para se ter uma ideia da grandiosidade da sonoridade de EL MAL QUERER que apenas consigo associá-lo com os filmes de Pedro Almodóva, pois estamos diante de uma obra multicolorida, emocionante, profunda, contemporânea e, ao mesmo tempo, convencional. É essas são algumas das características das obras de Almodóva. Tanto que em um das faixas/ (a intro PRESO (Cap.6: Clausura)) é narrado pela atriz Rossy de Palma, frequente colaboradora do diretor espanhol. Além da semelhança sonora, o álbum também pode ser comparado na temática com os trabalhos de Almodóva."

8. Last Man Standing
Willie Nelson


"Na altura da sua carreira, Willie Nelson obviamente não precisa provar nada mais para ninguém e, principalmente, já tem uma sonoridade mais do que definida e cristalizada. Então, não espere que Last Man Standing não seja o bom e velho country com toques de bluegrass e folk. E isso não irá mudar, mas o que impressiona é o vigor que o álbum exala e soa como sendo um jovem artista, mesmo que os tema principal aqui seja sobre a finidade da vida. Escrevendo todas as faixas ao lado do produtor Buddy Cannon, Willie demonstra todo o peso da sua experiência ao entregar singles composições que são, na verdade, inteligentes, bem humoradas, irônicas, ácidas e certeiras crônicas sobre a vida, o amor, a morte, a atual situação das coisas nos Estados Unidos e, também, sobre a velhice. Um bom exemplo dessas características é a faixa que dá nome ao álbum: Last Man Standing é uma divertidíssima reflexão sobre Willie ser um dos últimos grandes nomes do country ainda na ativa e sobre como a morte é parte perceptível para alguém que chega na sua idade."

7. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES
Sophie


"Um aviso importante para qualquer um que após ler essa resenha se interessar em ouvir OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES: prepare-se para entrar em um mundo difuso, complicado e atordoante. E fique mais avisado: todas essas sensações não serão recebidas pelo seu córtex cerebral da mesma forma que você espera. Entrar nesse mundo é como ser sugado para uma dimensão paralela em que as "regras" musicais/sonoras parecem funcionar de formas completamente novas, seguindo padrões e caminhos que devem ter saido apenas da mente de Sophie. Definir a sonoridade da artista é quase uma missão impossível, pois o álbum consegue quebrar qualquer limite entre gêneros, sub-gêneros e estilos ao ser a fusão de dezenas deles em uma construção metamórfica e dinâmica. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES vai se transformando em fragmentos de sons em cada canção para ser reconstruído a bel-prazer de Sophie e a sua mente a frente do tempo. Tentando encontrar alguns parâmetros, o álbum seria um genial e incomparável avant-pop com pitadas pesadas de eletrônico, industrial, art pop, indie pop, experimental pop e até o pop mais tradicional. Sem ter medo de ir mais longe que poderia ser esperado, Sophie entrega um álbum que exala uma incontável e impressionante quantidade de sensações e sentimentos. 

OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum melancólico. Apesar de todas as batidas que foram agregadas, Sophie parece contemplar o horizonte de um planeta em destruição sentada a beira de um precipício e lembrando dos tempos de felicidade. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum sensual. Apesar de batidas fortes e marcantes, a sonoridade parece evocar um sinuoso espirito dançante de uma ninfa aquática fazendo a sua aparição em um lago sombrio e fascinante. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum divertido. Apesar de soar sisudo em vários momentos, a atmosfera geral do trabalho tem um senso de humor distorcido de um comediante alternativo e nada sério. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum denso e leve ao mesmo tempo como se fosse feito de uns cem quilos de penas de ganso agrupadas. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum pragmático. As composições sucintas em palavras, mas cheias de intenções do álbum mostram uma compositora que sabe sobre o que quer falar e reflete sobre as suas dores de forma até mais direta que a gente poderia imaginar em um álbum tão grandioso sonoramente. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum abstrato. As suas composições parecem quer esconder alguns significados profundos atrás de divertidas construções liricas que devem ser melhor analisadas e refletidas. OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES é um álbum difícil de ouvir, mas que para aqueles que se deixam entrar nesse mundo será muito difícil de sair intacto dessa experiência."

6. Dirty Computer
Janelle Monáe


"Novamente mudando a atmosfera da sua sonoridade como fez do primeiro para o segundo álbum, mas mantendo as mesmas bases sólidas de sempre, Dirty Computer vem para ser o álbum de transição e, ao mesmo tempo, de edificação da imagem da cantora como uma força da natureza. Envernizado com as cores do pop em sua finalização, o álbum é, na verdade, um rico, energético e de tirar o fôlego trabalho de R&B com geniais e incríveis flertes com indie R&B/pop, rock, hip hop, funk, neo soul e até algumas pitadinhas de bossa nova. Sem a pressão de criar canções de grande sucesso comercial, Janelle e a sua produção não tem medo de brincar com as mais diferentes texturas sonoras, indo profundamente em ideias que poderiam ser o freio para outras cantoras. 

Refinado do começo ao fim, Dirty Computer tem uma sonoridade que vai sendo modelada de acordo com a forma que a cantora precisa para ser a portadora da sua mensagem. Sempre coeso e de uma fluidez límpida, Dirty Computer é como uma refeição de oito pratos diferentes, mas que se comunicam entre si um após o outro. Maduro como poucas artistas no terceiro álbum, Dirty Computer não deixa, porém, de mostrar frescor revigorante no momento que a produção tira da cantora qualquer lugar confortável em que já esteve, fazendo o trabalho sempre ter aquele cheiro de coisa nova a cada melodia. Moderno quando Janelle deixa-se se abduzir por gêneros que até então não tinha se arriscado sozinha, Dirty Computer também sabe usar os alicerces originais da sonoridade da cantora para dar a base sólida de todas as música, pois quem ouve cada faixa sabe que as canções são obras de Janelle Monáe. Divertido, dançante, dinâmico, magnético, sexy, provocador, provocativo e de uma beleza estética quase perfeita, Dirty Computer falta aquela pomposidade elegante dos dois primeiros trabalhos da cantora. Todavia, essa falta é substituída pela sensação de organicidade sobre a artista já que estamos diante do álbum mais pessoal da sua carreira."

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